Tropeiros: quem eram os homens que carregaram o Brasil

Fotografei essa página na cama, de noite, antes de dormir. É uma gravura de um inglês chamado Henry Chamberlain: homens descalços tocando mulas carregadas na frente de um casarão de dois andares. A legenda do livro chama aqueles homens de tropeiros e diz que eram os encarregados de abastecer uma colônia "mergulhada na ignorância e no isolamento".
Em abril de 2026 eu dormi em Ponta Grossa e no dia seguinte segui pra Lapa. As duas cidades nasceram de pouso de tropa. Eu passei por cima do rastro daqueles homens de carro, com tag de pedágio e ar-condicionado ligado.
Um aviso antes de você descer o dedo
Esse post tem carta de rei mandando matar animal, imposto brasileiro pra reconstruir Lisboa, documento que sumiu de arquivo público e uma briga entre pesquisadores que ainda não terminou. Se pra você tropeiro era só aquele desenho de calendário de posto de gasolina, senta que a história é bem mais torta.
Tropeiro não era um homem só
A palavra confunde. Tropeiro era o dono da tropa, o negociante que comprava animal no sul e vendia lá na frente. Mas o nome também acabou pegando pra todo mundo que ia junto, e ia muita gente.
A pesquisadora Márcia Kersten, citada no estudo do Museu Paulista sobre o Caminho do Viamão, descreve a hierarquia inteira. O capataz era o homem de confiança: contratava peão, comprava, vendia, cuidava do dinheiro e da conta. O arribador tinha que ser bom de laço, porque a função dele era trazer de volta o bicho que se desgarrava. O madrinheiro ia na frente puxando a égua madrinha, aquela que levava o cincerro no pescoço, uma sineta que ditava o ritmo do bando inteiro. Tinha ainda o cozinheiro-comitiveiro, que carregava o cargueiro, fazia as compras e cuidava da comida.

Olha só o tamanho da coisa: segundo o naturalista Auguste de Saint-Hilaire, que passou pelos Campos Gerais em 1820, as tropas vinham divididas em pontas de quinhentos a seiscentos animais.
Mil e quinhentos quilômetros, um ano de viagem
O caminho principal ficou conhecido como Caminho do Viamão, ou Caminho das Tropas. Aberto em 1728, ligava os campos do extremo sul à vila de Sorocaba, em São Paulo. A primeira comitiva saiu em 1731, comandada pelo português Cristóvão Pereira de Abreu, com oitocentos animais entre cavalos e mulas.
O estudo publicado nos Anais do Museu Paulista pelas pesquisadoras e pesquisador Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, Alice Pereira Barreto e Guilherme Silvério Dias mede o trajeto: mil e quinhentos quilômetros de Viamão até Sorocaba, chegando a mil setecentos e cinquenta se contar desde a Colônia do Sacramento. A viagem levava de dez a doze meses, com parada obrigatória a cada 24 quilômetros. Os nomes que ficaram no mapa dizem muito sobre o clima da coisa: Rio do Inferno, Rio das Caveiras.

Desses pousos nasceram Vacaria, Lages, Rio Negro, Lapa, Palmeira, Ponta Grossa, Carambeí, Castro, Piraí do Sul, Jaguariaíva, Itararé, Itapetininga. Cidade que hoje tem shopping, hospital e faculdade começou como um lugar onde dava pra soltar a mulada pra pastar sem ela se espalhar.
Eu saí do hotel em Ponta Grossa às 8h25 e estacionei no centro histórico da Lapa às 10h23. Duas horas. No meio, cem reais de etanol a R$ 4,79 o litro e um pedágio de doze reais no km 532 da BR-376. Almocei uma marmita de vinte reais, dividida em dois, num lugarzinho da cidade. O sujeito do século XVIII levava dias nesse mesmo pedaço, e esse era o trecho fácil do caminho.
A carta régia que mandava matar as mulas
Aqui a história vira. Em 19 de junho de 1761, D. José I mandou uma carta régia ao governador da Capitania de Santa Catarina proibindo a entrada e a saída de machos e mulas em todo o território daquele governo. O motivo está escrito no próprio documento: como os moradores do Brasil tinham pegado o costume de fazer seus transportes em mula, deixaram de comprar cavalo, e a criação de cavalos estava se extinguindo, em prejuízo dos lavradores dos sertões da Bahia, Pernambuco e Piauí.
A pena não era multa. A carta determina que todos os animais que entrassem depois da publicação da ordem fossem irremissivelmente perdidos e mortos, e que quem estivesse com eles pagasse metade do valor pra quem denunciasse. O governador ainda tinha que mandar fazer um inventário exato de todos os machos e mulas do distrito, com idade e sinais de cada um, pra poder comparar depois.
Três anos e meio depois o mesmo rei deu meia-volta. Em 22 de dezembro de 1764 ele manda promover a criação de bestas muares na capitania, em benefício do comércio, exigindo só que os criadores mantivessem ao menos a sexta parte de éguas com seu cavalo. E em 24 de dezembro suspende a ordem de 1761 e cria uma coisa que eu não esperava encontrar: um documento de identidade pra mula. Todo animal nascido nos domínios do rei tinha que ser alistado em até um ano. Na venda, o comprador recebia um bilhete assinado pela autoridade do distrito, com idade, sinais e o nome de quem tinha vendido. Mula sem bilhete era considerada estrangeira e morta na hora, sem direito a prova em contrário.
Esses três documentos estão transcritos na íntegra pelo Arquivo Público do Estado de Santa Catarina, num trabalho de transcrição paleográfica feito em 1993 e revisado em 2015. E tem um detalhe que me pegou: as três folhas aparecem marcadas no instrumento de pesquisa com a expressão "documento furtado". O papel original sumiu. O que restou foi a cópia que alguém teve o cuidado de datilografar.
Lisboa caiu e a conta chegou em Sorocaba
Em 1755 um terremoto destruiu Lisboa. O rei de Portugal escreveu à Câmara de Sorocaba e à Província de São Pedro pedindo ajuda pra reerguer a cidade, porque sabia de onde vinha dinheiro por ali. A Câmara atendeu criando o chamado Novo Imposto, em 1756: duzentos réis por cavalo, trezentos réis por cabeça de besta muar, cem réis por rês. Esse imposto foi cobrado até 1892.
Não era o primeiro nem o maior. O primeiro registro de cobrança tinha surgido em 1732 no Rio Negro, taxando os animais que saíam de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. O de Sorocaba veio em 1750. Segundo o levantamento de Rafael Straforini, Liliana Garcia e José Flávio Morais Castro, publicado na revista Geografia, da Unesp de Rio Claro, em 1998, os registros de Sorocaba no ano de 1835 arrecadaram 330$520 réis de Novo Imposto, 419$730 do imposto de Guarapuava e 23:375$520 réis dos direitos do Rio Negro. Um esmagou os outros dois.
Isso explica uma frase seca do vice-governador do Paraná em 1857, citada no mesmo estudo: a renda que mais crescia na província era a da passagem de animais pelo registro do Rio Negro. Quando o Paraná se separou de São Paulo, em 1853, levou junto a galinha dos ovos de ouro.
Quem carregava o peso de verdade
Aí que tá a parte que o desenho bonito esconde. O estudo do Museu Paulista lê com lupa as aquarelas de Jean-Baptiste Debret, feitas na viagem dele ao sul entre 1827 e 1828, e o que aparece é constrangedor. Nas travessias de rio, quem carrega as canastras e as bruacas nas costas pra carga não molhar são africanos escravizados, sempre descalços, sempre de calça curta ou sem camisa. Eles faziam a viagem inteira a pé, porque a mula estava ocupada com mercadoria ou com o tropeiro graduado.
Na Coxilha Rica, em Santa Catarina, existem até hoje cem quilômetros de muros de pedra encaixada que ladeavam o caminho pra tropa não se espalhar. Foram levantados por africanos e indígenas escravizados. É o maior monumento que sobrou do Caminho do Viamão, e ele foi construído por gente que não tinha escolha.
E existe divergência real entre os pesquisadores nesse ponto. O trabalho da Unesp defende que o tropeirismo foi uma atividade mais democrática que a estrutura da cana e do café, porque era trabalho livre, remunerado, e permitia circular pelo território. O trabalho do Museu Paulista mostra a escravidão dentro da comitiva, na base da pirâmide. Opinião minha: as duas coisas cabem juntas. Um peão livre podia mesmo subir na vida ali, e vários subiram. Antônio da Silva Prado saiu conduzindo tropa aos dezessete anos, em 1805, voltou rico em 1816 e virou barão. O que ninguém conta é que ele também atuou como traficante de escravizados. A fortuna do caminho tinha duas pernas, e só uma delas rendeu estátua.
Quantos animais passavam por ali
Depende de quem contou. Os naturalistas alemães Spix e Martius avaliaram, em 1818, cerca de trinta mil animais negociados em Sorocaba. Saint-Hilaire falou em algo entre vinte e cinquenta mil. Nenhum dos dois estava fazendo censo, e os dois números aparecem nos estudos até hoje sem que se possa cravar um.
O que dá pra medir com precisão é o fim. Na barreira de Cubatão, no caminho pro porto de Santos, passaram 307 mil mulas em 1864. Em 1871 foram 62 mil. Em 1873, seis mil. A ferrovia chegou e o burro virou peça de museu em menos de dez anos. A última grande feira de muares de Sorocaba aconteceu em abril de 1897, conforme o jornal 15 de Novembro noticiou na época, informação levantada pelo historiador Arnoldo Monteiro Bach.
Onde ainda dá pra ver o rastro dos tropeiros
- A gravura que abre esse post está no acervo digital da Brasiliana Iconográfica, com o nome "Troperos or Muleteers", e dá pra ver de graça
- A tradução do álbum de Chamberlain está na Biblioteca Digital do Senado Federal, também de graça
- Na Lapa, os pedágios até lá custaram doze reais e R$ 12,30 em abril de 2026, e o centro histórico não cobra nada pra andar
- Dormir na Lapa é caro pela falta de opção: achei um hotel a cerca de R$ 308. Voltei 30 km e paguei R$ 193,25 em Ponta Grossa
- Marmita no centro da Lapa saiu por vinte reais e deu pra duas pessoas com folga
- Os muros de pedra da Coxilha Rica ficam na região de Lages, em Santa Catarina, e continuam de pé
- Se for pesquisar por conta própria, procure pelos termos "Caminho do Viamão" e "Caminho das Tropas", que rendem mais resultado que "tropeirismo"
O que sobrou disso tudo
Rapaz, eu fiquei pensando no bilhete da mula. Um papel assinado, com idade e sinais do bicho, sem o qual ele era abatido ali mesmo. Trezentos anos depois eu passo por seis praças de pedágio no Paraná com uma tag colada no vidro e ninguém me pergunta nada. Mudou o crachá, o resto continua igual.
E fica a conta que não fecha: a mula sustentou o ouro, o açúcar, o café e a corte inteira que veio pra cá em 1808. Rendeu barão, rendeu imposto, rendeu cidade. E terminou com o nome virando xingamento na boca do povo. O livro voltou pra mesinha de cabeceira, a página fotografada e torta.
Você mora numa cidade que nasceu de pouso de tropa e nem sabia? Me conta qual é, que eu quero conferir no mapa antigo.
Fontes consultadas: Arquivo Público do Estado de Santa Catarina, transcrição das Cartas Régias Imperiais; Anais do Museu Paulista, volume 29, 2021, artigo de Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, Alice Pereira Barreto e Guilherme Silvério Dias; revista Geografia, Rio Claro, volume 23, número 2, 1998; Brasiliana Iconográfica; Biblioteca Digital do Senado Federal. A gravura citada é de Henry Chamberlain, publicada em Londres em 1822, e a legenda comentada no início do texto está no livro 1808, de Laurentino Gomes, Editora Planeta, 2007.
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