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Cafelândia: a geada de 1975 apagou o café que batizou a cidade

·7 min de leitura·por Helio Pere
Cafelândia: a geada de 1975 apagou o café que batizou a cidade

Saímos de Cascavel com o céu cinza fechado e chegamos em Cafelândia sob chuvisco. Cinquenta quilômetros, eu, minha esposa e a Marianny, e uma pergunta simples na cabeça: a cidade se chama Cafelândia por causa dos cafezais, mas cadê o café?

Não tem. E o motivo cabe numa única manhã de julho.

Um nome que ficou e uma lavoura que sumiu

Tem cidade no Paraná que carrega no nome uma atividade que não existe mais. Cafelândia é uma delas. O que aconteceu ali fez parte de um dos maiores baques da história econômica do Estado, mexeu com milhões de pessoas e mudou o que se planta no oeste até hoje. E a versão que todo mundo repete sobre esse dia está incompleta. Fica comigo que eu conto a parte que costuma ficar de fora.

A estrada é curta

De Cascavel até Cafelândia dá em torno de cinquenta quilômetros. É pertinho, e mesmo assim eu nunca tinha parado ali pra gravar com calma. Fomos de carro, sem pressa, com o limpador de para-brisa na velocidade mais preguiçosa que existe.

O nome veio depois de um caixão

Antes de virar Cafelândia, o lugar teve outros dois nomes. Segundo a tradição registrada pela prefeitura e reproduzida pelo Paraná Turismo, os primeiros moradores encontraram um caixão na beira do rio que hoje se chama Córrego Cafelândia, deixado ali por paraguaios que ocupavam a região. O povoado passou a ser chamado de Caixão. Depois virou Consolata, nome ligado às missões italianas que atuavam por ali.

Aí que tá: isso é tradição oral, não documento, e eu registro como tal. O que aparece descrito com mais firmeza é quem circulava pela região antes dos colonizadores, gente que vivia do extrativismo da erva-mate, além de paraguaios e argentinos que faziam comércio com os moradores.

Em 1951 os moradores decidiram trocar o nome mais uma vez. Escolheram Cafelândia por causa das grandes plantações de café que cobriam a região. O nome foi escolhido pela lavoura que sustentava o lugar. Vinte e quatro anos depois, essa lavoura ia deixar de existir.

A manhã de 18 de julho de 1975

Uma massa de ar polar sem precedentes atingiu o Paraná naquela data. O Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná descreve o evento como aniquilamento das lavouras de café, que eram a base da economia estadual na época.

Geada negra é diferente da geada branca que todo paranaense conhece. Ela junta frio extremo com ar seco. A seiva da planta congela rápido, o tecido vegetal morre por dentro, e a folha escurece. Por isso o nome. O Jornal Comunicação da UFPR explica bem esse mecanismo: a planta não murcha aos poucos, ela morre de dentro pra fora.

Os números são de assustar. Segundo a Secretaria da Agricultura do Paraná, o Estado tinha conquistado a liderança nacional no começo dos anos 1960, com cerca de 21,3 milhões de sacas, o equivalente a 64% de todo o café do Brasil. Em 1975, ainda foram colhidas 10,2 milhões de sacas, quase metade da produção nacional, porque a colheita terminou antes do dia 18. Na safra seguinte, com dados do IBGE citados pela UFPR, a produção paranaense despencou para 3,8 mil sacas. A participação do Estado no café brasileiro caiu para 0,1%.

Rapaz, eu li e reli esse número pra ter certeza de que não tinha me enganado na vírgula. De dez milhões de sacas para menos de quatro mil.

Aqui entra uma divergência que eu prefiro mostrar do que esconder. A Secretaria da Agricultura estima que pelo menos 60% dos cafezais foram destruídos, numa área de 1,8 milhão de hectares. A Revista Cafeicultura escreve que a geada dizimou todas as plantações de café do Estado. Os produtores relatavam que não havia o que salvar, porque as plantas já estavam mortas, e a solução foi arrancar tudo. A queda da safra seguinte dá razão a quem fala em destruição quase total, mesmo que a estimativa oficial seja mais contida.

O café já estava indo embora antes

Essa é a parte que quase nunca aparece no vídeo curto nem na conversa de boteco, e é a que mais me interessou na pesquisa.

O IDR-Paraná registra que a geada atingiu um Estado que já estava em transformação. O auge da produção cafeeira tinha sido em 1963, e desde então a cultura vinha em retração por causa de preços baixos, do aparecimento da ferrugem em 1973, de programas públicos de erradicação de lavouras improdutivas e da entrada da legislação trabalhista no campo.

Ou seja, o café do Paraná já estava recuando havia mais de dez anos quando a geada chegou. Ela não abriu o processo, ela fechou a porta de uma vez. Não sobrou nem tempo de decidir se valia a pena replantar.

O êxodo que ninguém filmou

O efeito humano foi maior que o agrícola. A Revista Cafeicultura fala em êxodo de cerca de 2,6 milhões de pessoas depois da geada. Muita gente do Sul que hoje vive em Rondônia e no Mato Grosso saiu daquele inverno. A lavoura de café empregava gente demais, e o que veio no lugar dela é mecanizado.

Uma reportagem publicada no aniversário de quarenta anos da geada aponta que a população do campo paranaense caiu 60% nas quatro décadas seguintes, de 4,5 milhões para 1,5 milhão de pessoas. As cidades receberam essa gente toda. Curitiba cresceu, o interior inchou, e famílias inteiras trocaram de estado.

O que veio no lugar

Foi aí que o oeste do Paraná ganhou a cara que tem hoje. Depois de 1975, o Estado fortaleceu a soja e outros grãos, apostou na horticultura como atividade comercial e modernizou as cadeias de proteína animal, principalmente avicultura e suinocultura, conforme descreve a Secretaria da Agricultura.

Olha só onde essa história encontra Cafelândia. A Copacol, fundada em 1963 como Cooperativa Agrícola Consolata, tinha nascido com dois objetivos práticos: levar energia elétrica para a região e ajudar os agricultores a receber, beneficiar e vender a produção. A linha do tempo da própria cooperativa mostra o caminho seguinte, com unidades de grãos e insumos, incubatório, fábrica de rações, unidade industrial de soja na própria Cafelândia e unidade de peixes em Nova Aurora. A cidade que se chamava Cafelândia virou terra de grãos e aves.

A cooperativa, aliás, é dezesseis anos mais velha que o município. A emancipação de Cafelândia só saiu em 28 de dezembro de 1979, e o aniversário ficou fixado em 25 de novembro. Detalhe: o site da prefeitura informa que a instalação oficial do município aconteceu em 1º de fevereiro de 1982, enquanto o Paraná Turismo, contando a mesma sequência e citando os mesmos nomes, registra 1983. Um ano de diferença numa informação que deveria ser simples.

Pastel dentro do carro

Na hora do lanche a gente foi no mercado da Copacol. Pastel e suco pros três, uns quarenta reais no total. Comemos dentro do carro mesmo, com o chuvisco batendo devagar no vidro. Não teve mesa, não teve praça, não teve cena bonita pra fechar a gravação.

O Mangabinha subiu com o céu fechado

Achei que o tempo ia estragar o dia e não estragou. O Mangabinha subiu, girou pela cidade e trouxe imagens boas mesmo com aquele céu carregado. Luz cinza às vezes ajuda, deixa a imagem uniforme, sem estouro de sol em cima dos telhados.

De cima dá pra ver exatamente o que a geada deixou pra trás: lavoura de grão até onde a vista alcança e as estruturas da cooperativa marcando a paisagem. O vídeo que saiu dessa ida está perto de 40 mil visualizações.

Se você for conhecer Cafelândia, olha isso aqui
  • Fica a cerca de cinquenta quilômetros de Cascavel, então dá pra ir e voltar tranquilo no mesmo dia
  • O centro é compacto, dá pra caminhar e observar as praças e o casario sem pegar o carro de novo
  • O mercado da Copacol resolve o lanche e mostra os produtos da cooperativa que sustenta a cidade
  • Quem gosta de história agrícola pode combinar a visita com Cascavel, Nova Aurora e Tupãssi, todas dentro da mesma área de influência da cooperativa
  • O aniversário do município é 25 de novembro, boa data pra pegar a cidade em clima de festa
  • Dia nublado não impede voo de drone, mas ventania impede; olhe a previsão antes de sair de casa

Voltamos pra Cascavel com o cartão de memória cheio e o cheiro de pastel dentro do carro. Uma cidade que mantém no nome uma lavoura que uma noite de frio apagou do mapa, e que hoje vive de outra coisa completamente diferente.

E na sua região, tem alguma cidade que carrega no nome uma atividade que já acabou faz tempo?

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