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Encilhamento, a febre de dinheiro fácil que quebrou a República

·9 min de leitura·por Helio Pere
Homens de cartola disputando espaço na calçada. Boa parte do negócio do Encilhamento acontecia assim, fora do recinto da Bolsa.

Dava pra ficar milionário numa tarde no Rio de Janeiro de 1890. Comprava ação de uma companhia recém-criada pela manhã, o papel subia no meio do dia, vendia antes que alguém perguntasse o que exatamente aquela empresa produzia. Boa parte disso acontecia na calçada, na porta de confeitaria, longe do recinto da Bolsa.

Parei nessa parte lendo 1889, do Laurentino Gomes (Editora Globo, 2013), e resolvi puxar o fio até o fim. O período tem nome: Encilhamento. E tem um pedaço da história que quase nunca aparece nos resumos.

Antes de continuar, um aviso

Esse assunto tem uma virada, e ela não está no começo do texto. Tem a versão que a gente aprendeu na escola, e tem a pessoa que escreveu essa versão, com nome, sobrenome e interesse próprio no assunto. Recomendo ler até o fim, porque a parte que mais me incomodou está lá embaixo.

A conta que 1888 deixou em cima da mesa

A abolição veio em 13 de maio de 1888. A República foi proclamada em 15 de novembro de 1889, um ano e meio depois. No meio disso, a lavoura de café, que sustentava a economia do país, precisava pagar salário a trabalhador livre num lugar onde faltava dinheiro em circulação. Faltava moeda de verdade, e isso já era discussão dos últimos anos do Império.

Negócio fechado na calçada, na porta da confeitaria, com o papel na mão. Boa parte do Encilhamento acontecia assim, fora do recinto da Bolsa. Imagem ilustrativa.

A resposta encontrada foi abrir crédito e aumentar a quantidade de dinheiro. No papel, a ideia até se sustenta. O fazendeiro pega o empréstimo, paga o salário, colhe o café, vende, devolve. A inflação que viesse seria menor que o estrago de uma lavoura parada. Aí que tá: isso depende inteiramente de o dinheiro ir parar onde estava combinado.

O plano não nasceu com a República

Essa foi a primeira surpresa da pesquisa. O Encilhamento começou antes do 15 de novembro, com o visconde de Ouro Preto, último ministro da Fazenda e presidente do Conselho de Ministros do Império. Ele criou um novo banco emissor, o Banco Nacional do Brasil, espalhou os chamados auxílios à lavoura por meio de bancos e mirava o retorno à antiga paridade de 27 pence por mil-réis. O programa dele, aliás, era declaradamente o de inutilizar a República.

Balcão de banco emissor com as pilhas de cédulas do lado de dentro. Foi essa autorização para bancos privados imprimirem dinheiro que abriu a torneira. Imagem ilustrativa.

Quer dizer que a política que ficou marcada como pecado de origem do novo regime foi gestada na Monarquia, pelo ministro que queria justamente salvar a Monarquia. O economista Gustavo H. B. Franco, no verbete sobre o Encilhamento do Atlas Histórico do Brasil, da FGV, escreve sem rodeio que não há dúvida de que a coisa começou ali.

Dezessete de janeiro de 1890, o primeiro pacote econômico

Rui Barbosa assumiu a Fazenda no Governo Provisório e, em 17 de janeiro de 1890, publicou uma leva de decretos. O de número 165 autorizava bancos a emitir bilhetes ao portador, dividindo o país em três regiões, Norte, Centro e Sul, cada uma com seu banco emissor. Outros afrouxaram as regras para abrir sociedades anônimas. Dá pra ler o texto original, com todo aquele português de 1890, no acervo da Câmara dos Deputados.

Mesa tomada de títulos de companhia recém-aberta, com fila do lado de fora esperando a vez. A Bolsa do Rio saltou de pouco mais de 90 empresas listadas em 1888 para cerca de 450 em 1891. Imagem ilustrativa.

O efeito foi imediato. A Bolsa do Rio tinha pouco mais de 90 companhias listadas no início de 1888 e chegou a cerca de 450 em meados de 1891. Machado de Assis, nas crônicas dele, se referia ao 17 de janeiro como o primeiro dia da criação. Não sei se era elogio.

De onde vem o nome, e onde o dinheiro foi parar

Encilhar é arrear o cavalo. No hipódromo, o encilhamento era o momento em que os animais eram preparados, ali do lado da pista, e as apostas se acertavam por perto. A imprensa começou a usar a palavra por volta de 1888 pra falar com deboche do que acontecia com ações e debêntures, dentro e principalmente fora da Bolsa, em bar, em confeitaria, no meio da rua.

O dinheiro que deveria financiar café e salário virou combustível de fundação de empresa. Muita empresa. Algumas existiam só no registro. José Murilo de Carvalho, em Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi (Companhia das Letras, 1987), resumiu aquilo como a vitória do espírito do capitalismo desacompanhado da ética protestante. Rapaz, é uma frase dura, e ela serve.

A conta chegou, e chegou em pence

O mil-réis era cotado em pence, a moeda inglesa. Quando a República foi proclamada, estava em 27. No decorrer de 1892, oscilou entre 16 e 10. Em 1898, desceu pra menos de 6. Os números estão reunidos na História Econômica do Brasil, de Caio Prado Júnior.

Traduzindo pra vida de quem acordava cedo: o Rio de Janeiro importava quase tudo que consumia. Quando a moeda derrete assim, comida, aluguel e roupa sobem atrás. Quem morava em cortiço e trabalhava jornada de 12 ou 14 horas pagou essa conta primeiro, e pagou sozinho.

Uma família fazendo a compra do dia numa rua do Rio. O preço da comida subia atrás do câmbio, e quem morava em cortiço sentia antes de todo mundo. Imagem ilustrativa.

Tem ainda um detalhe que some dos resumos. No fim de 1890, o banco inglês Baring Brothers entrou em crise por causa da exposição à Argentina, e o capital estrangeiro fugiu da América do Sul inteira. O tombo do câmbio brasileiro em 1891 tem esse componente vindo de fora, somado às emissões. Se o peso maior foi da impressora de dinheiro ou da fuga de capital, se discute até hoje. Rui Barbosa defendeu a própria versão em discursos que virariam livro em 1892.

Quem escreveu a versão que a gente aprendeu

Chegamos na parte que mais me incomodou. A imagem do Encilhamento como festa de picareta foi fixada por um romance. Em 26 de fevereiro de 1893, a Gazeta de Notícias começou a publicar em folhetim O Encilhamento, cenas contemporâneas, assinado por Heitor Malheiros, pseudônimo de Alfredo d'Escragnolle Taunay, o visconde de Taunay. Gente de verdade aparecia com o nome trocado. O conselheiro Mayrink virou Meyermayer. Paulo de Frontin virou Lamarin.

Taunay era monarquista, teve carreira política e fortuna pessoal abaladas com a troca de regime e nunca fez questão de parecer isento. O romance pegou, virou leitura obrigatória e a historiografia foi atrás. Gustavo Franco chama atenção pra isso e acrescenta que a pesquisa mais recente encontrou crescimento real e avanço industrial naqueles mesmos anos, misturados com a bagunça toda.

Minha opinião, e aqui é opinião mesmo: as duas coisas convivem sem problema. A roubalheira aconteceu e está documentada. E a versão que sobrou pra gente foi escrita por um adversário derrotado do regime que ele descrevia. Quando descubro quem contou a história, costumo querer conferir o resto.

Inflação, pra mim, não é capítulo de livro

Entre 1986 e 1994, o dinheiro brasileiro trocou de nome cinco vezes: cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real e, enfim, real. Nesse último trecho eu estava vendendo produto natural na calçada, no interior de Minas Gerais, junto com meu pai.

De março a junho de 1994 a gente viveu aquela esquisitice da URV. O preço na loja vinha marcado em URV, o pagamento saía em cruzeiro real, e todo mundo parava na frente da prateleira fazendo conta de cabeça pra descobrir quanto aquilo custava de verdade. A URV começou em CR$ 647,50 e terminou, no dia 30 de junho, em CR$ 2.750. Eu entrava nas lojas só pra olhar quanto valia a URV naquele dia, mais por curiosidade do que por compra.

A URV nunca virou cédula. Era só uma unidade de conta, e serviu para segurar o preço enquanto o cruzeiro real derretia. As notas que a gente pegou na mão em 1º de julho de 1994 já eram do real.

No dia 1º de julho vieram as cédulas novas, e foi uma empolgação que hoje me arranca um sorriso meio torto. Um real valia um dólar. A conversa no balcão, na fila, no meio da rua, era sempre a mesma: agora o nosso dinheiro vale igual ao do americano, agora a gente compra o que eles compram. Só que câmbio de um por um é uma coisa e poder de compra é outra bem diferente. Levou pouco tempo pra ficha cair.

Guardadas as distâncias todas, foi essa lembrança que me fez entender a empolgação de 1890. Quem viveu entende na hora o que significa uma moeda mudar de valor debaixo do pé. Quem não viveu olha o número e vira a página.

Se você quiser cavar esse assunto por conta própria
  • As Obras Completas de Rui Barbosa estão digitalizadas e liberadas pela Fundação Casa de Rui Barbosa. Dá pra ler ele se defendendo com as próprias palavras, sem intermediário
  • O Arquivo Nacional mantém uma página sobre o Banco da República do Brasil, o gigante que nasceu das fusões bancárias da crise
  • Se for ler o romance do Taunay, leia sabendo de que lado ele estava. Continua valendo como documento, desde que você desconte a mão pesada
  • Pra ver o período pela ficção sem escolher lado, Esaú e Jacó, do Machado de Assis, é o caminho mais equilibrado que encontrei citado pelos pesquisadores

Fechei o livro incomodado, o que pra mim é sinal de leitura boa. Fica a impressão de que o Brasil já testou o dinheiro fácil, já viu no que dá, e mesmo assim a coisa é contada como se tivesse sido um deslize isolado de um ministro entusiasmado.

E você, já tinha ouvido falar que o Encilhamento começou ainda no Império, pela mão do ministro que queria salvar a Monarquia? Me conta se essa parte apareceu no seu livro de escola, porque no meu não apareceu.

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