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Lagoa da Jansen, São Luís: o nome que ninguém explica ao turista

·6 min de leitura·por Helio Pere
Lagoa da Jansen, São Luís: o nome que ninguém explica ao turista

O Uber contornou a água e eu fiquei ali com a cara na janela. De um lado, prédio alto colado em prédio alto. Do outro, um espelho de água parado, do tamanho de um bairro, bem no meio da cidade. Aquilo era a Lagoa da Jansen, o cartão-postal de São Luís. E foi assim que eu conheci ela: de passagem, dentro do carro, a caminho do hotel.

O hotel, aliás, se chamava SLZ Lagoa. Cheguei pensando que ia abrir a cortina e ver a água. Abri e vi prédio. Muito prédio. Lá no fundo, forçando bem a vista, aparecia o horizonte da praia. A lagoa ficou nas minhas costas, do outro lado do quarteirão.

Eu não caminhei nessa lagoa, e é por isso que esse post existe

Tem lugar que a gente visita e tem lugar que a gente só atravessa. Esse aqui eu atravessei de carro, subi o drone e fui embora achando que já sabia o que tinha visto. Quando cheguei em casa e fui pesquisar, descobri que aquela água tem uma origem que quase ninguém conta pro turista, e um nome que carrega uma história bem pesada. Fica comigo até o fim que eu explico as duas coisas.

Ali antes corria um igarapé

Comecemos pelo começo: aquilo tecnicamente é uma laguna, e o nome de lagoa pegou no uso popular. Antes das avenidas, ali corria o Igarapé da Jansen, que desaguava direto no oceano, na Baía de São Marcos. Quando a cidade cresceu pro lado do São Francisco e da Ponta d'Areia, construíram a avenida que hoje leva o nome de Ana Jansen por cima de um aterro. Esse aterro funcionou como barragem e represou a água que antes ia e voltava com a maré.

Hoje a comunicação com o mar acontece por um canal de drenagem, nas marés altas de grande amplitude. E as marés de São Luís sobem e descem de um jeito que impressiona quem é de fora. Quem quiser conferir a parte técnica dessa formação, tem material acadêmico disponível sobre a urbanização da área e uma reportagem do jornal O Estado do Maranhão sobre as quase duas décadas da revitalização.

Olha só que interessante: o cartão-postal mais fotografado dessa parte da cidade nasceu de uma obra viária. Ninguém planejou uma lagoa. Ela apareceu.

O nome que ninguém explica pro turista

Ana Joaquina Jansen Pereira nasceu em São Luís em 1798 e morreu na mesma cidade em 1869. Conhecida como Donana, foi uma das mulheres mais ricas do Maranhão no século 19, dona de terras e imóveis, e mantinha cerca de oitocentas pessoas escravizadas. Esse número, inclusive, foi usado por ela em 1843 num pedido de título de nobreza a Dom Pedro II. Ela queria ser baronesa.

A fortuna dela também financiou a repressão do Exército Imperial a revoltas populares pelo Brasil. Depois da morte, virou personagem de uma história de assombração que os ludovicenses contam até hoje, envolvendo uma carruagem. Nesse assunto eu não vou entrar, mas registro que a lenda existe e que ela nasceu justamente da fama de crueldade da mulher. Quem quiser ler o levantamento completo, a Agência Pública publicou uma reportagem detalhada sobre ela. O nome segue estampado na lagoa, na avenida e em placa de rua, e existe discussão pública em São Luís sobre isso.

O que o Mangabinha viu lá de cima

Subi o drone ali na região e o que veio na tela explicou mais do que a janela do carro tinha explicado. Do chão, aquilo parece um lago urbano entre duas avenidas. De cima, o desenho aparece inteiro: a água encaixada no meio do bairro, o mangue resistindo nas beiradas, os prédios chegando junto até quase encostar na margem.

O céu estava fechado, como esteve o tempo todo. Foram nove dias no Maranhão e eu não vi o sol nem uma vez em São Luís. Rapaz, isso pra quem trabalha com imagem é uma bronca. Por outro lado, céu cinza dá aquele tom pesado na água que combinou demais com o assunto que eu vim descobrir depois.

Lagoa do Jansen do Alto

Hotel com nome de lagoa

A primeira estadia no SLZ Lagoa começou com dor de cabeça. Duas diárias já pagas tinham sido canceladas indevidamente pelo Booking. Uma atendente muito educada resolveu tudo no balcão, mas o quarto que sobrou tinha duas camas de solteiro. Minha digníssima e eu juntamos as duas e pronto, problema resolvido de graça.

Na volta dos Lençóis, reservamos o mesmo hotel de novo, setecentos e trinta reais pelas três noites. Aí que tá: o aplicativo tinha feito só uma pré-autorização no cartão, então tivemos que pagar na recepção mesmo, na hora do check-in. Fica o aviso pra quem parcela hospedagem achando que está tudo quitado. O café da manhã do lugar, esse eu recomendo sem medo. Era excelente. E a corrida de Uber voltando da praia do Calhau pra região da lagoa, à noite, saiu R$ 15,90.

Parque de 1988 e um problema que atravessa décadas

A área virou parque ecológico por lei estadual de 23 de junho de 1988. Aqui vale um aviso de honestidade: as fontes divergem no número da lei, aparecendo ora como 4.870, ora como 4.878. A extensão citada gira em torno de 150 hectares, com o entorno cercado pelos bairros São Francisco, Renascença, Ponta d'Areia e Ponta do Farol.

A grande obra de urbanização foi inaugurada em 30 de dezembro de 2001, com quadras, ciclovia, pista de caminhada, mirante e espaço pra bares e restaurantes. Em 2012 o parque foi recategorizado como Área de Proteção Ambiental, decreto que depois foi invalidado na justiça. E o problema mais antigo continua sendo o mesmo: a falta de manutenção das comportas que ligam a laguna ao mar, o que compromete a renovação da água e provoca reclamações de mau cheiro em certas épocas do ano.

Nos últimos anos houve novas obras de recuperação em parte da orla, na pista de skate e nas quadras. Quem for programar visita, confere antes o que está funcionando.

Se você for passar pela Lagoa da Jansen, olha isso aqui
  • Fica a cerca de 4 km do centro histórico, então dá pra emendar com um passeio no centro no mesmo dia
  • A praia da Ponta d'Areia fica logo ali do lado, boa pra fechar a tarde
  • Hospedagem na região sai bem de conta e te deixa perto do mar e do centro ao mesmo tempo
  • Vai levar drone? Desde 1º de julho de 2026 todo voo exige autorização prévia no SARPAS, do DECEA, inclusive pra drone abaixo de 250 gramas. O cadastro no SISANT segue obrigatório acima desse peso e recomendado abaixo dele. Confira as orientações oficiais da ANAC
  • Reserve de uma a duas horas se a intenção for caminhar a orla com calma

Fui embora de São Luís sem ter posto o pé na beira daquela água. Passei por cima com o drone, passei do lado com o Uber, dormi três noites num hotel batizado com o nome dela e não caminhei nem cem metros na margem. Bobeira minha, e das grandes.

O engraçado é que só fui entender o lugar depois de voltar pra Cascavel, sentado, lendo. Ficou de tarefa pra próxima vez.

E você, quando viaja, costuma pesquisar de onde vem o nome dos lugares antes de chegar, ou também descobre a história depois, já em casa, olhando as fotos?

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