Independência de 1822: o país rachado que D. Pedro herdou

Ontem à noite, no quarto, eu parei numa página do livro do Laurentino Gomes e reli duas vezes pra ter certeza. Não era batalha nem discurso. Era uma dor de barriga.
D. Pedro passou boa parte do 7 de setembro de 1822 descendo do animal de tempo em tempo pra se resolver no mato da beira da estrada. Quem contou isso foi gente que estava lá. Na escola, ninguém me falou.
O que ficou de fora da aula
Aqui embaixo eu conto o que descobri sobre o dia mais famoso da nossa história e, principalmente, sobre o país que existia por trás dele. Adianto uma coisa: o trecho que mais me incomodou não aconteceu às margens do Ipiranga, e nem em 1822. Vá até o fim que você entende o porquê.
O grito duvidoso
Comecemos pelo quadro. Aquela cena que todo mundo conhece, com o príncipe de uniforme, espada erguida e cavalo empinado, é a tela de Pedro Américo, pintada em 1888. Sessenta e seis anos depois do fato. O próprio pintor sabia que estava monumentalizando a coisa, deixando o episódio maior do que foi.
A comitiva viajava em lombo de mula, não em cavalos de parada. E o príncipe estava passando mal. Um dos homens que estavam ali, o coronel Manuel Marcondes de Oliveira Melo, subcomandante da guarda de honra e futuro barão de Pindamonhangaba, registrou nas memórias dele que D. Pedro precisava apear a intervalos regulares para "prover-se" no matagal da estrada. Educadamente falando.
E o grito? Aí que tá. Os historiadores concordam que naquela tarde, depois de ler as cartas trazidas do Rio, ele decidiu romper de vez com Portugal. O que se discute é como ele anunciou isso. Os relatos que trazem a frase "independência ou morte" foram escritos anos depois, e outros documentos da época descrevem palavras diferentes e uma cena bem menos teatral. Ou seja: a frase que virou nome de rua, de escola e de hino pode nunca ter saído exatamente assim da boca dele.
Um país que mal existia
Agora o retrato do que ele proclamou independente. O Brasil daquele setembro tinha uns quatro milhões e meio de habitantes, mais ou menos, conforme a estimativa que se adote. O Portal da Câmara dos Deputados registra a divisão da época em cerca de 800 mil indígenas, 1 milhão de brancos, 1,2 milhão de negros escravizados e 1,5 milhão de pardos, caboclos e mestiços. Um país onde a escravidão sustentava a economia inteira e onde a maior parte da gente não tinha voz nenhuma na história que estava sendo escrita.
Some a isso as distâncias. Uma notícia saída do Rio levava semanas pra chegar em São Luís e meses pra alcançar Belém. Não havia exército nacional, não havia marinha, e o cofre estava raspado desde a volta de D. João VI a Portugal, no ano anterior. Rapaz, tinha país inteiro naquele mapa que nunca tinha ouvido falar em D. Pedro.
Metade não aderiu
Essa é a parte que a data comemorativa esconde melhor. Em 7 de setembro de 1822 o Brasil não virou independente. Começou uma guerra.
Na Bahia, tropas portuguesas seguravam Salvador e só se retiraram em 2 de julho de 1823, depois de meses de combate e de centenas de mortos dos dois lados. No Piauí, a resistência culminou na batalha do Jenipapo, em 13 de março de 1823, com tropas piauienses e cearenses enfrentando os portugueses. O confronto foi uma derrota militar brasileira, e mesmo assim desgastou tanto o inimigo que ele acabou capitulando meses depois, em Caxias. Quem quiser ir a fundo, tem um artigo bem documentado sobre isso na revista Ciência e Cultura.
São Luís caiu em 28 de julho de 1823, e por blefe: a esquadra comandada pelo escocês Thomas Cochrane apareceu na baía fingindo ser reforço português, e as autoridades locais se renderam sem tiro. O Grão-Pará foi o último a aderir, em 15 de agosto de 1823. A Cisplatina, ao sul, seguiria dando trabalho por anos.
Vale entender por quê. Maranhão, Piauí, Pará e Pernambuco negociavam direto com Lisboa havia séculos. Pra elite dessas províncias, obedecer ao Rio de Janeiro não era libertação nenhuma. Era trocar de dono.
A conta do Norte
Um ano depois, D. Pedro mostrou o tipo de país que pretendia governar. Em 12 de novembro de 1823, cercou com tropa e artilharia o prédio da Assembleia Constituinte e a dissolveu por decreto. Alguns constituintes saíram dali presos e depois desterrados. Em 25 de março de 1824, ele outorgou uma Constituição escrita por um conselho de confiança dele, com um Poder Moderador que colocava o imperador acima de todos os outros poderes.
O Norte não engoliu. Em 2 de julho de 1824, no Recife, foi proclamada a Confederação do Equador, movimento republicano e separatista que pretendia reunir Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. O estudo do Senado Federal sobre os 200 anos da Confederação resume bem a disputa: de um lado o projeto centralizador do Rio, do outro províncias que queriam autonomia dentro do novo país.
A repressão foi brutal e teve nome e sobrenome. Frei Caneca, o carmelita Joaquim do Amor Divino Rabelo, foi condenado à forca, e três carrascos se recusaram a executá-lo. Acabou fuzilado a tiros de arcabuz em 13 de janeiro de 1825, diante dos muros do forte das Cinco Pontas, no Recife. Pernambuco ainda foi punido com a perda da Comarca do Rio São Francisco, por decreto de 7 de julho de 1824. O único caso no Brasil de província que perdeu território como castigo por rebeldia. Tem material sério sobre o episódio no projeto Impressões Rebeldes, da Universidade Federal Fluminense.
O Ceará entrou
Eu nasci no Ceará, e essa parte me pegou de jeito. Em janeiro de 1824, as câmaras de Quixeramobim e do Icó chegaram a proclamar a república. O governador da província foi deposto e substituído por Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, filho de Bárbara Pereira de Alencar, aquela que havia participado da Revolução Pernambucana de 1817. Ele governou o Ceará como presidente confederado, com o padre Mororó como secretário.
Tristão Gonçalves foi morto em 31 de outubro de 1824, na região de Santa Rosa, hoje coberta pelas águas do açude Castanhão. O padre Mororó, cujo nome de batismo era Gonçalo Inácio de Loiola Albuquerque e Melo, foi fuzilado em praça pública em Fortaleza, em 30 de abril de 1825. Séculos depois virou nome de rua na mesma cidade que o matou.
Cresci ouvindo falar em Quixeramobim, em Icó, no Crato. Nunca ouvi nenhum professor dizer que aquelas cidades declararam república dois anos depois da independência.
Se você quiser conferir esses documentos por conta própria
- O livro que puxou tudo isso: 1822, de Laurentino Gomes, Editora Nova Fronteira, 2010, com edição revista pela Globo Livros em 2015
- O Arquivo Nacional mantém verbetes gratuitos sobre os decretos de 1821 e o Dia do Fico, com as datas todas rastreáveis
- O Senado Federal publica estudos em PDF de acesso livre, inclusive o dos 200 anos da Confederação do Equador
- Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional dá pra ler jornais de 1822 e 1824 do jeito que saíram, sem intermediário
E se você é do tipo que gosta de pisar no chão onde a coisa aconteceu, dá pra montar um roteiro com o que sobrou dessa história.
Lugares onde essa história ainda está de pé
- Museu do Ipiranga, em São Paulo, onde está a tela de Pedro Américo. Confira horário e ingresso no site oficial antes de ir
- Campo Maior, no Piauí, é a cidade onde foi travada a batalha do Jenipapo
- No Recife, o forte das Cinco Pontas fica no centro e o muro do fuzilamento de Frei Caneca continua ali ao lado
- Em Fortaleza, a rua Padre Mororó leva o nome do homem executado em praça pública em 1825
- Em Salvador, 2 de julho é a data em que a Bahia comemora a própria independência, com desfile pelas ruas do centro
O que sobrou disso
O Brasil ficou inteiro no fim das contas, e isso não foi obra de um grito. Foi guerra, dinheiro emprestado, mercenário estrangeiro contratado e fuzilamento em praça pública. A unidade territorial que a gente aprende a comemorar todo mês de setembro custou caro, e boa parte da conta foi paga no Norte e no Nordeste.
Li tudo isso ontem, no quarto, com a casa em silêncio. Fechei o livro sabendo de umas coisas que a escola não me contou.
E você, chegou a estudar que o Ceará proclamou república em 1824, ou também parou no quadro do cavalo branco?
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