Rotina de D. João VI: o rei que fazia tudo na frente de todo mundo

Passava das dez da noite. Deitado na cama, com a luzinha de leitura presa na capa do livro, eu avançava mais umas páginas do 1808, do Laurentino Gomes, dentro dos meus estudos sobre a história do Brasil. Na página 267, um rei de Portugal manda parar o passeio, um criado arma um equipamento de três peças no chão e D. João VI se senta ali mesmo, em campo aberto, na frente da comitiva inteira.
Isso está num livro com fonte, historiador citado e nota de rodapé. E olha só: o penico nem é a parte mais esquisita da rotina desse homem.
O rei que a escola não te apresentou
Todo mundo decorou que a família real chegou ao Brasil em 1808. O que quase ninguém conta é o que esse rei fazia da hora que acordava até a hora de dormir. Tem cerimônia com bacia de prata, tem o cargo mais ingrato do Império e tem um detalhe do palácio que explica por que a corte do Rio não cheirava bem. Vai lendo comigo até o fim, porque a história só engrossa.
Um rei que acordava às seis da manhã
Fora das festas oficiais, D. João VI levava no Rio de Janeiro uma vida pacata. Acordava às 6h e era vestido pelo camareiro, Matias Antônio de Sousa Lobato, o visconde de Magé. Rezava no oratório e emendava nas audiências da manhã, comendo torradas enquanto recebia os fidalgos mais próximos e até os serviçais da corte. Rei de porta aberta, no sentido bem literal.
O visitante mais constante era Paulo Fernandes Viana, o intendente-geral da polícia, recebido três vezes por dia pra discutir melhorias urbanas e problemas de segurança no Rio de Janeiro. Três reuniões diárias sobre segurança pública. Tem cidade grande hoje que não consegue uma por semana. Depois do almoço, o rei dormia uma ou duas horas.
A cerimônia da bacia de prata
As refeições principais eram feitas com os filhos. Na sobremesa acontecia sempre uma pequena cerimônia chamada de lava-mãos: o príncipe D. Pedro, o filho mais velho, segurava uma bacia de prata, enquanto o caçula, D. Miguel, despejava a água pro pai lavar as mãos sujas de gordura.

O menino da bacia virou o imperador que declarou a independência do Brasil. O menino da água virou rei de Portugal.
O moço do penico
No fim da tarde, D. João saía pra passear numa carruagem pequena puxada por mulas, às vezes dirigindo ele próprio. Os bastidores desse passeio foram registrados pelo historiador Tobias Monteiro, citado por Laurentino Gomes. Segundo ele, à frente da comitiva ia um moço de cavalariça que o povo apelidou de toma-largas. Ninguém sabe direito o porquê do nome: talvez porque abria espaço à passagem do rei, talvez pelas vestimentas de abas enormes que usava. Ficou sem resposta até hoje.

Esse moço montava uma mula com dois alforjes pendurados na sela. Num deles ia a merenda de D. João VI. No outro, um penico e uma armação de três peças que funcionava como vaso sanitário portátil, pra ser usado em campo aberto.
A certa altura do passeio, o rei murmurava uma ordem. O moço descia da mula e armava o equipamento no chão. O camarista se aproximava, desabotoava os calções do rei, e D. João se sentava com a maior tranquilidade do mundo, diante dos oficiais, da comitiva e até da princesa Maria Teresa, a filha predileta, quando ela o acompanhava.
Terminado o serviço, vinha um criado particular fazer a limpeza. Aí que tá: existia uma pessoa no Império cujo trabalho era esse. Cargo de confiança como poucos.
Resolvido o assunto, o passeio continuava até a hora da merenda. Além da comida guardada no alforje, o rei carregava uns pedaços extras no bolso do casacão encardido, e ia comendo enquanto contemplava a paisagem ou parava pra conversar com quem o saudava pelo caminho. À noite, recebia os súditos pro beija-mão e ia se deitar por volta das 23h.
Os penicos de São Cristóvão
Tobias Monteiro conta mais uma da intimidade do rei. Os quartos do Palácio de São Cristóvão se abriam pra uma varanda, e D. João dormia sozinho num deles. A sala ao lado, onde ele recebia visitas e despachava com ministros, era o único acesso ao quarto. Resultado: toda manhã os criados do palácio precisavam atravessar essa sala carregando os penicos usados durante a noite. Dependendo da hora, a travessia acontecia com o monarca recebendo convidados ali mesmo.
Pra evitar constrangimento, os vasos ganhavam uma tampa de madeira enfeitada com uma cortininha de veludo encarnado. Eu digo chique! Só que, segundo o historiador, o fechamento era imperfeito e o cheiro denunciava o conteúdo. O próprio livro resume: naquela altura, nem tudo cheirava bem na corte do Rio de Janeiro.
Dá pra confiar nessas histórias?
Pergunta justa. A fonte principal dessas cenas é Tobias Monteiro, jornalista e historiador que reuniu documentos, relatos e testemunhos de outra época na obra História do Império: a elaboração da Independência, publicada em 1927, mais de cem anos depois dos fatos. Ou seja: memória de época passada a limpo por um pesquisador, o que sempre pede um pé atrás, principalmente nas cenas mais pitorescas. Quem quiser conferir direto na fonte, a obra está digitalizada de graça na Biblioteca Digital do Senado Federal.
E existe divergência, sim. Parte dos estudiosos defende que essa imagem de rei desajeitado e comilão foi engordada por memorialistas e adversários, e lembra que o mesmo D. João, no meio de uma crise mundial, abriu os portos, autorizou a imprensa, fundou escolas e criou instituições que funcionam até hoje. O homem do penico portátil também fundou, em 1818, o Museu Real, embrião do Museu Nacional, a instituição científica mais antiga do Brasil. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. As cenas deste post estão no capítulo sobre D. João do 1808 (Editora Planeta, 2007), com as notas de rodapé apontando a obra de Monteiro.
Onde essa história mora hoje
O Palácio de São Cristóvão fica dentro da Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio de Janeiro. Foi residência da família real e depois da família imperial até 1889, e em 1892 virou a sede do Museu Nacional. Em setembro de 2018, um incêndio destruiu cerca de 85% de um acervo de 20 milhões de itens, numa das maiores perdas de patrimônio da história do país.
A reconstrução segue em etapas. O palácio já teve aberturas parciais, com exposições temporárias e ingresso agendado pela internet, mas a previsão de entrega completa já mudou mais de uma vez. Antes de programar qualquer visita, vale conferir o site oficial do museu. O endereço é o mesmo onde D. João viveu a rotina que você acabou de ler, num prédio que o Império depois ampliou e reformou.
Se essa história te deu vontade de ver de perto, olha isso aqui
- A Quinta da Boa Vista é um parque público aberto, na zona norte do Rio. O palácio fica dentro dela.
- O Museu Nacional está em reconstrução. A visitação é parcial, em períodos específicos e com ingresso agendado. Confira o site oficial antes de ir.
- No centro do Rio, na Praça XV, o Paço Imperial é outro prédio usado pela corte de D. João e costuma receber exposições.
- O Jardim Botânico do Rio também nasceu no tempo de D. João e segue aberto a visitas o ano inteiro.
O rei ia dormir às 23h. Aqui do meu lado, a luzinha de leitura continua presa na capa do livro, esperando o próximo capítulo. Estudar a história desse Brasilzão tem dessas: você abre o livro atrás de datas e encontra uma cortininha de veludo tentando guardar um penico real.
E você, já sabia que D. João VI viajava com penico na comitiva, ou essa história te pegou de surpresa?
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