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Brasil sem D. João VI: os três países que quase existiram

·8 min de leitura·por Helio Pere
Brasil sem D. João VI: os três países que quase existiram

A página 289 do livro 1808 trouxe uma pergunta que eu não esperava achar num livro de história: e se a corte portuguesa nunca tivesse vindo pro Rio de Janeiro? Laurentino Gomes chama isso de avaliar a herança de D. João VI pelo avesso. Parei a leitura da noite e fotografei a página com o celular, porque aquilo ali merecia ser conferido depois com calma.

A resposta que o livro dá é curta e desconfortável. Boa parte dos historiadores acha que o Brasil simplesmente não existiria na forma atual. A Independência e a República teriam vindo mais cedo, e a antiga colônia portuguesa se quebraria num retalho de países pequenos, parecido com a vizinhança hispano-americana, sem nada em comum além do idioma.

Antes de seguir, uma conta que ninguém faz

Tem um historiador estrangeiro que não ficou só no achismo: ele desenhou no papel os países que teriam nascido aqui, com nome, com fronteira e com província listada uma por uma. Fui atrás do trabalho dele pra conferir se a conta fecha. Fechou de um jeito que mexe com a minha vida, com o lugar onde eu nasci e com a estrada que eu rodo até hoje. Vem comigo até o fim que você vai entender o porquê.

A pergunta pelo avesso

O raciocínio do livro é simples de entender e difícil de engolir. Se a família real tivesse ficado em Lisboa, não haveria governo central forte no Rio de Janeiro pra segurar as pontas. Sem esse centro, as províncias iam cada uma pro seu lado, do mesmo jeito que aconteceu com o antigo império espanhol, que virou uma dúzia de repúblicas separadas.

Laurentino lista as consequências, e algumas doem de ler. Brasília nunca teria sido construída. Criança gaúcha aprenderia na escola que a floresta amazônica fica num país estrangeiro, lá pro norte, fazendo fronteira com Colômbia, Venezuela e Peru. Nordestino não poderia migrar pra São Paulo. Paulista que quisesse veranear nas praias da Bahia ou do Ceará teria de tirar passaporte e, dependendo do humor da diplomacia, pedir visto de entrada.

Tem uma parte que eu achei mais concreta que todas as outras. Vender produto de uma região pra outra viraria importação. Carioca, paulista e paranaense mandando mercadoria pra Goiás ou Mato Grosso pagariam tarifa, e os de lá pagariam na volta.

Os três países que o Barman desenhou

O historiador citado no livro é Roderick J. Barman, autor de Brazil: The Forging of a Nation, 1798-1852, publicado pela Stanford University Press em 1988. Laurentino o apresenta como americano. Aí que tá: Barman estudou em Cambridge, na Inglaterra, fez doutorado em Berkeley e construiu a carreira toda na Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, onde é professor emérito de História. Detalhe pequeno, mas quem cobra fonte gosta de saber quem é quem. O perfil dele está no site da própria universidade.

Barman trabalha com a hipótese de que o Brasil teria se desintegrado em três países. O primeiro ele chamou de República do Brasil, juntando o que hoje é Sul e Sudeste mais Goiás e Mato Grosso. O segundo seria a República do Equador, no Nordeste, com Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. O terceiro nasceria no Norte, com Maranhão, Grão-Pará e a Província do Rio Negro, onde hoje é o Amazonas. O Piauí ficava como incógnita, podendo cair pra qualquer um dos dois lados.

A escolha do Nordeste como candidato à separação não foi chute. A região tinha vivido três grandes insurreições em menos de trinta anos: a Revolta dos Alfaiates, na Bahia, em 1798, a Revolução Pernambucana de 1817 e a Confederação do Equador, de novo em Pernambuco, em 1824. Era terreno pronto pra autonomia caso o Rio de Janeiro não tivesse força pra segurar.

Minha vida caberia em três passaportes

Foi aqui que a leitura deixou de ser assunto de livro e virou assunto meu. Eu nasci no Ceará e vivi alguns anos por lá. No mapa do Barman, isso me faz cidadão da República do Equador. A infância em Caculé, na Bahia, também cai no mesmo país, então até aí tudo bem.

O problema começa depois. Passei anos no interior de Minas Gerais vendendo na calçada com meu pai, e Minas está na República do Brasil. Hoje eu moro em Cascavel, no Paraná, mesmo país, o que resolveria a parte da moradia e criaria outra: cada visita à minha terra natal exigiria documento, fila e carimbo. Rapaz, imagina explicar pro fiscal de fronteira que você só quer comer um cuscuz na casa da família.

E ainda tem o terceiro país. Passei nove dias em São Luís do Maranhão em maio de 2025, uma das cidades que mais me surpreenderam no Brasil inteiro. Na hipótese do Barman, aquela viagem seria internacional. Nove dias, três moedas possíveis, e a chuva do Maranhão continuaria caindo do mesmo jeito, porque isso nenhum tratado resolve.

A parte que já aconteceu de verdade

Aqui entra o que mais me chamou atenção na pesquisa. A fragmentação quase virou realidade em 1822 e 1823. As províncias do Norte e do Nordeste não aderiram à Independência de boa vontade. Foi preciso força militar pra convencê-las a romper com Portugal.

Na Bahia, a guerra se arrastou por mais de um ano e só terminou em 2 de julho de 1823, com o bloqueio naval comandado pelo inglês Thomas Cochrane. No Piauí, tropas formadas por piauienses e cearenses enfrentaram os portugueses na Batalha do Jenipapo, em Campo Maior, no dia 13 de março de 1823. Militarmente foi derrota do lado brasileiro, embora as fontes divirjam bastante na hora de avaliar o resultado do combate. No Maranhão e no Grão-Pará a adesão veio com navio de guerra na porta, com Cochrane em São Luís e John Pascoe Grenfell em Belém, até agosto de 1823. Meus conterrâneos do Ceará estavam ali, no meio dessa briga, e isso quase nunca aparece na aula de sete de setembro.

E teve pedaço que se soltou mesmo. A Província Cisplatina virou o Uruguai depois da guerra de 1825 a 1828, encerrada pela Convenção Preliminar de Paz assinada no Rio de Janeiro em agosto de 1828. As fontes divergem entre os dias 27 e 28, então fico no mês. Uma parte do território se desfez a menos de dez anos da Independência.

Nas Cortes de Lisboa a desunião também apareceu na conta. Laurentino registra que o Brasil tinha direito a 65 deputados e só 46 compareceram, diante de cem delegados portugueses. Outras fontes trazem números diferentes, falando em 92 ou 97 eleitos com pouco mais de cinquenta empossados. Não vou fingir que existe consenso onde não existe. O que todas as versões confirmam é o miolo da história: os brasileiros chegaram tarde, chegaram em minoria e chegaram divididos. A bancada de Minas Gerais, a maior de todas, nunca saiu do Brasil. Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul também ficaram.

O Paraná nem província era

Um detalhe que o próprio livro aponta e que eu conferi na fonte: na época dessa história, o Paraná ainda fazia parte de São Paulo. A separação só veio pela Lei Imperial nº 704, de 29 de agosto de 1853, assinada por D. Pedro II, que elevou a comarca de Coritiba, grafada com C mesmo, à categoria de província. O texto dá à nova província um senador, um deputado e uma assembleia de vinte membros. Está inteiro no portal da Câmara dos Deputados e leva menos de dois minutos pra ler.

Onde eu discordo, e um deslize do livro

Agora falo por mim, deixando claro que isto é opinião e não fato documentado. Acho que o texto puxa demais pro lado da genialidade de D. João VI. Olhando as datas, a unidade do território parece ter sido garantida menos por talento político e mais por canhão, bloqueio naval e almirante inglês contratado. O próprio Laurentino é honesto ao chamar a hipótese toda de devaneio à luz do Brasil de hoje.

Já que eu estou cobrando rigor, cobro de mim também e aponto um escorregão. A mesma página 289 diz que Brasília foi plantada no cerrado por Juscelino Kubitschek em 1961. A inauguração foi em 21 de abril de 1960, com o discurso do presidente registrado nos arquivos oficiais. Um ano de diferença não derruba o argumento do capítulo, mas em livro de história a data é o alicerce. Quem já publicou coisa errada com toda a confiança do mundo, e eu já, sabe como esse tipo de deslize passa fácil.

Se você quiser conferir tudo isso por conta própria, olha isso aqui
  • O livro base é 1808, de Laurentino Gomes, Editora Planeta, 2007. O trecho da hipótese está no capítulo O Novo Brasil, a partir da página 289.
  • A lei que criou o Paraná está digitalizada e é de graça: Lei nº 704, de 29 de agosto de 1853. Ler documento original vale mais que ler dez resumos.
  • Sobre a perda da Cisplatina, a Biblioteca Nacional tem um artigo com as datas do tratado.
  • Quando duas fontes divergirem em número, desconfie das duas e escreva a divergência no texto. Ficar bonito importa menos que ficar certo.
  • O livro do Barman não tem edição fácil de achar em português. O perfil acadêmico dele, com a lista de obras, está no site da universidade canadense.

Terminei a leitura pensando na parte prática da coisa. Da minha casa em Cascavel até a casa da minha família no Ceará são milhares de quilômetros de asfalto, pedágio caro e posto de gasolina duvidoso. Só que é tudo o mesmo país. Não tem fronteira, não tem carimbo, não tem tarifa em cima da bagagem. Isso eu nunca tinha parado pra achar estranho.

E você, se o Brasil tivesse virado três países como o Barman imaginou, em qual deles teria nascido, e quantos vistos precisaria tirar pra visitar sua própria família?

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