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Henry Koster: o estrangeiro que atravessou o sertão nordestino

·8 min de leitura·por Helio Pere
Henry Koster: o estrangeiro que atravessou o sertão nordestino

Foi só bater o olho nessa página para eu parar a leitura. Um homem saiu do Recife, atravessou cidades e sertões do Nordeste no começo do século XIX e depois colocou tudo num livro publicado em Londres. Isso numa época em que viajar por terra significava seguir por caminhos precários, depender de animais, carregar mantimentos e dormir onde fosse possível.

O nome dele era Henry Koster. Ou Henrique da Costa, como passou a ser chamado por aqui.

Um jovem de família inglesa chegou ao Recife em 1809 por causa da saúde e acabou registrando cidades, engenhos, estradas, costumes e sertões do Nordeste. Seu livro é uma fonte histórica preciosa, mas precisa ser lido sem transformar o autor em herói.

Quem foi Henry Koster

Henry Koster nasceu em Lisboa, numa família inglesa. Seu pai era comerciante e vivia em Portugal, por isso Koster cresceu falando português com bastante naturalidade. Mais tarde, já no Brasil, algumas pessoas chegaram a desconfiar que ele fosse realmente inglês. O português lhe era tão familiar que passaram a chamá-lo de Henrique da Costa.

Ele desembarcou no Recife em 7 de dezembro de 1809. Veio procurando um clima que pudesse aliviar seus problemas de saúde, provavelmente ligados à tuberculose. A ideia inicial não parece ter sido produzir uma grande obra sobre o Brasil. Só que ele melhorou, começou a circular pela região e a curiosidade foi puxando uma viagem atrás da outra.

Koster não ficou olhando Pernambuco da janela de uma casa confortável. Em outubro de 1810, partiu a cavalo em direção à Paraíba. Depois seguiu pelo Rio Grande do Norte até alcançar Fortaleza. Também viajou ao Maranhão e percorreu áreas do sertão pernambucano.

É fácil escrever isso hoje em uma frase. Difícil é imaginar o caminho.

Não havia rodovia, posto de combustível, aplicativo mostrando a distância nem hotel reservado pelo celular. A viagem era feita em grupo, com animais, guias e provisões. Havia calor, seca, rios, caminhos pouco conhecidos e longos trechos sem uma estrutura minimamente confortável.

Do Recife a Fortaleza numa época de seca

Luís da Câmara Cascudo, que traduziu e estudou a obra de Koster, chamou atenção justamente para o tamanho dessa travessia. No trecho fotografado, ele escreveu:

“Antes dele, nenhum estrangeiro atravessara o sertão do Nordeste, do Recife a Fortaleza.”

A viagem ocorreu em período de seca. Koster atravessou o interior observando as povoações, as propriedades rurais, as condições dos caminhos, os hábitos das famílias e a maneira como as pessoas se organizavam para viver numa região tão extensa.

Ele não registrava apenas o que considerava bonito ou curioso. Escrevia sobre arquitetura, produção agrícola, comércio, religião, relações sociais, formas de trabalho, vegetação e dificuldades de deslocamento. Em alguns momentos, o livro se aproxima mais de um levantamento social do que de um simples diário de viagem.

Cascudo considerava seu depoimento pioneiro para o estudo da ecologia humana e da etnografia tradicional do povo nordestino. Essa avaliação ajuda a entender por que o livro continuou sendo citado por historiadores e viajantes muito tempo depois da morte do autor.

Um estrangeiro que também virou morador

Existe uma diferença importante entre Koster e muitos viajantes europeus que escreveram sobre o Brasil. Ele não passou alguns dias observando tudo de longe para depois voltar imediatamente à Europa.

Koster morou em Pernambuco, aprendeu a circular pela sociedade local, administrou propriedades rurais e conviveu com diferentes grupos. Em 1812, arrendou o Engenho Jaguaribe, na Ilha de Itamaracá. Depois passou a residir no Engenho Amparo.

Isso tornou seu relato mais detalhado, porque ele não era apenas visitante. Ao mesmo tempo, criou uma complicação que não pode ser escondida: Koster passou a ocupar uma posição privilegiada dentro de uma sociedade baseada na escravidão.

E aqui o texto precisa desacelerar um pouco.

O problema de transformar Koster em herói

Koster escreveu críticas duras contra a escravidão. Em sua obra, chegou a tratá-la como um enorme desastre moral. Também publicou na Inglaterra um ensaio defendendo o fim do sistema.

Mas ele próprio administrou um engenho e foi senhor de pessoas escravizadas.

Essa contradição não é um detalhe pequeno. Ele condenava a escravidão, mas participava da estrutura que dizia reprovar. Além disso, defendia uma libertação gradual e controlada, baseada na ideia de que os escravizados ainda precisariam ser preparados pelos próprios senhores antes de receber a liberdade.

Para os padrões atuais, essa posição é claramente paternalista. Mesmo entre pessoas que criticavam a escravidão naquele período, muitos continuavam enxergando os africanos e seus descendentes como dependentes da orientação europeia.

Por isso, não acho correto apresentar Koster como um grande defensor da liberdade sem explicar o restante. Ele foi um observador importante, mas também fazia parte do mundo desigual que descrevia.

História não fica mais interessante quando limpamos as contradições. Fica mais pobre.

O olhar europeu aparece no texto

Embora falasse português e conhecesse bem a região, Koster ainda avaliava o Brasil usando muitas referências europeias. Em alguns trechos, comparava os lugares que encontrava com aquilo que considerava civilizado, organizado ou moderno.

Esse tipo de julgamento era comum nos relatos de viajantes europeus. Eles observavam outras sociedades, mas frequentemente usavam a Europa como régua. O que fosse diferente podia ser descrito como atraso, desordem ou falta de civilização.

Isso não significa que o livro deva ser descartado. Significa apenas que ele não pode ser lido como uma câmera neutra apontada para o Nordeste de 1810.

Koster escolhia o que registrar, interpretava as pessoas e organizava o relato conforme seus próprios valores. Toda fonte histórica funciona assim. Ela revela o assunto observado e também revela muito sobre quem estava observando.

O que aparece em Travels in Brazil

Depois de regressar à Inglaterra, Koster organizou suas experiências no livro Travels in Brazil, publicado em Londres em 1816. A obra teve boa repercussão e ganhou uma segunda edição inglesa já em 1817, além de versões em outros países europeus.

O livro descreve Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e diferentes áreas do interior. Koster comenta desde o formato das casas até os meios de transporte, a produção dos engenhos, o comércio, as festas, a vida familiar e as relações entre pessoas livres e escravizadas.

Esse é um dos motivos pelos quais a obra se tornou tão importante. Muitos documentos oficiais daquele período falavam de impostos, autoridades, propriedades e decisões administrativas. Koster, mesmo com todas as limitações de seu olhar, registrou cenas da vida cotidiana.

Aparecem moradores abrindo suas casas, viajantes formando grupos para enfrentar o caminho, trabalhadores conduzindo animais, pequenas povoações, propriedades isoladas e cidades que ainda estavam muito longe do tamanho que alcançariam depois.

Para quem conhece hoje Recife, Fortaleza, Natal ou João Pessoa, ler essas descrições causa uma sensação estranha. As cidades continuam no mapa, mas quase tudo ao redor mudou.

Por que a tradução demorou tanto

Embora o livro tenha sido publicado em 1816, sua trajetória em português foi bem mais demorada. Partes da obra começaram a aparecer em publicações brasileiras entre o fim do século XIX e o começo do século XX.

A edição completa e independente em português saiu somente em 1942, traduzida e comentada por Luís da Câmara Cascudo. O título escolhido foi Viagens ao Nordeste do Brasil.

A tradução de Cascudo foi decisiva para aproximar o livro dos leitores brasileiros. Ele não se limitou a trocar palavras do inglês para o português. Acrescentou notas, explicações e referências que ajudavam a identificar lugares, costumes e personagens mencionados por Koster.

Na prática, o trabalho reuniu dois observadores separados por mais de um século. Koster descreveu o que viu. Cascudo voltou ao texto para explicar o que aquele mundo significava.

Um registro valioso, mas não uma verdade absoluta

Minha impressão é que o maior valor de Henry Koster está nos detalhes. Ele permite enxergar pedaços de um Nordeste que não foi fotografado e deixou poucos relatos tão extensos sobre a vida cotidiana.

Mas é preciso resistir à tentação de aceitar tudo sem questionamento. Koster era estrangeiro, proprietário rural e participante de uma sociedade escravista. Seu olhar foi influenciado pela posição que ocupava.

Ao mesmo tempo, ignorar sua obra seria jogar fora um documento raro. O caminho mais honesto fica no meio: usar o relato, comparar com outras fontes e prestar atenção tanto no que ele conta quanto na maneira como conta.

Henry Koster morreu em Pernambuco em 1820, ainda jovem. Foi sepultado no Cemitério dos Ingleses, no Recife, mas a localização exata de sua sepultura acabou se perdendo.

O túmulo desapareceu. O livro ficou.

E talvez essa seja a parte mais curiosa de toda a história. Um rapaz que veio ao Brasil tentando cuidar da saúde acabou deixando um dos registros mais conhecidos sobre o Nordeste no começo do século XIX.

Você teria coragem de sair do Recife e seguir até Fortaleza pelos caminhos do sertão de 1810?

Fontes consultadas

Travels in Brazil, de Henry Koster, no Project Gutenberg

Travels in Brazil na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP

Acervo sobre viajantes da Fundação Joaquim Nabuco

Estudo sobre Henry Koster e seus registros do Nordeste

Estudo da UFMG sobre escravidão, religião e sociedade na obra de Koster

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