Medicina no Brasil Império: barbeiro, sangria e dente arrancado

A primeira vez que eu tirei um dente foi em Caculé, na Bahia. Dente de leite ainda. Fui com muito medo e chorando, do jeito que criança vai. Mas tinha anestesia.
Guarde essa última frase. No Brasil do Império, ela simplesmente não existiria.
O que eu fui descobrir sobre aquela cadeira
Comecei procurando uma coisa boba, como é que se arrancava um dente em 1850, e acabei caindo num assunto que mexe com quem tratava, quem era tratado e quem simplesmente não era. Tem anúncio de jornal aqui dentro que eu li duas vezes achando que tinha entendido errado. Vá até o fim que você entende por quê.
A tabuleta do barbeiro
O pintor francês Jean-Baptiste Debret morou no Brasil entre 1816 e 1831 e desenhou uma barbearia do Rio de Janeiro. Na tabuleta da fachada estava escrito o que a casa oferecia: "barbeiro, cabeleireiro, sangrador, dentista e deitão de bixas". As bixas eram as sanguessugas.
Olha só o tamanho da coisa. O mesmo sujeito cortava seu cabelo, fazia sua barba, abria sua veia pra tirar sangue, colava sanguessuga atrás da sua orelha e arrancava seu dente. Tudo na mesma cadeira, com o mesmo estoque de ferramentas.
O instrumental era pesado. Boticão, alavanca, lanceta, escarificador, ventosa e bacia de cobre pra receber o sangue. Não havia tratamento de dente doente, só extração. Se doeu, arranca. E arrancava com o paciente acordado, segurado por outra pessoa.
Existiam dois ditados populares recolhidos por historiadores da odontologia sobre esse tipo de atendimento: "ou casa, ou dente" e "ou dente, ou queixo, ou língua, ou beiço". Os dois diziam a mesma coisa. Você entrava pra tirar um dente e não sabia o que ia sair.
Quem arrancava
Aqui a história fica desconfortável, e é bom que fique.
A historiadora Betânia Gonçalves Figueiredo mostrou, no artigo "Barbeiros e cirurgiões: atuação dos práticos ao longo do século XIX", publicado na revista História, Ciências, Saúde-Manguinhos em 1999, que praticamente todos os barbeiros registrados nos censos de 1832 e 1871 eram homens pardos ou negros. Alguns livres, muitos escravizados. O ofício de cuidar do corpo doente era considerado trabalho braçal, sujo, de gente sem posição.
As pesquisadoras Tânia Salgado Pimenta e Rodrigo Aragão Dantas, no artigo "Barbeiros-sangradores no Rio de Janeiro oitocentista", publicado na Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros em 2014, levantaram os anúncios de jornal e do Almanak Laemmert da época. Num deles se lê: "Vende-se um perfeito barbeiro sangrador e dentista de 22 anos de idade".
Vende-se. A pessoa que tirava o dente da elite carioca era, ela própria, mercadoria anunciada no classificado. Isso não é detalhe pitoresco de época. É o desenho inteiro da sociedade aparecendo numa linha de jornal.
A regulamentação veio, e veio torta. A Fisicatura-mor foi extinta em 1828 e a fiscalização caiu no colo das câmaras municipais. A lei de 3 de outubro de 1832 transformou as academias médico-cirúrgicas em faculdades de medicina e proibiu a concessão do título de sangrador. Na prática, os sangradores continuaram trabalhando por décadas, agora na informalidade. Proibir sem oferecer substituto nunca resolveu nada.
Sangria e chá
Fora do dente, o cardápio terapêutico era curto e repetido. Sangria pra quase tudo. Sanguessuga pra febre, dor de cabeça e inflamação, aplicada atrás da orelha, no peito ou em volta dos olhos. Purgante, vomitório, ventosa e dieta. O médico formado diagnosticava, o barbeiro executava.
E tinha a farmácia da casa, que era o chá. Isso eu conheço de perto. Meu pai vendia produtos naturais e ervas medicinais, e a gente usava muito, todo tipo de chá pra todo tipo de coisa. No Império, pra maior parte da população, esse era o tratamento inteiro, não o complemento dele. Não porque as pessoas fossem atrasadas, mas porque médico era coisa rara e cara.
Rapaz, dá pra entender por que curandeiro tinha clientela.
Pobre e rico
A diferença existia e era brutal. Quem tinha dinheiro chamava médico formado em casa, mandava buscar remédio importado e podia pagar dentista estrangeiro, que começaram a chegar ao Rio a partir das décadas de 1830 e 1840. Quem não tinha ia pro barbeiro, pro curandeiro ou pra enfermaria da Santa Casa de Misericórdia, que era instituição de caridade e não serviço público.
Só que a medicina da época era ruim pra todo mundo, e isso é o mais impressionante da história. Em janeiro de 1850, no meio da primeira grande epidemia de febre amarela do Rio de Janeiro, morreu de febre o filho de um ano de D. Pedro II, o príncipe Pedro Afonso, herdeiro do trono. Com todos os médicos do Império à disposição. Até hoje os historiadores divergem sobre a causa, e as hipóteses levantadas incluem encefalite e uma doença congênita.
Dinheiro comprava conforto e atenção. Não comprava cura, porque a cura ainda não tinha sido inventada.
Sobre a epidemia em si, os números divergem e é honesto dizer isso. A contagem oficial registrou 90.658 doentes e 4.160 mortos na capital. A contabilidade extraoficial da época falava em até 15 mil vítimas. A Fundação Oswaldo Cruz apresenta as duas versões lado a lado, sem escolher uma.
O éter chegou
Agora a parte que me surpreendeu, e no bom sentido.
O dentista americano William Morton demonstrou publicamente a anestesia com éter em 16 de outubro de 1846, em Boston. A notícia correu o mundo. No Brasil, segundo Lycurgo de Castro Santos Filho na "História Geral da Medicina Brasileira", a primeira anestesia geral com éter foi feita no Hospital Militar do Rio de Janeiro pelo médico Roberto Jorge Haddock Lobo em maio de 1847. As fontes divergem entre os dias 20 e 25 daquele mês.
Sete meses. Numa época em que a informação atravessava o Atlântico dentro de um navio. Em fevereiro de 1848 o clorofórmio já era usado na Santa Casa do Rio.
Aí que tá o contraste. Na anestesia o Brasil acompanhou o mundo quase em tempo real. No ensino de odontologia, ficou décadas atrás. A primeira escola de odontologia do mundo abriu em Baltimore, nos Estados Unidos, em 1840. Aqui, o curso oficial só foi criado pelo Decreto nº 9.311, de 25 de outubro de 1884, assinado no fim do Império, como curso anexo às faculdades de medicina do Rio de Janeiro e da Bahia. Quarenta e quatro anos de atraso.
Antes disso, dava pra virar dentista fazendo prova numa faculdade de medicina, sem nunca ter cursado a matéria. O decreto de 1856 é que passou a exigir esse exame.
O que avançou
O Império não parou no tempo. Em 1808 foram criadas as primeiras escolas de cirurgia, na Bahia e no Rio, o que encerrou três séculos sem ensino médico no país. Em 1850, depois da febre amarela, veio a Junta de Higiene Pública, e no ano seguinte um serviço de estatísticas de saúde. No mesmo ano, uma lei proibiu sepultamentos dentro e ao redor das igrejas e obrigou os novos cemitérios a ficarem longe do centro das cidades.
E teve ciência de verdade feita aqui. Em Salvador, um grupo de médicos que se reunia de quinze em quinze dias na casa de um deles fundou em 1866 a Gazeta Médica da Bahia. Otto Wucherer, John Ligertwood Paterson e José Francisco da Silva Lima. Wucherer identificou a ancilostomíase, a doença que o povo chamava de opilação ou cansaço, e em 4 de agosto de 1866 descreveu o embrião da filária, causadora da elefantíase. Paterson introduziu na Bahia o método antisséptico de Lister.
Esse grupo ficou conhecido como Escola Tropicalista Baiana, e aqui existe uma briga acadêmica que vale citar. A historiadora Julyan Peard trata o grupo como fundador da medicina tropical brasileira. Já Flávio Coelho Edler, no artigo "A Escola Tropicalista Baiana: um mito de origem da medicina tropical no Brasil", de 2002, argumenta que chamar aquilo de escola é exagero, e que outros médicos do Império faziam pesquisa parecida ao mesmo tempo.
Eu fico com a versão do meio. Os baianos fizeram descobertas reais e publicadas, isso está documentado. Transformar três homens em heróis solitários é que empobrece a história de todos os outros.
Trinta anos
Chega no número que mais assusta. O demógrafo José Eustáquio Diniz Alves estima que, na Independência, em 1822, o brasileiro nascia com expectativa de viver cerca de 25 anos. Em 1900, pelos dados do IBGE, a média era de 33,7 anos.
Isso não quer dizer que todo mundo morria aos trinta. Quer dizer que morria criança demais. A média era puxada pra baixo pela mortalidade infantil, e quem escapava dos primeiros anos podia chegar aos sessenta ou mais.
Eu ando lendo a trilogia do Laurentino Gomes à noite, e foi lá que me caiu a ficha. D. Pedro I morreu aos 35 anos, de tuberculose. Um imperador. Doença que hoje se trata e se cura.
A gente reclama de fila, de convênio, de espera. Reclama com razão, muitas vezes. Mas a distância entre a cadeira do barbeiro-sangrador e a cadeira onde eu chorei em Caculé é de dar tontura.
Separei abaixo onde conferir tudo isso por conta própria, porque quase todo esse material está digitalizado e de graça.
Onde ler as fontes originais desse assunto
- O artigo de Betânia Gonçalves Figueiredo sobre barbeiros e cirurgiões está aberto na SciELO: ler aqui
- O levantamento de Tânia Pimenta e Rodrigo Dantas com os anúncios de jornal está na Revista da ABPN
- A história da chegada da anestesia ao Brasil, escrita por Joffre Marcondes de Rezende, está em PDF livre nos livros da SciELO
- A Gazeta Médica da Bahia teve todas as edições antigas digitalizadas pela UFBA e estão em gmbahia.ufba.br
- O texto de Flávio Edler questionando o mito da Escola Tropicalista está aqui
- As gravuras de Debret estão no acervo digital da Brasiliana da USP, e vale procurar pela barbearia
Tem também o que dá pra ver com o próprio olho, se você passar por Salvador ou pelo Rio. São dois endereços que quase ninguém coloca no roteiro.
O que dá pra visitar hoje sobre essa história
- Em Salvador, o prédio da Faculdade de Medicina da Bahia, no Terreiro de Jesus, abriga o Memorial da Medicina Brasileira. Confirme dias e horários no site mmb.fmb.ufba.br antes de ir
- No Rio, o campus da Fiocruz em Manguinhos tem visita guiada ao Castelo Mourisco e ao Museu da Vida. Precisa agendar, então confira no site oficial da Fiocruz
- Se for a Salvador, reserve a manhã. O Terreiro de Jesus e o casario em volta rendem caminhada e boas fotos
- Museu universitário costuma ter entrada gratuita ou muito barata, mas raramente abre no fim de semana. Planeje pra dia útil
Se quiser ver outros textos meus sobre o período, dá pra usar a busca do blog em heliopere.com.
Eu chorei por causa de um dente de leite. Numa cadeira com anestesia, num consultório, com gente treinada. Cento e cinquenta anos antes, na mesma Bahia, quem sentava numa cadeira dessas segurava no braço de alguém e apertava os olhos.
E você, tem alguma história de dentista antigo na sua família, daquelas que os mais velhos contam sobre extração sem anestesia no interior?
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