Juazeiro do Norte e o esgoto: metade da cidade sem rede coletora

Estava anoitecendo quando eu peguei a vala no bairro Pio XII. Foi um baque seco, desses que a gente sente na coluna antes de entender o que aconteceu. Eu dirigindo, rua comum, e no meio dela aquele corte atravessando de um lado ao outro.
Quebrou uma peça. Qual, eu não lembro mais, e não vou inventar peça pra encher linguiça. Lembro do resto: saímos de Juazeiro do Norte pagando o conserto direto na locadora, no cartão.
O que passava naquela rua
Eu levei um tempo pra entender que aquela vala não era problema de uma rua só. Fui atrás do motivo e a explicação começa muito antes do meu carro, numa decisão tomada quando eu ainda era menino. Vale ler até o fim, porque a parte mais esquisita dessa história aparece só depois que a obra fica pronta.
A conta do baque
Foram uns R$ 609, mais ou menos, pagos na devolução do carro. Doeu porque não estava no planejamento de nada. Na mesma viagem pelo Ceará a gente ainda levou duas multas em Fortaleza, mais R$ 400 de prejuízo, e aí começou a conta que eu faço até hoje.
Carro alugado não sai por menos de uns R$ 140 por dia, com combustível. Uber, dependendo da cidade, tem corrida a partir de R$ 13, e a gente costuma gastar duas ou três por dia. Fora que problema no carro do Uber é do motorista, não meu. E eu e minha digníssima não brigamos por causa de trânsito.
Alugar carro naquele dia foi um mau negócio.
A maior do Cariri
Juazeiro do Norte não é cidade pequena. No Censo de 2022 apareceu com 286.120 pessoas, e a estimativa do IBGE para 2025 passou de 305 mil. É o município mais populoso de toda a região do Cariri e o terceiro do Ceará, atrás só de Fortaleza e Caucaia.
Tem aeroporto, tem universidade, tem um comércio que puxa gente de dezenas de municípios em volta. Em época de romaria a população da cidade praticamente incha, e a estrutura tem que dar conta desse vaivém o ano inteiro. E tem moto. Muita. Quem chega de fora percebe nos primeiros dez minutos.
Só que metade dessa cidade toda passou décadas sem rede coletora de esgoto disponível na porta.
Uma decisão de 1971
Aqui entra a parte que eu não sabia. Em 16 de abril de 1971 o governo federal formalizou o Plano Nacional de Saneamento, o Planasa, tocado pelo Banco Nacional da Habitação com dinheiro do FGTS. A ideia era acabar com o modelo em que cada município se virava sozinho e centralizar tudo nas companhias estaduais.
O plano funcionou. Para a água. Segundo o levantamento do próprio IBGE sobre saneamento básico, o Planasa priorizou a execução dos serviços pelas companhias estaduais, e o abastecimento de água foi o que mais avançou. Os números da época mostram o tamanho do salto: em 1970, cerca de metade da população urbana tinha água tratada; em meados dos anos 80, o índice passava de 85%.
Com o esgoto foi diferente. Levar água até a torneira já era caro, mas o esgoto exige rede coletora, estação elevatória, estação de tratamento e manutenção pra sempre. Com dinheiro curto, a escolha prática foi óbvia. E quando o Planasa foi interrompido em 1986, junto com o BNH, a conta do esgoto ficou aberta. As análises do período apontam justamente isso: sucesso na água, fracasso na coleta e no tratamento.
Essa parte é interpretação minha, e assumo: chamar isso de falta de dinheiro é confortável demais. Foi ordem de prioridade. Alguém decidiu o que vinha primeiro, e Juazeiro está pagando cinquenta anos depois, no chão da rua.
Água de baixo do chão
Aí tem um detalhe que muda tudo, e que eu só descobri pesquisando. Diferente da maioria das cidades brasileiras, que tiram água de rio ou de açude, Juazeiro do Norte depende exclusivamente de fontes subterrâneas. Toda a água que sai da torneira vem de poços profundos.
Uma reportagem do Portal M1, de março de 2026, levantou os números: são 74 poços espalhados por 21 bairros, e a Cagece retira cerca de 2 milhões de metros cúbicos por mês do subsolo. Boa parte disso volta como esgoto, e quando esse esgoto não tem pra onde ir, ele infiltra. Seis poços já foram desativados por queda na qualidade da água bruta, e outros quatorze foram perfurados pra repor.
O ex-superintendente do órgão ambiental do município, Eraldo Oliveira, resumiu numa frase que me deixou pensando: "Nós hoje estamos tomando paleoáguas", ou seja, água antiga, de recarga lenta, que o subsolo não está conseguindo repor no mesmo ritmo em que é retirada. No relatório anual da Cagece de 2025 aparecem 76 amostras fora do padrão para coliformes totais e oito para Escherichia coli na rede de distribuição.
Resumindo o que li: a cidade bebe do mesmo lugar onde o esgoto mal destinado escorre.
Se você for dirigir por lá, presta atenção nisso
- Vala de rua não é buraco. Ela atravessa a pista inteira, e passar rápido custa peça
- De noite o risco dobra, porque a sombra esconde a profundidade
- Confira a cobertura do seguro do carro alugado antes de assinar. Avaria de suspensão costuma ficar de fora
- Fotografe o carro na retirada e na devolução. Isso já me economizou discussão
- Faça a conta antes: aluguel mais combustível mais risco de multa, contra o total das corridas de aplicativo
Agora, sobre o que mudou de lá pra cá, porque mudou mesmo.
Cem, cento e vinte ou cento e quarenta
Em fevereiro de 2023 o Ceará assinou uma Parceria Público-Privada entre a Cagece e a Ambiental Ceará pra universalizar o esgotamento sanitário. O contrato do primeiro bloco incluiu 17 municípios das regiões metropolitanas de Fortaleza e do Cariri, Juazeiro entre eles, com meta de 90% de cobertura até 2033.
Sobre a quantidade de rede nova construída em 2025, as fontes divergem e eu prefiro dizer isso a escolher o número mais bonito. A própria Ambiental Ceará divulgou "mais de 100 km". O gerente executivo da empresa falou em mais de 120 km numa entrevista. A reportagem do M1 registrou 140 km. O que todas concordam é que a obra foi grande.
O resultado aparece nos rankings. Em 2024, pelos dados do Trata Brasil, Juazeiro tinha 23,41% de cobertura de esgotamento e era o pior município do Ceará no indicador. No fim de 2025 a cobertura chegou perto dos 50%. Na tabela de 2026 a cidade subiu quatro posições e está em 81º lugar no país, ainda na última colocação entre as cidades cearenses.
Rede na porta, casa desligada
E aqui está a parte que eu não esperava. Em 2026, mais de 20 mil endereços em Juazeiro do Norte já poderiam estar conectados ao sistema e continuavam sem ligação. A rede passa na calçada, o cano está lá, e o esgoto segue descendo pela sarjeta.
O motivo é bem terra a terra: a ligação exige obra dentro de casa, ligando as instalações do imóvel até o ponto da calçada. E essa parte é despesa do morador. Quem está desempregado, quem mora de aluguel, quem tem outra urgência na frente, empurra pra depois.
Só que a lógica dessa obra é coletiva. Um comerciante entrevistado pela reportagem já tinha ligado a lanchonete dele à rede e mesmo assim continuava com esgoto passando na frente do comércio, porque os vizinhos ainda não tinham feito o mesmo. Ele pagou e continuou convivendo com o problema. Fica difícil convencer o vizinho depois disso.
Quem quiser fazer a ligação procura a Cagece pelo 0800 275 0195. Não é propaganda de ninguém, é a informação prática que faltava nessa história.
O que dá pra fazer em Juazeiro do Norte fora do roteiro óbvio
- Mercado Central, na Rua São Paulo, 614, no Centro. Pela prefeitura, funciona de segunda a sexta das 7h às 17h e sábado das 7h às 14h, com possibilidade de alteração
- Lá dentro tem o corredor das raizeiras, com ervas e óleos, e é o melhor lugar da cidade pra entender o Cariri sem ninguém te explicando nada
- Artesanato em couro, xilogravura e literatura de cordel saem bem mais em conta ali do que em loja de rua turística
- Vá de manhã. Depois das 15h muito box já começa a fechar
- Entrada é gratuita, e pechinchar em artesanato é praxe, ninguém se ofende
Eu voltei ao Cariri outras vezes depois daquela viagem. A vala do Pio XII continua na minha memória mais pelo barulho do que pelo prejuízo, e olha que o prejuízo não foi pequeno pro orçamento daquela viagem. Uma cidade que cresce desse jeito, com aeroporto e universidade, e que ainda discute se o vizinho vai ou não ligar o esgoto na rede, tem alguma coisa fora de ordem.
Se a rede passasse na sua porta amanhã, mas você tivesse que gastar do próprio bolso pra adaptar a casa, você faria a ligação na hora ou deixaria pra depois?
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