Canhão El Cristiano: a arma de sinos que o Paraguai quer de volta

No meio de um pátio no Centro do Rio de Janeiro existe um bloco de bronze de 12 toneladas que dois países não conseguem dividir. Ele não dispara há mais de 150 anos. Mesmo assim, no dia 31 de julho de 2026, o governo do Paraguai entregou uma nota oficial ao embaixador brasileiro em Assunção pedindo, mais uma vez, a devolução da peça.
O nome dela é El Cristiano. E a origem do nome é a parte que mais mexeu comigo nessa história toda: a peça foi fundida com o bronze de sinos retirados de igrejas paraguaias. Sino que chamava o povo pra oração virou arma de guerra. Rapaz, poucas imagens resumem tão bem o que um conflito faz com uma nação.
Antes de seguir, um aviso
Essa não é uma história simples de museu. Tem sino confiscado, fortaleza jogando arma no rio pra não entregar, um detalhe técnico que quase ninguém conta sobre a peça e uma disputa diplomática que já dura mais de uma década. E no fim eu te mostro como ver tudo isso de perto sem pagar um centavo de ingresso. Vem comigo.
Sinos que viraram arma
A Guerra da Tríplice Aliança, que a gente conhece como Guerra do Paraguai, durou de 1864 a 1870 e colocou Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai. Lá pelo meio do conflito, o Paraguai já estava cercado e sem acesso a matéria-prima pra fabricar armamento. A saída do governo paraguaio foi confiscar os sinos das igrejas do país e derreter o bronze.
Desse metal nasceu a peça, fundida em 1867, segundo pesquisa do historiador Adler Homero de Castro, especialista em artilharia e pesquisador ligado ao Museu Histórico Nacional. Nos munhões, as inscrições registram a origem: "El Cristiano" e "da religião ao Estado". Não foi a única peça batizada. Havia irmãos de fundição com nomes como El Criollo e Acá Verá.
O El Cristiano guarneceu o Forte de Curupaiti e depois a Bateria Londres, a principal posição da Fortaleza de Humaitá, que fechava o acesso a Assunção pelo Rio Paraguai. Aí que tá o detalhe que pouca gente conta: quando Humaitá se rendeu, em 1868, os paraguaios arremessaram a peça no rio pra não entregar ao inimigo. Não adiantou. O bronze foi resgatado da água e, com o fim da guerra, os armamentos da fortaleza foram divididos entre os aliados. O El Cristiano coube ao Brasil e chegou aqui em 1870, como troféu de guerra.
Primeiro ele ficou no antigo Arsenal de Guerra da Corte. Quando o Museu Histórico Nacional foi criado, em 1922, justamente naquele conjunto de prédios, a peça entrou pro acervo. Está lá até hoje, no pátio, exposta a céu aberto.
O canhão que tecnicamente nem é canhão
Todo mundo chama de canhão. Os jornais da época chamavam de canhão. Mas a ficha oficial do acervo do Museu Histórico Nacional explica que a peça é um obuseiro, feito pra disparar granadas ocas cheias de pólvora, e não balas sólidas. O corpo é curto demais pra um canhão de verdade: 2,94 metros de comprimento pra um calibre de 305 milímetros.
E tem mais uma informação que o próprio museu admite na descrição do acervo, sem rodeio nenhum: a fundição é de péssima qualidade. O bronze é poroso perto da boca da peça, e as irregularidades externas indicam que o Paraguai nem tinha tornos potentes o bastante pra dar acabamento num objeto de 12 toneladas. Olha só que contradição bonita: o troféu de guerra mais disputado do Brasil é uma peça tecnicamente malfeita. E é exatamente isso que torna ela tão impressionante. Um país cercado, sem metal, sem ferramenta adequada, derretendo os sinos das próprias igrejas pra continuar lutando. A precariedade da peça conta mais história que o tamanho dela.
A guerra que quase apagou um país
Não dá pra falar do El Cristiano sem falar do peso da guerra por trás dele. Foi o conflito mais sangrento da história da América do Sul. Quantos paraguaios morreram, ninguém sabe ao certo. O historiador americano Thomas Whigham, um dos maiores estudiosos do tema, estima que o Paraguai perdeu mais de 60% da população. Outros pesquisadores trabalham com números menores. Os registros da época são precários e boa parte se perdeu.
Essa incerteza não é detalhe. É parte da tragédia.
A disputa que não acaba
O pedido de devolução não nasceu agora. Em 2015, o Senado paraguaio aprovou uma declaração pedindo a abertura de negociações diplomáticas pela peça. Em 2023, o presidente Santiago Peña afirmou publicamente que os itens levados na guerra pertencem ao Paraguai. E em 31 de julho de 2026, num momento de atrito diplomático entre os dois governos, o vice-presidente paraguaio Pedro Alliana entregou ao embaixador brasileiro uma nota formal pedindo a devolução dos troféus de guerra, incluindo o El Cristiano, o canhão Presidente López, que também está no museu do Rio, e cópias de documentos históricos guardados em arquivos brasileiros. A notícia saiu em veículos como o G1 e o Poder360.
Do lado brasileiro, a situação é travada. A peça é tombada pelo Iphan e faz parte do acervo do museu há mais de um século. Juristas que analisaram o caso, como em artigo publicado no portal Consultor Jurídico em 2023, apontam que o direito internacional da época considerava bens capturados em guerra como botim pertencente ao país captor. Ou seja, obrigação legal de devolver não existe. Já se estudou até uma solução intermediária, transformando a peça em parte de um memorial de reconciliação aqui mesmo no Brasil.
Agora, o contraponto que quase ninguém menciona: o Paraguai também guarda peça brasileira. O historiador Adler Homero de Castro cita o caso de um canhão Whitworth do Exército Brasileiro que explodiu em 1867, foi abandonado em Tuiuti e hoje está exposto em museu paraguaio. E o vapor brasileiro Anhambaí, capturado no conflito, está no Parque Nacional Vapor Cué, perto de Caraguatay, no Paraguai. Troféu de guerra existe dos dois lados dessa fronteira.
Minha opinião, com todo respeito aos dois países: entendo o argumento jurídico brasileiro, mas sino de igreja carrega um simbolismo que artefato militar comum não carrega. Pra mim, que tenho fé, um objeto nascido de casas de adoração e transformado em instrumento de morte merece um destino melhor que virar cabo de guerra diplomático. Se a peça vai voltar ou vai ficar, eu não sei. Mas o mínimo que ela merece é ser contada por inteiro, com os dois lados da história na mesma placa. Hoje não é isso que acontece.
Como visitar o El Cristiano
O Museu Histórico Nacional fica na Praça Marechal Âncora, sem número, no Centro do Rio de Janeiro, coladinho na região da Praça XV, entre o centro histórico e o Aeroporto Santos Dumont. Aqui do Paraná, onde moro, a fronteira com o Paraguai fica a pouco mais de duas horas de estrada, mas pra ver o troféu mais famoso daquela guerra é preciso cruzar o país até o Rio. Ironia das grandes.
A melhor notícia: a entrada é gratuita pra todo mundo, segundo o site oficial do museu. De graça mesmo, coisa rara no turismo de hoje. O funcionamento normal é de quarta a domingo, das 10h às 17h. O detalhe importante é que o museu passou por obras recentemente, com trechos do circuito fechados em alguns períodos, então confira o site oficial antes de ir: mhn.museus.gov.br. O El Cristiano fica no pátio, área aberta do conjunto.
Pra chegar, esqueça o carro. O Centro do Rio não perdoa quem insiste em estacionar por lá. O metrô deixa você nas estações Carioca ou Cinelândia, e dali é uma caminhada curta. O VLT tem parada na região da Praça XV, ainda mais perto. E como o museu está nesse pedaço histórico da cidade, dá pra emendar o passeio com o Paço Imperial e as ruas antigas do entorno num mesmo dia, gastando quase nada além do transporte.
Se você for ver o canhão de perto, olha isso aqui
Confira o site oficial na semana da visita, porque o museu teve obras e o funcionamento pode mudar. Vá de metrô ou VLT, chegando perto da abertura pra evitar o movimento do Centro em dia de semana. O pátio é a céu aberto, então leve proteção pro sol ou pra chuva. Reserve umas duas horas pro conjunto todo e leia as inscrições nos munhões da peça, porque é ali que a história está gravada de verdade. E se for domingo, aproveite que a região da Praça XV fica bem mais tranquila pra fotografar.
O El Cristiano segue lá, parado no pátio, mudo desde 1868. Já passou por rio, por guerra, por arsenal e por um século de museu. Agora espera dois países decidirem o que fazer com ele. A espera já dura mais tempo que muita nação existe.
E você, acha que troféu de guerra deve ser devolvido ao país de origem ou deve ficar onde a história o deixou? Já viu o El Cristiano de perto no Rio?
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