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Migração nordestina para São Paulo: a história esquecida

·8 min de leitura·por Helio Pere
Migração nordestina para São Paulo: a história esquecida

Eu tinha dez anos quando entrei na carroceria de um caminhão em Caculé, na Bahia, junto com toda a minha família. Não era pau de arara. Era caminhão de carga mesmo, com mercadoria dentro, e a gente sentou ali no meio das coisas até Vitória da Conquista. Não lembro quase nada da estrada. Lembro do caminhão.

Isso foi em 1985, e ainda assim era um jeito de viajar que já vinha de longe. Décadas antes, milhões de nordestinos tinham feito o mesmo movimento, só que muito mais longe e em condições muito piores, descendo para São Paulo em cima de tábuas pregadas na carroceria.

Uma história que a cidade preferiu não contar

São Paulo virou o estado mais rico do Brasil com o braço de gente que chegou sem nada e foi mandada embora do centro. Tem número, tem lei, tem reportagem premiada e tem uma comemoração enorme que fingiu que nada daquilo estava acontecendo. Fica comigo até o fim que eu te conto o que descobri.

Por que saíam

A explicação de escola é a seca. Ela existe e pesa, mas sozinha não dá conta. Quem estuda o período mostra que São Paulo foi atrás dessa gente de propósito.

Com a queda da imigração estrangeira nos anos 1930, a Secretaria de Agricultura de São Paulo criou, em 1935, uma política de estímulo à vinda de trabalhadores nacionais pra lavoura paulista de café e algodão. Em 1939 veio o Departamento de Imigração e Colonização, ligado à Secretaria de Indústria e Comércio, com a função de conduzir migrantes nacionais até as fazendas. Só naquele ano estima-se a entrada de cerca de 100 mil nordestinos e mineiros no estado. Os dados estão no acervo do Museu da Imigração do Estado de São Paulo.

Ou seja: teve fome empurrando de um lado e teve recrutamento organizado puxando do outro. A conta fecha nos números. Nos anos 1920, pouco mais de 7 mil brasileiros de outras regiões moravam no estado de São Paulo. Em 1950 esse número já passava de 1 milhão.

A viagem

O nome vem de antes do caminhão. Câmara Cascudo registra que pau de arara era a vara usada pra transportar araras e papagaios. O apelido pulou pro veículo, e depois, do jeito mais cruel, pulou pra própria pessoa que viajava nele.

A estrutura era simples: tábuas pregadas na carroceria servindo de banco, lona ou encerado por cima, nenhuma norma de segurança. Em outubro de 1955, os jornalistas Mario de Moraes e Ubiratan de Lemos, da revista O Cruzeiro, resolveram fazer a viagem disfarçados de migrantes. Levaram roupa velha num saco e uma máquina Rolleiflex escondida. Foram 11 dias e cerca de 2.300 quilômetros, de Salgueiro, em Pernambuco, até o Maranhão, com 102 pessoas, um cachorro e um curió na mesma carroceria. A reportagem se chamou "Uma tragédia brasileira: os paus-de-arara" e ganhou o primeiro Prêmio Esso de Jornalismo.

O que eles registraram não foi só desconforto. Foi abandono. Motoristas simulavam enguiço e deixavam passageiros na estrada. Outros despejavam nos subúrbios do Rio de Janeiro quem tinha pagado pra ir até São Paulo.

O Estado tentou responder proibindo. José Américo de Almeida, governador da Paraíba a partir de 1951, proibiu o tráfego de paus de arara nas estradas do estado. O Departamento Nacional de Estradas de Rodagem proibiu na Rio-Bahia e na Via Dutra. Em 1957, o ministro da Justiça pediu ao governador de São Paulo a proibição nas estradas paulistas. O efeito prático foi o contrário do pretendido: os motoristas passaram a viajar de madrugada pra fugir da fiscalização, e a propina subiu. Ninguém deixou de vir. Só passaram a vir de noite.

Quem veio assim

Luiz Gonzaga gravou "Pau de arara" e depois "Último pau de arara", e em 1950 fez apelo público pela construção de uma hospedaria decente pro trabalhador nordestino em São Paulo. O Correio Paulistano de 27 de março de 1951 estampou na capa que não havia hospedagem digna pros migrantes na cidade.

Luiz Inácio Lula da Silva saiu de Pernambuco em 13 de dezembro de 1952, com sete anos, nesse mesmo tipo de transporte. Ele contou a viagem publicamente em 2023, na sanção da Lei 14.641, que reconheceu o pau de arara em romaria como patrimônio cultural imaterial do Brasil: caminhão sem encosto atrás, encerado por cima, e a família dormindo embaixo do veículo quando ele parava.

Foram milhões de histórias parecidas, quase todas sem registro nenhum.

A hospedaria do Brás

Quem chegava era encaminhado pra Hospedaria de Imigrantes do Brás, o mesmo prédio que antes recebia italianos, espanhóis e japoneses. Segundo o Museu da Imigração, cerca de 1,75 milhão de migrantes brasileiros passaram por lá, a maioria nordestinos, e o funcionamento se estendeu até 1978.

Nem todo mundo podia ficar na capital. Nos relatos orais guardados no acervo do museu, um casal conta que nos anos 1940 o nordestino era obrigado a seguir pro interior, e as famílias sem parentes na cidade eram destinadas a Marília, Bastos, Araraquara, como colonos, muitas vezes nas mesmas casas onde antes moraram os europeus.

A Bahia Nova

Depois vieram as fábricas, e com elas o bairro que virou símbolo. São Miguel Paulista, na zona leste, tinha cerca de 7 mil habitantes em 1940. Em 1960 passava de 140 mil. A âncora foi a Companhia Nitro Química Brasileira, fundada em 1935. O bairro ganhou o apelido de Bahia Nova.

O historiador Paulo Fontes reconstruiu isso em "Um Nordeste em São Paulo: trabalhadores migrantes em São Miguel Paulista, 1945-1966", de 2008. A edição em inglês do livro venceu o Thomas E. Skidmore Prize em 2011. Um dos pontos que mais me chamou atenção na pesquisa dele é a autoconstrução: em 1980, calculava-se que 63% das moradias da Grande São Paulo tinham sido levantadas pelos próprios moradores, em mutirão de parente e amigo, nos fins de semana.

A cidade cresceu por fora, em terreno sem água, sem luz, sem esgoto e sem correio. Quem construiu São Paulo morava na parte de São Paulo que São Paulo não atendia.

A festa que esqueceu

Em 1954 a cidade comemorou o IV Centenário com desfiles, monumentos e discurso. Exaltou Anchieta, os bandeirantes, o desbravamento do interior, o pioneirismo econômico. Circulou com força a ideia de que os verdadeiros paulistanos eram os descendentes dos imigrantes estrangeiros.

Era exatamente o auge do fluxo nordestino. Entre 1950 e 1960, a capital recebeu 1 milhão de migrantes, o equivalente a 60% de todo o crescimento dela no período. O Censo de 1970 mostrou que 70% da população economicamente ativa da cidade tinha passado por alguma experiência migratória. Os números aparecem em resenha publicada na Revista Brasileira de História.

A festa aconteceu sem eles.

Se você quiser ir atrás dessa história de perto
  • O Museu da Imigração fica no Brás, no prédio da antiga Hospedaria, e tem estação de metrô e trem quase na porta
  • O acervo online do museu tem relatos orais de migrantes e é gratuito, dá pra ouvir de casa
  • Se for procurar o nome de algum parente que passou pela Hospedaria, leve a data aproximada da chegada, facilita muito a busca nos registros
  • Confirme horário e valor no site oficial antes de ir, porque isso muda

Pra quem prefere leitura, tem dois caminhos bons e bem diferentes entre si.

Três leituras que sustentam esse assunto
  • "Um Nordeste em São Paulo", de Paulo Fontes, pra entender o bairro por dentro
  • "Quando eu vim-me embora", de Marco Antonio Villa, que conta a migração pela voz dos próprios migrantes
  • "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, de 1938, que é ficção mas explica o empurrão inicial melhor que muito relatório

Meus dois meses

Eu fiz uma versão minúscula desse caminho aos 18 anos. Fui morar em Santo André, na casa de um amigo, com a ideia de ficar. Fiquei uns dois meses.

Esperava algum tipo de estranhamento por causa do sotaque e não veio nada disso. Fui bem recebido, bem tratado, fiz amizade. Estava fazendo frio e eu não tinha nenhuma roupa de frio, nenhuma mesmo, e as pessoas me deram algumas. Conheci a Avenida Paulista e subi no estúdio da Rádio Antena 1. Voltei assim mesmo. A gente tem que estar perto da família, das nossas raízes.

Meu tio e meus primos fizeram o contrário e ficaram. São dois tios e quatro primos em Osasco, vindos do Nordeste, com comércio na região metropolitana, morando lá até hoje. Toda família nordestina tem um Osasco na história. O meu tem nome, endereço e loja aberta.

Quem volta

A corrente também inverteu. Pesquisa de Silvana Nunes de Queiroz e Rosana Baeninger, publicada em Cadernos de Estudos Sociais, mostra que o Ceará foi o estado com a maior proporção de retornados do país em dois períodos medidos, 51,83% entre 1986 e 1991 e 43,61% entre 2005 e 2010. O maior volume desses retornados veio de São Paulo.

E São Paulo continua com a marca. O Censo de 2000 contou 3.641.148 nordestinos na região metropolitana paulista, cerca de 20% da população dali, conforme estudo publicado na base Pepsic.

Toda vez que eu passo por Guarulhos entre um voo e outro, olho aquele movimento e penso nas tábuas pregadas na carroceria. Meu caminhão de 1985 tinha mercadoria dentro e ninguém achou aquilo estranho, nem a gente. Era o transporte que existia.

Alguém da sua família fez esse caminho de ida ou de volta? Me conta de onde saiu e pra onde foi.

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