Cruzado, réis e conto de réis: o dinheiro do tempo do 1808

Toda noite, antes de dormir, tem livro aberto aqui em casa. Virou rotina: leitura e estudo, com a luminária de leitura presa na página. O livro da vez é o 1808, do Laurentino Gomes (Editora Planeta, 2007), que conta a fuga da família real portuguesa pro Brasil. O plano é ler na íntegra, pesquisando em paralelo o que aparecer pelo caminho.
Até que chega a página 276 e o texto solta: as exportações de Portugal pra colônia despencaram de 94 milhões de cruzados pra 2 milhões. Rapaz. 94 milhões de cruzados é muito? É pouco? Dava pra comprar o quê com isso? O livro segue em frente e o leitor fica pra trás, fazendo careta pro número. Larguei a leitura e fui pesquisar. Este post é o resultado.
Quanto pesa um cruzado?
Réis, cruzado, conto de réis: os livros de história jogam esses nomes como se todo mundo soubesse o valor de cada um. Aqui você vai sair sabendo. Vai ver uma comparação com o mercado imobiliário do Rio de 1819 que dá tamanho de verdade a esses milhões, um aviso sobre os conversores de dinheiro antigo da internet que pouca gente te dá, e uma história de casa: eu vi seis moedas diferentes passarem pela minha mão ainda na juventude.
Réis: a moeda que durou quase 500 anos
Primeira coisa: a moeda de conta de Portugal, e do Brasil junto, era o real. No plural, o povo falava "réis", corruptela de "reais" que pegou de vez lá no século XVI. Esse sistema atravessou séculos: valeu em Portugal de 1435 até 1910 e, no Brasil, seguiu firme até 1942, quando virou cruzeiro. A tabela oficial dessa linhagem de moedas está num documento do Museu de Valores do Banco Central, de graça, em PDF.

Um real valia tão pouco que ninguém contava dinheiro grande em réis soltos. A escrita da época resolvia isso com o cifrão no meio do número: 1$000 era mil réis. E quando a coisa engrossava, entrava o conto de réis: um milhão de réis, escrito 1:000$000. Cifrão no meio, dois pontos na frente, parecendo senha de banco: era assim que o império escrevia dinheiro grande.
O cruzado que o livro cita
Agora o protagonista da página 276. O cruzado nasceu moeda de ouro, cunhada pela primeira vez em 1457, no tempo de D. Afonso V, e o nome veio das cruzadas que o rei apoiava. Começou valendo 253 réis e depois ficou fixado, por muito tempo, em 400 réis. Virou tão comum que passou a funcionar como unidade de conta pra quantias grandes, igual ao conto. Essa ficha completa das moedas está no dicionário do projeto A Terra e o Território no Império Português, que reúne os valores de cada peça.

Tem uma pegadinha: em 1688 o rei D. Pedro II de Portugal mandou aumentar em 20% o valor das moedas de prata, e o cruzado novo passou a valer 480 réis. Então, num documento antigo, "cruzado" pode ser 400 ou 480 réis, dependendo da moeda e da época. Pra conta de padaria a diferença é pequena; pra 94 milhões, já muda o resultado em bilhões de réis. Neste post eu uso os 400 réis do cruzado clássico, que é a referência usual.
Tabelinha rápida: quanto valia cada moeda
- Real: 1 réis, a unidade de conta que dava nome a tudo.
- Vintém: 20 réis. É ele que sobrevive até hoje na expressão "sem gastar um vintém".
- Tostão: 100 réis. Outro que virou expressão: "sem um tostão furado".
- Pataca: 320 réis.
- Cruzado: 400 réis. Cruzado novo: 480 réis.
- Patacão: 960 réis, o valor de três patacas. Moeda de prata muito comum no tempo de D. João.
- Mil-réis: 1.000 réis, escrito 1$000.
- Escudo: 1.600 réis. Meia-dobra: 6.400 réis. Dobrão: 24.000 réis, o peso pesado das moedas de ouro.
- Conto de réis: um milhão de réis, escrito 1:000$000. Unidade de conta, não moeda física.
As seis moedas que passaram pela minha mão
Aqui o assunto sai do livro e entra na minha vida. O cruzado voltou ao Brasil em 1986, de nome emprestado da moeda colonial, no Plano Cruzado. Eu era só uma criança na época do cruzeiro, e vi três zeros sumirem do dinheiro de uma vez. Em 1989 veio o cruzado novo: mais três zeros fora. Em 1990 a moeda voltou a se chamar cruzeiro, mudando só o nome. Em 1993, cruzeiro real, outra tesourada de três zeros. E em julho de 1994, comigo já trabalhando junto do meu pai, chegou o real. Seis moedas ainda na minha juventude, todas na tabela do Banco Central que linkei ali em cima.

Eu não era adulto, não mexia com dinheiro grande, mas via. A gôndola do supermercado trocava de preço todo dia, com as maquininhas de remarcar trabalhando sem descanso. E via meu pai, vendedor a vida inteira, rodando com carro de som e voltando pra casa com as vendas do dia: um bolo de dinheiro vivo, porque digital ainda era coisa de filme. Ele repetia que aquele dinheiro não valia nada. Quem não corria pro banco perdia, porque no dia seguinte as mesmas notas já compravam menos. E quem nem banco tinha ficava vendo o trabalho derreter na mão.
O dia da primeira cédula de um real eu guardo até hoje. A família vendia de porta em porta, no interior de Minas Gerais, eu trabalhando junto com meu pai, oferecendo um equipamento que ajudava a trocar o botijão de gás em casa. Fizemos a venda e recebemos a nota nova. Ficamos ali admirados, porque um real comprava coisa de verdade: dava pra levar um quilo de frango ou uma Coca-Cola de dois litros. E as prateleiras mudaram junto: o que custava dez mil cruzeiros, ou um milhão nos itens mais caros, virou número pequeno de novo.

Agora a minha análise, de quem viveu os dois lados da prateleira. Trocar de moeda não enriquece ninguém. Meu primeiro emprego pagava o mínimo da época: R$ 64,79 por mês. Na rua se dizia que um real valia um dólar, e na largada valia mesmo; só que isso dava sessenta e poucos dólares por um mês inteiro de trabalho, coisa que um trabalhador americano tirava em poucas horas. E a cesta básica calculada pelo Dieese em 1994 custava por volta de R$ 64, como mostra este levantamento da CNN Brasil: o salário inteiro acabava numa compra. A moeda trocou de nome seis vezes na minha vida sem que o poder de compra do brasileiro comum acompanhasse. Vale pra cá e valia pra Lisboa: moeda é termômetro, e febre ninguém cura trocando o termômetro.
Botando tamanho nos milhões
Feita a conversão: 94 milhões de cruzados vezes 400 réis dá 37,6 bilhões de réis, ou seja, 37.600 contos. Número bonito, mas ainda abstrato. Valor antigo só ganha corpo comparado com preço e salário da própria época. Achei duas âncoras documentadas.

A primeira é salário. Num processo guardado pelo Arquivo Nacional, o soldo de um segundo grumete servindo na Marinha entre 1809 e 1811 era de 2$000 por mês, dois mil réis, o equivalente a 5 cruzados mensais. O documento original está transcrito no portal História Luso-Brasileira, do Arquivo Nacional. Faz a conta: pra juntar 94 milhões de cruzados com esse soldo, o marinheiro ia precisar trabalhar mais de um milhão e meio de anos. Sem gastar um vintém no caminho.

A segunda âncora é imóvel. Um estudo da Revista Mosaico, da PUC de Goiás, garimpou os anúncios da Gazeta do Rio de Janeiro, o jornal oficial da corte, e encontrou sobrados à venda no Rio de 1819 por uma média de 6:600$000, que na escrita de hoje dá 6,6 milhões de réis: 6,6 contos por sobrado. O artigo completo está disponível aqui. Com 94 milhões de cruzados dava pra comprar, na ponta do lápis, uns 5.700 sobrados na capital da colônia. Depois da queda, os 2 milhões de cruzados restantes compravam uns 120. De uma cidade inteira de sobrados pra um bairro pequeno.

E a Gazeta que serviu de base pro estudo é fonte primária que qualquer pessoa pode abrir hoje: está digitalizada, de graça, na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Vale a visita só pra ver os anúncios de 1819 com os próprios olhos.
E em dinheiro de hoje?
Aí que tá: não dá. Não existe série confiável de inflação ligando os réis de 1808 ao real de 2026. Os conversores de internet chutam a partir do preço do ouro, e cada um entrega um número diferente do outro. Se alguém cravar um valor exato em reais, desconfie. O caminho honesto é o que fizemos acima: comparar com salário e imóvel da própria época.
A conta que quebrou Portugal
Com o tamanho dos números na mão, a página 276 vira outra leitura. Em 1808, D. João abriu os portos do Brasil às nações amigas, na prática à Inglaterra. Em 1810, um tratado deu vantagem escancarada às mercadorias inglesas no mercado brasileiro. Enquanto isso, Portugal seguia arcando com a guerra contra Napoleão em casa, com impostos de guerra mantidos mesmo depois da luta terminada, como o próprio livro descreve. O comércio português, prejudicado pela concorrência britânica, despencou: segundo os dados reunidos pelo Laurentino, as vendas de Portugal pra colônia caíram de 94 milhões de cruzados pra 2 milhões, e as exportações do Brasil pra Portugal caíram pela metade, de 353 pra 189 milhões. O livro traz ainda o movimento do porto: 1.214 navios portugueses entraram no Rio em 1810; em 1820, foram 212, e só 57 saídos de Lisboa.
A historiadora citada nessa parte do livro é Maria Odila Leite da Silva Dias, autora do clássico "A Interiorização da Metrópole", publicado no volume 1822: Dimensões, organizado por Carlos Guilherme Mota (Editora Perspectiva, 1972). A tese dela é forte: com a corte no Rio, a metrópole atravessou o oceano, e Lisboa foi virando periferia do próprio império. Aqui entra uma leitura minha, avisada: olhando esses números, a revolta que estourou no Porto em 1820, exigindo a volta do rei, deixa de parecer capricho político. Era um país vendo o caixa esvaziar ano após ano, com a conta da guerra em cima da mesa e o lucro do comércio indo pra Londres e pro Rio de Janeiro.
Se você for ler o 1808, olha isso aqui
- Cruzado = 400 réis. Viu valor em cruzado, multiplica por 400 e pensa em réis.
- Cifrão no meio: 1$000 é mil réis. Dois pontos na frente: 1:000$000 é um conto, um milhão de réis.
- Cruzado novo = 480 réis. Em documento antigo, confira qual dos dois o autor está usando.
- Pra sentir o tamanho, compare com a época: soldo de marinheiro iniciante era 2$000 por mês, e um sobrado no Rio de 1819 saía em média por 6:600$000.
- Desconfie de conversor de réis pra real na internet. Cada um dá um número diferente.
- A Gazeta do Rio de Janeiro está digitalizada de graça na Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Dá pra ler os anúncios originais.
A leitura segue toda noite, com a luminária presa na página. A diferença é que agora, quando o Laurentino soltar um valor em cruzado, a tabelinha deste post já está pronta aqui do lado.
E você: qual foi o número num livro de história que te fez largar a leitura pra ir pesquisar?
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