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Viajar perto de casa também muda a forma de ver o mundo

 

Tem gente que acha que viajar de verdade é só quando dá pra pegar avião e ir bem longe. Eu penso diferente faz tempo. Aqui no Paraná, rodando de carro, eu conheci lugares que muita gente de fora paga caro pra visitar uma vez na vida, e que estavam o tempo todo logo ali do meu lado.

Eu moro em Cascavel, no oeste do Paraná, faz mais de uma década e meia. Vim do Ceará novo ainda, com dezessete anos, para Minas Gerais e depois aqui pro Paraná e fui me acostumando com esse outro jeito de o mundo ser por aqui. Frio que de manhã queima o rosto, estrada boa, cidade pequena a cada meia hora. E foi rodando essas estradas, sem grande plano nenhum, que comecei a perceber uma coisa: eu vivia sonhando com lugar distante e não conhecia direito o que tinha a oitenta quilômetros de casa.

Esse texto é mais um convite do que um roteiro. Quero que você saia mais de casa, mesmo que seja pertinho. Não uma vez por ano, naquela viagem grande que a gente planeja seis meses antes. Mas de vez em quando, num sábado qualquer, pra fugir da rotina e ver o que tem ao redor de onde você mora. Não importa a cidade. Sempre tem algo que você ainda não viu.

O primeiro vídeo foi ali do lado de casa

Meu pai faleceu em 2022, depois de uma luta longa contra um mieloma. Foi um ano pesado pra mim. E foi mais ou menos nessa época que eu peguei o celular, um Samsung S20 com um estabilizador da DJI que eu tinha comprado, e fui pro Lago de Santa Tereza do Oeste gravar meu primeiro vídeo. Não tinha drone ainda, não tinha quase nada. Tinha um lago calmo, um frio de rachar e uma vontade de fazer alguma coisa com as mãos.

Santa Tereza do Oeste fica colado em Cascavel. Qualquer pessoa da região passa por lá e nem olha direito. Eu fiquei a manhã inteira ali, gravando a água, o reflexo das árvores, tentando entender como aquilo funcionava. Não saiu nada profissional. Mas começou ali, sem eu planejar muito, e isso pra mim já valeu o dia.

Levei minha mãe pra ver as Cataratas

Em agosto de 2024 eu fiz uma das viagens que mais guardo no peito. Levei minha mãe e a Marianny, sobrinha da minha digníssima, pra conhecer as Cataratas do Iguaçu. Pra mim já era a quinta vez. Pra elas, a primeira. E ver a cara de quem nunca viu aquela água caindo muda tudo. A gente saiu de Cascavel quase dez da manhã, pegou a BR duzentos e setenta e sete e em pouco menos de duas horas estava chegando em Foz.

Paramos pra almoçar num restaurante simples no caminho, o Seleto, trinta reais por pessoa, comida honesta. Dentro do parque a gente ficou umas três horas e meia, devagar, no ritmo da minha mãe. Tinha bastante fumaça no ar por causa das queimadas daquele período, o que atrapalhou um pouco as fotos. E, claro, na melhor parte da trilha o meu celular resolveu descarregar. Fiquei sem registrar justo o trecho que eu mais queria. Minha mãe parada na passarela, olhando aquilo tudo, com os olhos cheios. Não consegui gravar, e até hoje me dói um pouco não ter aquela imagem. Por outro lado, talvez fosse pra eu só viver aquilo, sem a tela no meio.

Uma cachoeira escondida dentro de uma caverna

Em novembro de 2022 eu e a Thaísa fomos até o Buraco do Padre, lá perto de Ponta Grossa. Se você nunca ouviu falar, é o seguinte: uma cachoeira de uns trinta metros que cai dentro de uma formação de pedra que parece o teto de uma caverna aberta. A água entra por cima e desce no meio da rocha. Coisa que parece de outro país, e está aqui no Paraná.

Estava lotado naquele dia. A gente teve que esperar pra conseguir tirar foto sem a cabeça de estranho na frente. O ingresso saiu por volta de quarenta e cinco reais por pessoa, com a trilha leve até lá. Vale cada centavo. Confesso que esperava menos gente, mas não dá pra reclamar de lugar bonito estar cheio. Sinal de que mais gente está saindo de casa também.

O mar está mais perto do que parece

Muita gente do interior acha que praia é programa caro e distante. Em 2021 eu fui até a Ilha do Mel, e em 2024 voltei pelo litoral conhecendo o centro histórico de Paranaguá, uma cidade fundada lá em 1648, com casario antigo e história em cada esquina. A Ilha do Mel é uma coisa à parte. Não entra carro. Você chega de barco, salto de Pontal ou de Paranaguá, e dali pra frente é tudo a pé, na areia.

Subi até o Farol das Conchas, andei até a Gruta das Encantadas e voltei no mesmo dia. Dá pra fazer bate e volta sem precisar dormir lá, se você organizar o horário do barco. Eu prefiro com calma, mas mesmo num dia só você sai de lá com a sensação de ter desligado da correria.

As cidades vizinhas também contam

Nem toda saída precisa ser um cartão postal famoso. Em março deste ano eu fui com a minha digníssima ver um show dos Paralamas em Toledo, cidade aqui do lado. A gente foi de carro, o show começou oito e meia, e a gente estava de volta em casa pouco depois das onze da noite. Gastamos uns trezentos e cinquenta reais nós dois, com tudo. Foi uma noite boa, simples, sem precisar de hotel nem de mala.

Tem a prainha de Santa Helena, na beira do lago de Itaipu, que pouca gente de fora conhece e é ótima pra passar o dia. Tem Maringá, com aqueles prédios imponentes e ruas largas, e Umuarama, que eu visitei nas voltas que dei pelo noroeste do estado. E tem Prudentópolis, terra das cachoeiras, onde já registrei o Salto São João e o Salto São Francisco, a maior queda d’água da região Sul. Cada uma dessas cidades cabe num fim de semana, ou às vezes num dia só.

O que eu queria mesmo te dizer

A vida foi me ensinando, na marra, que a gente adia demais. Espera o dinheiro sobrar, espera as férias chegarem, espera o filho crescer. E enquanto isso o sábado passa dentro de casa, com a televisão ligada. Eu já fiz muito isso. Hoje tento fazer diferente. Pego o carro, escolho uma cidade que eu nunca pisei, e vou.

Local é mais barato, é mais fácil, e cabe no orçamento de quase todo mundo. Você abastece o carro, leva um lanche de casa, e o passeio sai por uma fração do que custa uma viagem grande. Sei lá, no fundo é só decidir sair num sábado em vez de ficar enrolando no sofá. Eu mesmo perco metade dos meus fins de semana assim, então não estou aqui dando lição em ninguém.

Se você quer começar, faça simples: abra o mapa, escolha uma cidade a até cem quilômetros de onde você mora e procure o que ela tem de bonito, uma cachoeira, um centro histórico, um mirante. Saia cedo, leve água e um lanche pra economizar, avise alguém do roteiro e volte sem pressa. Não precisa de hotel nem de plano grande. Precisa só sair pela porta.

No fim das contas, as obras do Criador estão espalhadas em todo lugar, inclusive na estrada que você pega todo dia sem prestar atenção. Eu descobri isso rodando o Paraná com um celular na mão e o coração ainda meio apertado pela perda do meu pai. E foi isso que mudou minha forma de ver as coisas perto de casa.

E você, qual foi o último lugar perto da sua casa que você visitou pela primeira vez? Me conta. Tenho certeza de que tem um Paraná inteiro de coisas escondidas aí onde você mora também.

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