O que fazer em São Cristóvão, a quarta cidade mais antiga do Brasil

Tem cidade no Brasil que trocou a própria praia por um gerador elétrico. Aconteceu nos anos 1950, em Sergipe: o prefeito de São Cristóvão cedeu a faixa de litoral pra Aracaju em troca de um gerador pra cidade, segundo registro do portal Destaque Notícias. Décadas depois, essa troca virou uma briga de R$ 220 milhões entre as duas cidades, que eu já contei aqui no blog. Você pode ver esse e outros relatos sobre São Cristóvão na busca do blog.
Agora a parte que me incomoda. Em março de 2023 eu passei uma semana em Aracaju, a 25 quilômetros dessa cidade, e não fui. A quarta cidade mais antiga do Brasil ficou ali do lado, parada há mais de quatro séculos, e eu dividindo meus dias entre lagoa e orla. Este post é meu acerto de contas com ela. E também um recado: se você vai a Aracaju, não repita meu roteiro furado.
A cidade que Aracaju aposentou
Até o fim deste post você vai entender por que a Unesco escolheu uma praça dessa cidadezinha entre candidatas do mundo inteiro, como uma capital inteira foi demitida por causa de um porto, e o que uma cidade faz quando muda de endereço duas vezes antes de dar certo. Eu pesquisei o que deixei de ver. Doeu. Vem comigo que a história é boa.
A capital que Sergipe trocou por um porto
São Cristóvão foi fundada em 1590 por Cristóvão de Barros e é considerada a quarta cidade mais antiga do Brasil, segundo o IPHAN. E olha que ela nem começou onde está: por falta de segurança, a povoação mudou de lugar duas vezes até se fixar, em 1607, às margens do rio Paramopama. Cidade que muda de endereço duas vezes antes de dar certo é quase história de sertanejo procurando emprego. Eu entendo ela.
Depois veio o capítulo violento. Durante a invasão holandesa, a cidade foi assaltada e incendiada, ficando praticamente destruída, e a reconstrução levou décadas, conforme o mesmo registro do IPHAN. Em 1820, Dom João VI emancipou Sergipe da Bahia e São Cristóvão virou capital da nova província, de acordo com o Destaque Notícias.

Só que o posto durou pouco. Os senhores de engenho queriam uma capital com porto grande pra escoar o açúcar, e em 17 de março de 1855 o presidente da província, Inácio Joaquim Barbosa, transferiu tudo pra Aracaju, uma cidade criada praticamente pra isso. São Cristóvão entrou em despovoamento e crise. Rapaz, é duro: a cidade construiu Sergipe por 265 anos e foi dispensada por causa de um cais.
A praça que Portugal e Espanha desenharam juntos
Aí que tá o detalhe que quase ninguém conta. A Praça São Francisco, no centro histórico, foi reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco em 3 de agosto de 2010, tornando-se o 18º sítio brasileiro na lista, segundo o IPHAN. O motivo do título não é religioso, é urbanístico: o conjunto de prédios públicos e privados ao redor da praça é testemunho do período entre 1580 e 1640 em que as coroas de Portugal e Espanha estiveram unidas. O traçado seguiu as medidas exigidas pela Lei IX das Ordenações Filipinas e mistura o conceito espanhol de Praça Maior com o padrão português de cidade colonial.
Em bom português: é um pedaço de urbanismo espanhol dentro de uma cidade portuguesa no meio do Nordeste. Não existe outro conjunto igual reconhecido no país. No ano da candidatura, ela era a única representante brasileira entre 39 concorrentes de vários países, conforme a Prefeitura de São Cristóvão. E eu, que gosto de história, passei a semana inteira a meia hora disso.
O que mais me espera lá
A cidade cresceu em dois planos, no modelo urbano português: a cidade alta, onde ficava a sede do poder, e a cidade baixa, com o porto e o comércio, segundo o IPHAN. É andando por esse casario que se lê a história de Sergipe a céu aberto. E em 2025 o Governo do Estado reinaugurou o Museu Histórico de Sergipe, no centro histórico, conforme a prefeitura. Museu de história estadual novinho em cidade de 400 anos: pra mim, que gosto de fuçar passado, já paga o passeio.
E tem a parte que come. A queijada de São Cristóvão é tradição reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe, segundo o Destaque Notícias. Doce histórico vendido do lado de uma praça da Unesco. Minha digníssima ia querer provar antes mesmo de descer do carro, e dessa vez eu ia apoiar a pressa. A cidade ainda recebe há mais de 50 anos o FASC, o Festival de Artes de São Cristóvão, um dos eventos culturais mais tradicionais do estado.
Por que eu não fui, afinal
A resposta honesta: eu nem pesquisei. Montei o roteiro de Aracaju olhando pra água, lagoa, praia, orla, e a cidade histórica ficou invisível no mapa. Ninguém me falou dela, eu não perguntei, e a semana acabou. Não me arrependo de nenhuma lagoa. Mas admito que trocar quatro séculos de história por mais uma tarde de sol foi decisão de turista com pressa, e turista com pressa paga caro em outra moeda: a da volta obrigatória.
O consolo é que meio dia resolve o básico. As atrações se concentram na cidade alta, num raio pequeno, e dá pra fazer bate-volta saindo de Aracaju, segundo o levantamento do Terra Brasil Notícias. Ou seja: cabia na minha semana. Cabia até num dia de chuva daqueles que estragam passeio de praia.
Se você for conhecer São Cristóvão, olha isso aqui
- Fica a uns 25 km de Aracaju, coisa de meia hora de carro. Dá pra ir e voltar no mesmo dia tranquilo.
- Vá de manhã, mas sem pressa exagerada: relatos de visitantes contam que as atrações do centro histórico costumam abrir por volta das 10h.
- Comece pela Praça São Francisco e reserve tempo pra andar sem pressa pelo casario da cidade alta.
- Sem carro, há agências em Aracaju com passeios saindo da Orla de Atalaia, e ônibus partindo da rodoviária.
- Prove a queijada. É a tradição doce da cidade e patrimônio imaterial de Sergipe.
- Se puder, vá na época do FASC, o Festival de Artes de São Cristóvão. Confirme as datas do ano antes de fechar a viagem.
São Cristóvão entrou na lista da próxima ida a Sergipe, com hora reservada e sem desculpa. A praça, o casario, o museu de história e a queijada ficam me devendo uma visita. Ou eu fico devendo a eles. Fica anotado.
E você: já pisou em São Cristóvão? A queijada de lá é boa mesmo ou é só fama de cidade histórica? Me conta nos comentários, porque agora eu preciso saber o que perdi.
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