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Grito do Ipiranga: a frase famosa pode não ter sido dita

·8 min de leitura·por Helio Pere
Grito do Ipiranga: a frase famosa pode não ter sido dita

Li o trecho na cama, com a luminária de clipe presa na borda da página, do jeito de toda noite. Página 37 do livro 1822, do Laurentino Gomes. Estava escrito ali que, pela descrição do padre Belchior, não houve na colina do Ipiranga o brado "Independência ou Morte". Fiquei perplexo.

Desfilei em todo sete de setembro que teve na escola. Todo ano tinha, e não tinha como não participar. Fila, fanfarra, sol na cabeça. Nunca me passou pela cabeça duvidar da cena do grito.

Uma página de livro e uma dúvida que não passou

Fui atrás do que os historiadores dizem sobre aquela tarde de 1822, e o que encontrei mexeu com uma coisa que eu carregava desde a escola. Tem documento sumido, testemunha escrevendo décadas depois e um quadro pintado do outro lado do oceano. Vem comigo até o fim que eu conto o que descobri e o que passei a pensar.

Três testemunhas

D. Pedro voltava de Santos rumo a São Paulo em 7 de setembro de 1822 quando dois mensageiros o alcançaram com cartas das Cortes portuguesas, de D. João VI, de dona Leopoldina e de José Bonifácio. O padre Belchior Pinheiro de Oliveira leu tudo em voz alta. Foi dali que saiu a decisão.

Três pessoas da comitiva deixaram relato escrito do episódio: o próprio padre Belchior, o alferes Canto e Melo e o coronel Manuel Marcondes de Oliveira e Melo, depois barão de Pindamonhangaba. Detalhe que muda tudo: Marcondes nem estava no alto da colina naquele instante. Ele descansava com seus soldados numa venda perto do riacho, lugar hoje conhecido como Casa do Grito.

Pela descrição do padre, o que houve na colina foi outra coisa. D. Pedro amassou os papéis, pisou neles e disse que não queria mais nada com o governo português. O brado célebre aparece no relato do alferes Canto e Melo, registrado bem mais tarde, quando o dia 7 de setembro já tinha virado data de desfile e de discurso.

O papel sumiu

Aqui a coisa aperta. O texto original do padre Belchior está perdido. O relato mais detalhado, mais vivo e mais copiado do sete de setembro chegou até nós por republicações do professor e jornalista Francisco de Assis Cintra, no livro D. Pedro I e o grito da Independência (Melhoramentos, 1921). Não existe documento original pra comparar.

A honestidade intelectual de Assis Cintra foi questionada por historiadores de peso. O pesquisador Carlos H. Oberacker Júnior, num estudo longo publicado na Revista de História da USP, em 1972, admite ter dúvidas sobre Cintra como historiador, mas contesta a acusação de que ele tenha forjado o relato do padre. Fica assim mesmo, sem resolver. E o artigo inteiro está digitalizado e de graça no portal da USP, pra quem quiser conferir com os próprios olhos.

Quarenta anos depois

A versão com a frase mais famosa da nossa história vem do coronel Marcondes, que escreveu o que lembrava uns quarenta anos depois do acontecido, mais ou menos. Nela, o príncipe estaca o animal diante da guarda, saca a espada e diz que a divisa dali em diante será Independência ou Morte.

O mesmo Marcondes conta que a comitiva ia em mulas, e que D. Pedro passava mal do intestino naquele dia, apeando a toda hora. Pela conta dele, seria por volta das quatro da tarde. Memória de quarenta anos não é anotação feita na hora. Qualquer pessoa que já tentou contar direito um perrengue de estrada de dez anos atrás sabe do que estou falando.

A frase já existia

Agora a parte que me acalmou um pouco. A frase não foi inventada no século XX pra encher linguiça de livro didático. Ela aparece por escrito no dia seguinte, na proclamação assinada por D. Pedro no Paço de São Paulo, em 8 de setembro de 1822, onde está dito que a divisa do Brasil deve ser Independência ou Morte. O documento é conhecido e reproduzido pela Assembleia Legislativa de São Paulo.

A discussão, então, é mais estreita do que parece. Ninguém sério duvida de que a expressão circulava naquela semana. O que os historiadores discutem é se ela foi gritada daquele jeito, naquela colina, naquela hora. Some-se a isso que a separação já vinha andando: a convocação da Assembleia Constituinte em 3 de junho, o decreto de 1º de agosto e a assinatura de dona Leopoldina, no Rio, em 2 de setembro, cinco dias antes do tal grito.

Ele estava encurralado

Tem outra coisa naquele maço de cartas que quase nunca entra na aula de escola. As Cortes já tinham apertado o cerco por etapas. Os decretos de setembro de 1821 criaram juntas provinciais que respondiam direto a Lisboa e um governador das armas pra cada província. Em abril de 1822, outro decreto declarou os governos provinciais independentes do Rio de Janeiro. Na prática, a autoridade do príncipe regente ficava limitada ao Rio.

Em Lisboa o tratamento também era esse. O deputado português Borges Carneiro chamava D. Pedro de "o rapazinho". Isso explica o que o padre Belchior diz ter ouvido dele na colina, reclamando que as Cortes o chamavam de rapazinho e de brasileiro.

E vinha o pior. Conforme Laurentino Gomes conta em 1822 (Nova Fronteira, 2010), a mensagem de José Bonifácio entregue ali informava que chegavam de Lisboa notícias do embarque de 7.100 soldados, que somados aos seiscentos já desembarcados na Bahia tentariam atacar o Rio de Janeiro e esmagar os partidários da Independência. Bonifácio dizia que só existiam dois caminhos: partir imediatamente para Portugal e ficar prisioneiro das Cortes, como o pai já estava, ou ficar e proclamar a Independência, fazendo-se imperador ou rei.

Repare no tamanho do beco. Voltar significava chegar em Lisboa sem tropa, sem cargo e com processo esperando, porque um dos decretos daquele maço mandava processar o governo de São Paulo e quem tinha assinado as petições pela permanência dele. Ficar significava manter o exército, o território e virar chefe de um país novo. Eu digo encurralado.

Só que o cálculo não saiu de graça. Ele abdicou em 1831, voltou pra Portugal, entrou numa guerra civil contra o próprio irmão e morreu em 1834, aos 36 anos, no mesmo palácio onde nasceu.

O quadro veio depois

A imagem que todo mundo tem na cabeça foi pintada por Pedro Américo em Florença, na Itália, e concluída em 1888. Encomenda do governo da província de São Paulo pro salão de honra do prédio que viraria o Museu Paulista. Um painel de 7,60 por 4,51 metros. Sessenta e seis anos depois do fato.

No quadro tem cavalo garboso, uniforme de gala, espada erguida. Na estrada real tinha mula, fardeta de polícia e um príncipe com dor de barriga. Depois veio o filme de 1972, com Tarcísio Meira no papel de D. Pedro, e o grito ficou colado na memória de gerações inteiras, inclusive na minha. Eu nunca vi o quadro do Pedro Américo ao vivo. Só em página de livro e de internet.

O que me incomoda

Vou falar o que senti, e isso aqui é opinião minha, não é conclusão de historiador. Me senti enganado a vida inteira. Desfilei anos seguidos numa data cuja cena central talvez tenha sido montada depois, por gente que escrevia de memória ou por gente que republicava documento que ninguém mais viu.

Sobre a decisão dele, sou obrigado a ser honesto: eu faria a mesma escolha. Ficar com o poder na mão e começar um país novo, em vez de embarcar rumo à prisão. Não tem heroísmo nenhum nisso, tem conta feita. E conta feita também é história.

O que não me larga é o outro pensamento. Quantos relatos históricos estarão maquiados desse mesmo jeito? Informação que ninguém confere vira documento, documento vira livro, livro vira prova de escola. Isso me incomoda.

Também não caí no extremo oposto. O Brasil se separou de Portugal, e isso está documentado em decreto, em proclamação e em guerra de verdade, principalmente na Bahia e no Norte. Duvidar da encenação da colina não apaga nada disso. Só tira o verniz.

Se você quiser checar história por conta própria, olha isso aqui
  • Pergunte sempre quando o relato foi escrito, e não só quem escreveu. Décadas de distância mudam a história.
  • Procure saber se o documento original existe e onde está guardado. Se ninguém sabe dizer, ligue o alerta.
  • Separe o que é decreto publicado do que é lembrança de testemunha. Os dois são história, mas não têm o mesmo peso.
  • Desconfie de fala histórica comprida e bem construída. Memória humana não guarda parágrafo inteiro com vírgula no lugar.
  • Confira a data da pintura e do filme antes de aceitar a cena como retrato do momento.
  • Use os acervos gratuitos: Biblioteca Nacional Digital, Hemeroteca Digital, Brasiliana da USP e o Portal de Revistas da USP.

Fechei o livro e apaguei a luminária sem sono nenhum. A página 37 fez mais estrago do que muito capítulo inteiro. Continuo achando que o sete de setembro merece respeito, só que agora com a dúvida junto, do mesmo tamanho.

E você, também aprendeu na escola que D. Pedro gritou "Independência ou Morte" às margens do Ipiranga como fato definitivo, ou em algum momento alguém te disse que aquilo era discutível?

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