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Revolta Praieira: quando Pernambuco desafiou o Império em 1848

·8 min de leitura·por Helio Pere
Revolta Praieira: quando Pernambuco desafiou o Império em 1848

Julho de 1850. Dom Pedro II, o homem mais poderoso do Brasil, senta pra escrever uma carta sobre um único preso. E não é carta protocolar. O imperador descreve, de próprio punho, um plano de fuga que ele desconfiava estar em andamento: de noite, "a um sinal, que será a retirada da luz do quarto de Pedro Ivo, se há de lançar uma corda da muralha da fortaleza para um bote". Um imperador preocupado com uma corda e um bote. Né possível.

A carta existe, foi enviada ao ministro Paulino José Soares de Souza e está citada no trabalho da historiadora Maria Luiza Ferreira de Oliveira, publicado na Revista de História da USP. O preso que tirava o sono da Coroa era o capitão Pedro Ivo Velloso da Silveira. E a história que colocou ele naquela fortaleza começou dois anos antes, numa rua do Recife com nome de praia.

Antes de você seguir

Este post conta a história de um jornal numa rua do Recife, de um manifesto que pedia coisas que o Brasil só foi ter mais de um século depois, e de um capitão que fugiu de uma fortaleza imperial descendo por uma corda. Tem citação de documento de época, tem apelido de rato e tem uma promessa de anistia que não valeu o papel em que foi escrita.

O Pernambuco que sobrou do açúcar

Na metade do século XIX, Pernambuco ainda era uma das províncias mais importantes do Império, mas vivia a decadência comprida do açúcar e do algodão. A terra boa estava concentrada na mão de pouquíssimas famílias, com os Cavalcanti e os Rego Barros no topo da pirâmide. E aqui vai o detalhe que explica quase tudo: havia Cavalcanti chefiando os conservadores e havia Cavalcanti liderando os liberais na província. Ganhasse quem ganhasse a eleição, a família seguia no comando. O sociólogo Gilberto Freyre escreveu que "foi preciso a Revolta Praieira para demolir" esse poder.

Quem botava o dedo nessa ferida era Antônio Pedro de Figueiredo, redator da revista O Progresso, que circulou no Recife entre 1846 e 1848 denunciando a concentração de terras e a miséria urbana. A revista durou pouco. As ideias dela, não.

Uma rua, um jornal e um apelido de rato

Os liberais radicais de Pernambuco tinham um jornal, o Diário Novo, com tipografia instalada na Rua da Praia, no Recife. Foi daí que os adversários tiraram o apelido de "praieiros", no sentido de deboche mesmo. Aí que tá: o apelido pejorativo pegou tão bem que virou o nome oficial da revolta nos livros de história.

Só que os praieiros devolveram na mesma moeda. Os conservadores, acusados de desviar recursos de obras públicas, ganharam o apelido de "guabirus". Todo nordestino sabe o que é um guabiru: rato grande, de esgoto, daqueles que roubam comida na calada da noite.. Uma disputa política em que um lado se chama praia e o outro se chama rato já mostra o nível da temperatura em Recife naqueles anos.

1848, o ano em que tudo ferveu

Em 1848, a Europa explodiu em revoluções, na chamada Primavera dos Povos, e as notícias chegavam ao Recife pelos jornais. No mesmo ano, o jogo político virou na Corte: os conservadores retomaram o poder no Rio de Janeiro e derrubaram o presidente da província de Pernambuco, Chichorro da Gama, alinhado aos praieiros. Funcionários liberais começaram a ser demitidos em bloco. Pra quem já se sentia roubado pelos guabirus, aquilo foi o empurrão que faltava. Em 7 de novembro de 1848, começou o levante armado.

O manifesto que pedia o século seguinte

Em 1º de janeiro de 1849, os revoltosos publicaram seu programa, o Manifesto ao Mundo, atribuído ao jornalista Antônio Borges da Fonseca. O documento abre com um aviso sem rodeio: "Protestamos só largar as armas, quando virmos instalada uma Assembleia Constituinte". E lista as exigências, entre elas "o voto livre e universal do Povo Brasileiro", a plena liberdade de imprensa, o trabalho como garantia de vida do cidadão, "o comércio a retalho só para os cidadãos brasileiros", o federalismo e a extinção do Poder Moderador, aquele poder que deixava o imperador acima de todos os outros.

Rapaz, olha a ousadia disso em 1849. Voto universal, num país em que só votava quem tinha renda. Parte dessas bandeiras o Brasil só realizou mais de um século depois. São dez pontos e nenhuma linha sobre a escravidão. Nenhuma. Um manifesto que fala em voto universal do povo brasileiro e finge que não existe gente escravizada trabalhando nos engenhos dos próprios líderes do movimento. A Praieira foi ousada pra frente e cega pra dentro. E a exigência de reservar o comércio varejista aos brasileiros mirava os portugueses que dominavam as lojas do Recife, o que mostra que havia também um ressentimento antigo ali, não só ideal elevado.

Fevereiro de 1849: a aposta que deu errado

Em fevereiro de 1849, os rebeldes atacaram o Recife com cerca de 1.500 homens em duas colunas, a primeira sob o comando de Pedro Ivo. Esperavam que a população da cidade aderisse em massa. Não aderiu. As tropas do governo, sob o presidente Manuel Vieira Tosta, venceram o combate na região da Soledade e de Afogados. As contagens mais repetidas pela historiografia falam em cerca de 200 rebeldes mortos e uns 300 presos, com a ressalva de sempre: número de batalha do século XIX carrega incerteza. Entre os mortos estava o deputado Joaquim Nunes Machado, a principal liderança política do movimento. Borges da Fonseca se entregou em março, aceitando a anistia oferecida pelo governo.

Pedro Ivo e a guerra das matas

Pedro Ivo não se entregou. E a trajetória dele merece atenção, porque é cheia de curva. Nascido em Olinda em 1811, filho de coronel, ele foi militar do Império e chegou a combater a Cabanagem no Pará, ou seja, começou a vida reprimindo revolta. Era figura popular no Recife: em 1844, foi um dos eleitores mais votados da freguesia da Boa Vista, com 1.429 votos, segundo o levantamento da historiadora Maria Luiza Ferreira de Oliveira. Depois da derrota no Recife, levou a luta pras matas de Água Preta, na zona da mata sul, numa guerrilha que ficou conhecida como guerra das matas.

O governo pôs a cabeça dele a prêmio. Uma biografia oitocentista registra os valores: oito contos de réis por Pedro Ivo vivo, quatro contos se morto. Pense num detalhe revelador: vivo ele valia o dobro. O Império não queria um mártir, queria um troféu.

Ele acabou se entregando confiando numa promessa de anistia, que na prática veio cheia de condição. Os registros divergem sobre a cláusula exata, se era desterro de anos fora do Império ou confinamento no Pará, mas convergem no essencial da cena: Pedro Ivo recusou. Preferiu seguir preso na Fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, a assinar a própria humilhação. Foi nesse período que Dom Pedro II escreveu aquela carta do início do post, com medo da corda e do bote. O imperador tinha razão no medo e errou só na data: em 20 de abril de 1851, com ajuda de amigos, e há fonte que fala em irmãos maçons, Pedro Ivo fugiu da fortaleza.

Ficou escondido um tempo no vale do Paraíba e embarcou rumo à Europa num navio italiano chamado Vesúvio. Morreu durante a viagem, debilitado pelos anos de cárcere, e o corpo foi sepultado no mar. As fontes divergem até no dia: 1º ou 3 de março de 1852. O poeta Álvares de Azevedo transformou ele em verso no poema "Pedro Ivo". O Império o queria vivo por oito contos. O mar levou de graça.

O que sobrou

Os presos da Praieira receberam anistia em 1851. A revolta entrou pros livros como o último grande levante armado do período imperial. Depois dela, o Segundo Reinado viveu décadas sem rebelião interna desse porte.

Um nordestino olhando pra outro

Eu nasci no Ceará, e quanto mais leio sobre a história do Nordeste, mais percebo um padrão: Pernambuco se levantou em 1710, 1817, 1824 e 1848, e quase nada disso ganha o espaço que merece na escola. A Praieira costuma aparecer numa linha de resumo, quando aparece. Um movimento que pediu voto universal e fim do Poder Moderador em 1849 virou nota de rodapé, enquanto a gente decora data de chegada de família real. A conta não fecha.

Pra quem quiser cavar mais fundo
  • O artigo "A prisão de Pedro Ivo e o debate político após a Praieira", de Maria Luiza Ferreira de Oliveira, na Revista de História da USP, traz a carta de Dom Pedro II na íntegra e está disponível gratuitamente no portal SciELO.
  • A Biblioteca Nacional Digital tem artigo sobre a cobertura da Praieira na imprensa da época, com páginas de jornais de 1848 e 1849 digitalizadas.
  • O poema "Pedro Ivo", de Álvares de Azevedo, está em domínio público e se encontra fácil na internet. Vale ler depois de conhecer a história real.
  • Em Recife, a antiga Rua da Praia fica na área central da cidade, no bairro de Santo Antônio.

Termino este texto pensando na luz do quarto de Pedro Ivo se apagando como sinal combinado. Um homem desceu por uma corda a muralha de uma fortaleza imperial porque se recusou a aceitar perdão com humilhação embutida. Hoje ele é nome de rua espalhado pelo Brasil, e a maioria de quem passa por essas placas não faz ideia.

E você, chegou a estudar a Revolta Praieira na escola ou ela foi pulada direto, como aconteceu com tanta gente? Me conta nos comentários se o nome Pedro Ivo diz alguma coisa aí na sua cidade.

Leia mais

Ver outros relatos e histórias do Nordeste aqui no blog: a história dos campos de concentração no Ceará e outros posts sobre história (links de busca interna do blog).

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