Ipês de Cascavel: a cidade muda de cor quando agosto chega

A previsão do tempo não colaborou em nada. Três dias de céu nublado, chuva indo e voltando, e a gente com os equipamentos prontos no carro, esperando uma janela de luz. O motivo da teimosia estava do lado de fora: as avenidas de Cascavel tinham amanhecido floridas, e florada de ipê não espera ninguém.
Foi assim que passamos esses dias de agosto de 2026: num dia gravamos um pedaço da avenida Tancredo Neves, no outro corremos pra mais um ponto da cidade antes de a chuva voltar. A patroa foi indicando os lugares que valiam imagem, nossa sobrinha foi junto, e eu me dividia entre o volante, a câmera e o drone.
A cidade que troca de cor
Todo ano é a mesma coisa, e todo ano eu me pego olhando pra cima como se fosse a primeira vez. Aqui eu conto como foi correr atrás dos ipês por três dias de tempo fechado, o que o drone mostrou lá de cima e por que essa florada desaparece quase tão rápido quanto chega. Se tu mora em Cascavel e nunca reparou nas árvores da tua rua, duvido que depois desse texto tu passe direto de novo.
Primeiro vem o roxo
Olha só como funciona a ordem dessa florada. Quem costuma abrir a temporada é o ipê roxo, ainda no meio do inverno. De repente aparecem uns pontos roxos espalhados pela paisagem, meio tímidos, como quem chega cedo na festa e fica esperando o resto do pessoal.
Depois entram os amarelos, que pra mim são os mais escandalosos. O pico deles costuma cair justamente em agosto, e quando uma fileira de ipê amarelo floresce junta, parece que alguém acendeu a rua. Por último chegam os brancos, os mais apressados de todos: tem árvore de ipê branco que fica florida por dois ou três dias e pronto, acabou.

Aí que tá o detalhe que muita gente não sabe: esse calendário não é fixo. O clima manda na florada. Ano mais seco, a flor dura menos. Frio fora de hora, tudo se desloca. Neste agosto, aqui no oeste do Paraná, deu pra ver as três cores pela cidade, cada uma no seu ponto. Pra quem grava vídeo, foi um presente. Pra quem só passa de carro, é o tipo de coisa que passa batida se a pessoa não levantar o olho do trânsito.
Três dias correndo atrás de flor
A ideia era mostrar a florada de três jeitos: de cima com o drone, em movimento de dentro do carro, e no detalhe, caminhando pela calçada. Cada formato conta uma parte. De cima se vê o desenho que as copas formam. Do carro se vê o que qualquer morador vê no dia a dia. A pé se vê a flor de perto, o galho carregado, o chão forrado.
Só que o tempo não leu o roteiro. Céu fechado, garoa aqui, abriu ali, fechou de novo. Resultado: gravamos em pedaços. Um dia rendeu um trecho da Tancredo Neves, no outro voltamos pra pegar o que tinha faltado, e ainda rodamos por outros pontos da cidade seguindo as indicações da Thaísa. Em tempo nublado, cada meia hora de céu mais claro vale ouro, e a rotina virou essa: estacionar, avaliar a luz, decidir se valia tirar o drone da mochila ou se era melhor gravar do chão.

E teve o lado bom da lentidão. Andando a pé, sem pressa, a gente repara no que o carro esconde. Embaixo de cada árvore, um tapete de flores. Não é folha seca, é flor inteira: o ipê solta a flor inteirinha, em forma de cornetinha, e ela desce rodando até a calçada. Tinha trecho de calçada tão coberto que dava até pena de pisar.
O Mangabinha entre os postes
Voar drone em avenida de cidade é bem diferente de voar na praia. Ali em cima não tem só árvore: tem poste, tem fiação, tem movimento. Fui com calma, subindo o Mangabinha com um olho na tela e outro nos fios.

Rapaz, e a recompensa veio na tela: as copas floridas vistas de cima formam um desenho que ninguém enxerga do chão, manchas de roxo, amarelo e branco costurando o traçado das avenidas. O voo correu tranquilo e as imagens ficaram ótimas. É só isso que eu tinha pra dizer dessa parte.
Por que a árvore floresce no frio?
Tem uma coisa curiosa nos ipês: eles florescem justamente na época mais seca e fria do ano. E boa parte deles ainda derruba as folhas antes de florir, então a copa fica só flor, sem verde nenhum competindo. É por isso que a cor fica tão intensa: a árvore inteira vira um buquê.

Pra um cearense como eu, morar no inverno do Paraná já é teimosia. Árvore resolver florir nesse frio, então, é coragem pura. Fico pensando na engenharia disso tudo: no meio da estação em que a paisagem parece parada, essas árvores dão o show delas. Pra mim, é daquelas obras do Criador que a gente ganha na porta de casa, sem ingresso e sem pegar estrada. Tanto que o ipê é considerado a flor nacional do Brasil.
Quanto custa ver isso tudo
Nada. Esse talvez seja o passeio mais barato que já rendeu conteúdo aqui no blog: o custo foi o combustível de rodar pela cidade e a paciência de esperar o céu abrir. Comparando com passeio de parque, trilha ou praia, é imbatível. A florada está aí, na rua, de graça, pra quem quiser olhar.
Se você quiser caçar os ipês em Cascavel, olha isso aqui
- Comece a reparar nas árvores já no fim de julho, quando os primeiros roxos aparecem. Agosto costuma ser o mês mais garantido pra ver mais de uma cor.
- Viu uma árvore carregada, registre no mesmo dia. Amanhã pode ter caído tudo.
- A luz baixa do comecinho da manhã ou do fim da tarde deixa as cores mais bonitas nas fotos.
- Vai voar drone em área urbana? Autorização no SARPAS é obrigatória, e atenção redobrada com postes e fiação.
- De carro, reduza e olhe os canteiros e calçadas. A Tancredo Neves rende, mas outras avenidas da cidade também florescem.
No fim do terceiro dia, guardei o Mangabinha no case com o céu ainda fechado. Revi o material: ficou melhor do que o tempo merecia. Daqui a poucos dias essas flores todas vão estar no chão, a avenida volta a ser só avenida, e quem não reparou vai ter que esperar um ano inteiro.
Agora me conta: entre o roxo, o amarelo e o branco, qual ipê ganha o teu voto?
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