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Guerra do Paraguai: a frase que reabriu uma ferida de 160 anos

·8 min de leitura·por Helio Pere
Guerra do Paraguai: a frase que reabriu uma ferida de 160 anos

Uma frase dita numa fábrica de equipamentos de defesa em Jacareí, interior de São Paulo, numa sexta-feira, dia 24 de julho, atravessou a fronteira e caiu em Assunção como pedra em vidraça. Seis dias depois, o embaixador do Brasil no Paraguai foi convocado pra receber uma nota oficial de protesto. O Congresso paraguaio aprovou moções de repúdio. Os dois presidentes tiveram que conversar por telefone pra acalmar os ânimos.

O motivo? Uma guerra que terminou há mais de 150 anos. Rapaz, quando eu li a notícia, fiquei um bom tempo pensando em como um assunto de 1864 ainda consegue mexer tanto com dois países vizinhos em pleno 2026.

Antes de continuar, um aviso

Se você aprendeu na escola que a Inglaterra provocou a Guerra do Paraguai, prepare o coração: boa parte do que a gente decorou pra prova pode estar errada. Neste post eu conto o que causou a crise diplomática de agora, o que os historiadores descobriram nos arquivos, e um detalhe sobre uma carta de dezembro de 1864 que muda bastante a conversa. Tem até um professor famoso admitindo que ensinou a versão errada por anos.

A frase que começou tudo

Durante um evento sobre a indústria de defesa, o presidente Lula afirmou que "um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil", citando a invasão de Corumbá, no Mato Grosso da época. A fala durou segundos. A repercussão, não.

Do lado paraguaio, a declaração foi entendida como uma simplificação das causas do conflito. O chanceler Rubén Ramírez Lezcano anunciou a convocação do embaixador brasileiro, José Antônio Marcondes de Carvalho, pra uma reunião que contou até com o vice-presidente do país. Nota oficial entregue, telefonema entre os presidentes Santiago Peña e Lula, e o assunto dominando o noticiário dos dois lados da fronteira.

Aí que tá: pra entender por que uma frase dessas dói tanto no Paraguai, tem que olhar os números da guerra. E os números são pesados.

Os números que explicam a ferida

A Guerra do Paraguai, ou Guerra da Tríplice Aliança como eles chamam por lá, é considerada o conflito armado mais sangrento da história da América Latina. De um lado, o Paraguai, com cerca de 400 mil habitantes. Do outro, Brasil, Argentina e Uruguai juntos, somando mais de 11 milhões. Durou de 1864 a 1870.

O resultado foi devastador. Calcula-se que a população paraguaia tenha caído pra menos de 190 mil pessoas ao final da guerra. Segundo o historiador Francisco Doratioto, professor aposentado da Universidade de Brasília e uma das maiores referências no assunto, cerca de nove em cada dez homens paraguaios morreram. Sobraram basicamente idosos, mulheres e crianças pra reconstruir um país inteiro.

Um país que perde quase toda a população masculina numa guerra não esquece. Né não?

Mas como um país tão pequeno teve essa coragem?

Porque em 1864 o tamanho da população enganava. O Brasil tinha milhões de habitantes, mas um exército regular de uns 18 mil homens espalhados num território gigante, e o Mato Grosso vivia praticamente isolado do resto do país. O Paraguai era o contrário: décadas de militarização do Estado tinham deixado dezenas de milhares de soldados mobilizados e prontos, provavelmente a maior força em armas da região naquele momento. No curto prazo, a vantagem era toda de Solano López. Tanto que a invasão do Mato Grosso, no começo, encontrou pouquíssima resistência.

O plano dele também não era engolir o Brasil, e sim uma guerra rápida pra ganhar peso político na região do Prata e garantir a saída pro mar pelos rios. Só que o cálculo desmoronou em cascata. Os aliados argentinos que ele esperava não apareceram. Ao atravessar a província de Corrientes sem autorização, empurrou a própria Argentina pra guerra contra si, e nasceu a Tríplice Aliança. E na batalha naval do Riachuelo, em junho de 1865, o Brasil tomou o controle dos rios, a única porta de entrada e saída do Paraguai. A guerra curta virou um cerco de cinco anos. Imagina só o tamanho do erro de conta.

A versão que a gente aprendeu na escola

Eu, você e praticamente todo mundo que estudou no Brasil entre os anos 1980 e 2000 aprendeu mais ou menos assim: o Paraguai era um país próspero, industrializado, sem dívida externa, e a Inglaterra teria armado a guerra pra destruir esse exemplo perigoso de desenvolvimento independente na América do Sul. O Brasil teria sido usado como massa de manobra do imperialismo britânico.

Essa versão ganhou força com o livro Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai, do jornalista Júlio José Chiavenato, publicado em 1979, em plena ditadura militar. O contexto explica muita coisa. Parte da oposição ao regime usava a narrativa pra criticar os militares e o imperialismo estrangeiro ao mesmo tempo. O livro vendeu muito, entrou nas salas de aula, virou quase verdade oficial.

Olha só o detalhe mais humano dessa história toda: o próprio Doratioto, hoje o maior crítico dessa versão, ensinou ela durante anos como professor de colégio em São Paulo. "Eu ensinei isso", admite ele. Até o dia em que um aluno perguntou uma coisa simples: se a Inglaterra queria acesso ao mercado paraguaio, qual a lógica de destruir esse mercado numa guerra? O professor não tinha resposta boa. Foi atrás dela nos arquivos.

O que os documentos mostram

Doratioto pesquisou arquivos no Brasil, no Paraguai, na Argentina, no Uruguai e na própria Inglaterra. E não encontrou documento nenhum provando que o governo britânico quis ou provocou a guerra. Nenhum.

Encontrou, na verdade, o contrário. Uma carta do diplomata Edward Thornton, então representante britânico na região, endereçada ao chanceler paraguaio José Berges, datada de 7 de dezembro de 1864. Nela, o inglês se oferecia pra ajudar na reconciliação entre Paraguai e Brasil. Cinco dias antes de o governo paraguaio declarar guerra. Um país interessado em provocar o conflito não costuma se oferecer de mediador na véspera.

E os famosos empréstimos ingleses que teriam financiado a Tríplice Aliança? Segundo a pesquisa do historiador, apenas uns 12% das despesas brasileiras na guerra vieram de crédito externo. O resto saiu do próprio bolso do Império. Banco empresta pra quem paga juros, em guerra ou fora dela. Isso é comércio, não conspiração.

O Paraguai industrializado e quase socialista também não resiste aos documentos. Indústria pesada em 1864? O país tinha uma fundição. A economia era agrícola, baseada na erva-mate colhida por camponeses explorados pelo próprio Estado. Pra historiografia atual, as causas da guerra estão na política regional do Rio da Prata: disputas de fronteira, a livre navegação dos rios, a aliança de Solano López com um dos partidos uruguaios, e as ambições de todos os envolvidos. Todos mesmo, incluindo o Brasil, que não era nenhum santo nessa história.

O que pouca gente está comentando

Aliás, um parêntese que quase ninguém liga com essa crise: ela chega num momento delicado pros projetos de integração entre os dois países. Tem o leilão da Hidrovia do Rio Paraguai em negociação, com 600 quilômetros de vias navegáveis no Mato Grosso do Sul. E tem a Rota Bioceânica, cuja ponte ligando Porto Murtinho, no Brasil, a Carmelo Peralta, no Paraguai, teve a montagem estrutural concluída em 15 de julho, no que os engenheiros chamaram de beijo das aduelas. Duas semanas depois do beijo, os países estavam trocando notas de protesto. Ironia das grandes.

Como viajante, essa rota me interessa demais. É o caminho que promete ligar o Atlântico ao Pacífico por terra, passando pelo nosso Brasilzão, pelo Paraguai, pela Argentina e pelo Chile. Uma crise diplomática mal resolvida pode atrasar isso tudo. No fim das contas, uma frase sobre 1864 pode mexer com estrada que ainda nem foi inaugurada.

Se o assunto te fisgou, olha isso aqui

O livro Maldita Guerra, do Francisco Doratioto, é a referência mais respeitada sobre o conflito hoje. Denso, mas vale cada página. Se quiser comparar as versões, leia também o Genocídio Americano, do Chiavenato, sabendo o contexto em que foi escrito. E pra quem gosta de viajar pela história no lugar onde ela aconteceu: Corumbá, no Mato Grosso do Sul, guarda o Forte Coimbra, atacado logo no início da guerra. Do lado paraguaio, o Panteão Nacional dos Heróis, em Assunção, e o parque de Cerro Corá, onde Solano López morreu em 1870, contam a versão deles. Ouvir os dois lados no território deles é outra experiência.

O que eu fico pensando

Minha implicância nessa história toda não é com um lado ou com outro da diplomacia. É com a facilidade com que a gente repete o que aprendeu sem conferir. Eu decorei a versão do imperialismo inglês pra prova, tirei nota, e passei décadas achando que sabia. Não sabia.

E confesso que uma dúvida ficou sem resposta pra mim: se os documentos estão aí desde sempre nos arquivos, por que a versão errada durou tanto nas escolas? Não sei. Talvez porque história bem contada convence mais que história bem documentada.

A crise entre os governos vai passar, imagino. A ferida paraguaia, essa é mais funda.

E você, aprendeu qual versão da Guerra do Paraguai na escola: a da Inglaterra vilã ou a das disputas regionais? Me conta nos comentários.

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