Saí do hotel em Ponta Grossa às oito e vinte e cinco da manhã achando que ia pra mais uma cidadezinha bonitinha de fim de semana, dessas que você fotografa, acha charmosa e esquece na semana seguinte. A Lapa não é isso. A Lapa é uma cidade que, em 1894, segurou três mil homens com menos de mil, e que, se tivesse caído, talvez tivesse levado junto a República brasileira inteira. O mais estranho é que quase ninguém fala disso.
Fui de carro, com minha digníssima no volante a viagem toda, porque eu ia gravando e resolvendo umas coisas de trabalho no caminho. A gente saiu do Hotel Pousada La Vierro, um hotel fazenda em Ponta Grossa que valeu cada centavo, depois de um café da manhã que tinha até bolo de macaxeira e suco de melancia. Ah, e tinha um cachorro do tamanho de um bezerro lá, minha esposa fez questão de tirar foto com ele. Não tem nada a ver com a Lapa, mas ficou na memória.
Resumo da viagem: Lapa, no Paraná, a setenta quilômetros de Curitiba. É o maior conjunto histórico tombado do estado. Foi aqui que, em 1894, um punhado de gente aguentou um cerco de vinte e seis dias e, sem querer ser herói, acabou salvando a República recém-nascida. Dá pra conhecer o centro a pé numa manhã, gastando quase nada. A nossa marmita do dia saiu por vinte reais, pra dois.
A estrada até a Lapa e o abastecimento pela metade
Antes de chegar, paramos pra abastecer por volta das nove. Coloquei só R$ 100 de etanol, a R$ 4,79 o litro. Botei pouco de propósito, porque já contava com posto mais barato lá na frente pra completar. Pouco depois veio o pedágio do dia, R$ 12, no km 532 da BR-376. Passamos direto com a tag e seguimos.
Chegamos no centro histórico às dez e vinte e três, estacionamos e descemos do carro.
Cheguei sem saber o tamanho do que tinha acontecido ali
E aí teve uma coisa que eu não sei explicar direito. Você desce do carro numa rua de paralelepípedo, vê aquelas casas baixas, caiadas, de janela colorida, tudo muito quieto pro tamanho da história que passou por ali, e bate uma sensação meio esquisita de que o chão que você está pisando é literalmente o mesmo de 1894, as mesmas pedras, e que em algum ponto daquela calçada teve gente correndo, teve tiro, teve. Enfim. É difícil de colocar em palavra.
A cidade tem essas casas centenárias e dá pra ver marca de bala em alguns muros. Fiquei um tempo parado só olhando, sem gravar nada, o que pra quem vive gravando é quase pecado.
O cerco de 26 dias, contado andando pela praça
Deixa eu te situar rápido, porque essa parte importa. Em 1889 o Brasil virou República. Nem todo mundo gostou. No Sul, dois grupos se engalfinharam: de um lado os que apoiavam o governo do Marechal Floriano, de outro os federalistas, que ficaram conhecidos como maragatos. Em janeiro de 1894, mais ou menos três mil maragatos chegaram aqui na Lapa querendo abrir caminho até Curitiba.
Na Praça General Carneiro eu parei pra pensar no tamanho da conta. Do lado da cidade tinha cerca de seiscentos e trinta e nove homens, comandados pelo general Gomes Carneiro. E não era tudo soldado profissional, não. Tinha morador comum, gente da cidade, que pegou em arma porque era ali que dava. O Teatro São João, que hoje você olha e é só um teatro bonito, virou enfermaria no meio da guerra. E as mulheres da cidade se recusaram a ir embora. Ficaram. Foram vinte e seis dias de cerco, de fome, de munição contada.
A Casa Lacerda e o lugar onde tudo termina
O ponto mais pesado pra mim foi o Panteon dos Heróis, onde estão os restos do general Carneiro e de outros que morreram aqui. Ele foi baleado em nove de fevereiro e morreu no mesmo dia. Dois dias depois, sem comida e sem munição, os defensores se renderam.
E aqui vem a parte que mexe com a cabeça: os maragatos venceram essa batalha, mas perderam a guerra. Porque esses vinte e seis dias que a Lapa segurou deram tempo pro Floriano se organizar lá no Rio. Ou seja, a cidade perdeu e, perdendo, salvou. Não sei se isso é trágico ou bonito. Acho que é os dois. Do lado fica a Casa Lacerda, hoje museu, onde, segundo o IPHAN, foi assinada a ata de rendição. Entrei, olhei, saí calado.
A marmita de vinte reais que a gente dividiu
Na hora do almoço fizemos o de sempre em viagem: marmita. Achamos um lugar local, custava vinte e cinco reais, paguei vinte porque dividimos uma só pra nós dois. E olha, tinha comida que sobrava. Minha digníssima e eu comemos bem os dois, e sinceramente achei melhor do que muita refeição cara que paguei depois nessa mesma viagem. Lugar simples, comida farta, preço honesto. Pra mim isso é metade de uma boa viagem.
Por que cortei o Parque do Monge
Tinha plano de subir até o Parque do Monge depois do almoço. Não subi. Olhei a previsão e o dia seguinte vinha com alerta laranja de tempestade no Paraná, vento forte e chuva o dia inteiro. Como a Estrada da Graciosa, que era o outro ponto que eu queria muito gravar, só renderia com céu aberto, troquei o Monge pela Graciosa ali na hora. O Monge fica pra próxima. Nem toda viagem cabe tudo.
O que vale saber antes de visitar a Lapa
Fica a setenta quilômetros de Curitiba e, sinceramente, dá pra fazer o centro histórico inteiro a pé numa manhã, sem pressa nenhuma.
Esquece restaurante turístico: a marmita de lugar simples salva o orçamento e, no nosso caso, ainda estava mais gostosa que prato caro.
Se você não tem tag, repensa antes de pegar essa estrada. A quantidade de pedágio dessa região é quase ofensiva.
Os pontos fortes estão coladinhos um no outro, então não tem erro: Praça General Carneiro, Teatro São João, Panteon dos Heróis e Casa Lacerda.
Se a ideia for emendar com a Estrada da Graciosa, olha a previsão antes, porque a serra só vale a pena com céu aberto. Aprendi na marra.
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Fontes consultadas: IPHAN, Patrimônio Cultural do Paraná, Turismo da Lapa e SciELO.
