Brasil proibido de fabricar: a lei que travou o país por 23 anos

Teve um tempo em que montar um tear no Brasil dava multa. Proibição por escrito, com pena de pagar três vezes o valor de tudo que você tivesse fabricado, mais a perda do equipamento. Quem assinou a ordem foi a rainha D. Maria I, em 5 de janeiro de 1785, e ela valeu por vinte e três anos.
Fui parar nisso lendo o capítulo O Novo Brasil, do livro 1808, com aquela luminária de presilha presa na capa. A página 293 diz que o país deixado por D. João ao filho continuava anestesiado por três séculos de exploração colonial, que teriam inibido a livre iniciativa e o espírito empreendedor. Fui conferir o tamanho dessa inibição. Ela tinha data, assinatura e multa.
O documento que quase ninguém leu
Esse alvará está digitalizado, é público e é de graça. Poucos parágrafos, linguagem antiga, e um efeito que durou gerações. Depois dele vem uma revogação que parece boa notícia e um tratado assinado dois anos depois que estraga tudo de novo. E, no meio disso, achei duas frases escritas por gente importante da época que me deixaram sem resposta pronta. Elas estão no fim do texto.
O país que sobrou em 1822
O diagnóstico do livro é duro e curto. Pobre, analfabeto e dependente de mão de obra escrava. Esse era o Brasil que D. João VI entregou ao filho quando voltou pra Portugal. O autor deixa claro que a causa dessa situação foi a própria colonização, e não algum defeito da terra ou da gente daqui. Isso muda bastante o peso da frase.
Tem um detalhe saboroso na mesma página. O historiador José Honório Rodrigues é citado pra dizer que o resultado das medidas tomadas pelas Cortes portuguesas saiu ao contrário do que Lisboa esperava: em vez de enfraquecer, fortificou o Brasil, a consciência daqui, o sentimento nacional e a ideia de que o território seria indivisível. Quiseram apertar o parafuso e acabaram soldando a peça.
Eu vendo mercadoria desde a adolescência, então essa parte da história me interessa por um motivo bem prático. Quando alguém diz que faltava iniciativa num lugar, a primeira pergunta que eu faço é se deixavam tentar. A segunda é quem ganhava dinheiro com a proibição.
Fabricar pano virou crime em 1785
O alvará de 5 de janeiro de 1785 mandou extinguir e abolir todas as fábricas, manufaturas e teares de algodão, linho e lã existentes em qualquer parte dos domínios do Brasil. Ficou de fora só o tecido grosseiro, aquele usado pra ensacar mercadoria e pra vestir as pessoas escravizadas. Quem descumprisse perdia o tear e a fazenda que estivesse produzindo, além da multa em tresdobro.
A justificativa oficial está no próprio texto e é de uma sinceridade constrangedora. Se os colonos fossem fabricar tecido, deixariam de plantar e de tirar ouro e diamante. Faltariam braços pro que interessava. A ordem não foi escrita pra atrapalhar por maldade, foi escrita pra garantir que a mão de obra continuasse onde dava mais lucro pra Coroa. O resultado prático deu no mesmo. O Arquivo Nacional tem uma página sobre esse alvará com trechos do original.
Rapaz, imagina o efeito disso numa cabeça de vinte anos naquela época. Você tem a matéria-prima na porta, tem gente disposta a trabalhar, e a lei diz que montar oficina é infração.
1808 abriu o que 1785 tinha fechado
A revogação veio com D. João já morando no Rio de Janeiro, pelo alvará de 1º de abril de 1808. Além de liberar, o governo passou a incentivar, com isenção de imposto sobre matéria-prima importada. O registro está no portal da Câmara dos Deputados, com a observação de que derroga o alvará de 1785.
Aí que tá o detalhe que quase nunca aparece junto. Em 1810 foram assinados os tratados com a Inglaterra, e o artigo das tarifas fixou 15 por cento sobre a mercadoria britânica, 16 por cento sobre a portuguesa e 24 por cento sobre a de outras nações. Produto inglês entrando mais barato que o da própria metrópole. O Arquivo Nacional registra que essa diferença de um ponto foi corrigida cerca de um ano depois, mas a vantagem inglesa continuou de pé.
Então a conta ficou assim: a fábrica brasileira nasceu em 1808, com vinte e três anos de atraso, e dois anos depois foi disputar mercado com tecido inglês mais barato e mais bem acabado. Liberdade concedida com o freio de mão puxado.
O medo não era de Portugal
Aqui vêm as duas frases que eu prometi. Em 1813, nove anos antes da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva escreveu ao embaixador português na Inglaterra dizendo que seria muito difícil amalgamar tanto metal heterogêneo num corpo sólido e político. Ele está falando de gente. Brancos, negros, mestiços, indígenas, senhores e escravizados, tratados como liga de metal a ser fundida.
A segunda é pior. Em 1823, o pensador Francisco de Sierra y Mariscal escreveu que a raça branca acabaria em mãos de outras castas e que a Província da Bahia desapareceria para o mundo civilizado. Ele analisava o desdobramento da Independência no Nordeste. O livro cita essas frases como prova do que se pensava na época, e não como opinião do autor. Faço questão de registrar isso.
Juntando as peças, o desenho fica claro. O medo dos chamados pais da Independência ia muito além do território rachar em pedaços. O que apertava mesmo era a possibilidade de perder o controle sobre a maioria da população. Por isso tanta gente influente defendia monarquia e rejeitava república: numa sociedade construída sobre escravidão, abrir o jogo político significava abrir tudo. A unidade que a gente aprende a celebrar tinha uma função de contenção embutida.
Até onde eu vou nessa crítica
Agora é opinião minha, e sinalizo. Acho errado dizer que os portugueses criaram o problema de propósito pra depois vender a solução. Isso supõe plano, e plano precisa de documento. O que os papéis mostram é outra coisa: um arranjo montado pra extrair o máximo, cujo efeito colateral foi um país travado. Efeito e intenção são coisas diferentes, e misturar as duas entrega a discussão de bandeja pra quem quiser derrubar o argumento.
Tem outro ponto que me incomoda quando o vilão é só o de fora. O tráfico de pessoas escravizadas continuou até 1850, e a escravidão até 1888, muito depois de a corte ter ido embora, sustentada por interesse de gente nascida aqui. Se a culpa fosse toda portuguesa, esses sessenta e seis anos ficariam sem explicação.
Se você quiser ler os documentos originais, olha isso aqui
- O alvará de 1º de abril de 1808 está no portal da Câmara, com a ficha completa da norma.
- O portal História Luso-Brasileira, do Arquivo Nacional, traz o alvará de 1785 e os tratados de 1810 com as tarifas.
- Cuidado com a data do alvará de proibição. Já vi site sério trocando 5 de janeiro por 1º de abril de 1785. Conferir na fonte original resolve em dois minutos.
- O texto do Sierra y Mariscal foi publicado nos Anais da Biblioteca Nacional, e as referências acadêmicas divergem sobre o volume, aparecendo como 43/44 e como 53/54. Se for citar, vale conferir a edição.
- O livro base é 1808, de Laurentino Gomes, Editora Planeta, 2007. O trecho comentado aqui está na página 293.
Fechei o livro com uma sensação estranha. A frase mais forte da noite não foi a do historiador, foi a do documento de 1785 mandando extinguir e abolir os teares. Papel oficial, letra antiga, ordem seca. Depois disso, dizer que faltava iniciativa por aqui fica difícil de sustentar.
E você, se em 1785 alguém aparecesse na sua porta com uma multa por causa de uma máquina de costura, o que você teria feito?
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