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Rodovia dos Cereais: o que ninguém conta sobre a BR-369

·8 min de leitura·por Helio Pere
Rodovia dos Cereais: o que ninguém conta sobre a BR-369

O despertador tocou às quatro da manhã e o carro saiu de Cascavel às cinco e meia, ainda no escuro. Não tem imagem do céu clareando, não tem gravação do sol subindo atrás das plantações. Naquela hora eu estava mais preocupado em pegar a BR-369 antes do movimento dos caminhões do que em fazer cena bonita.

Às oito e meia a gente já tinha parado num posto em Boa Esperança e tomado um chocolate dentro do carro mesmo. Foi ali que troquei o volante com minha digníssima e segui de passageiro, olhando a soja passar pela janela. O destino final era Porto Seguro, na Bahia, mas o primeiro pedaço dessa viagem toda coube a uma estrada só.

A estrada que eu achava que conhecia

Eu passo por essa rodovia desde que morei no Paraná e sempre achei que ela era uma estrada de Cascavel pro norte do estado. Descobri, pesquisando pra esse vídeo, que ela é muito maior do que isso, e que uma coisa que a gente pagou naquele dia hoje não existe mais do mesmo jeito. Vem comigo até o final que eu conto o número exato.

A tal Rodovia dos Cereais

A BR-369 tem um apelido antigo que quase ninguém usa mais: Rodovia dos Cereais. E o nome não foi escolhido por poesia. Ela nasceu com uma função bem prática, que era escoar a produção agrícola do interior do Paraná, ligando essa região aos centros industriais e ao estado de São Paulo.

Aqui vale um cuidado que eu mesmo quase deixei passar no vídeo. Muita gente fala que a rodovia foi inaugurada em 1963, inteirinha, de uma vez. Não foi bem assim. Segundo o histórico do DER do Paraná, o que foi entregue em 1963 foram dois trechos, o de Maringá a Ourinhos e o de Uraí a Cornélio Procópio. A estrada foi sendo montada aos pedaços, como quase tudo no Brasil daquela época.

A outra correção é sobre pra onde ia essa riqueza toda. A BR-369 é um corredor de escoamento, sim, mas quem virou a ligação clássica do norte do Paraná com o Porto de Paranaguá foi a Rodovia do Café, a BR-376. Uma coisa alimenta a outra, e é por isso que a 369, a 376 e a 277 formam aquele triângulo que segura a logística do estado inteiro.

E ela é bem mais comprida do que eu imaginava. Começa lá no entroncamento com a BR-494, no município de Oliveira, em Minas Gerais, atravessa o estado de São Paulo, entra no Paraná e só termina em Cascavel. Ou seja: eu saio de casa e já estou pisando numa estrada que nasce em Minas. Rapaz, isso mexeu comigo, porque era justamente pra Minas que eu estava indo.

Soja dos dois lados

Dezembro na região de Campo Mourão e Mamborê é aquilo que você vê nas imagens do vídeo em minha redes sociais: verde dos dois lados da pista, sem intervalo. Soja crescendo, milho em algumas glebas, silo aparecendo de vez em quando na beira da rodovia. É o tipo de paisagem que a gente que mora aqui já nem enxerga direito de tão acostumado.

Fiz várias gravações dessas plantações ainda de manhã cedo, com o carro andando. Não é uma paisagem de cartão postal, com serra e cachoeira. É a paisagem do trabalho. E tem uma beleza nisso que só cai a ficha quando você para pra pensar que aquele grão ali do lado vai terminar num navio.

Pista simples e paciência

Sobre dirigir nesse trecho, sendo honesto: o asfalto costuma estar bom, mas grande parte é pista simples, principalmente nos pedaços perto de Ubiratã e Mamborê. Isso significa caminhão à frente, ultrapassagem esperando espaço, e aquela dança de acelerar e recuar que cansa mais do que a quilometragem em si.

Naquele dia a estrada estava tranquila, sem congestionamento e sem susto. Ajudou muito ser sábado bem cedo. Se você pegar esse trecho numa segunda de manhã ou numa sexta à tarde, a conversa muda.

O pedágio que não estava lá

Anotei no meu diário de viagem, naquele 20 de dezembro, uma frase curta: passamos por dois pedágios, mas estão desativados. A gente atravessou o Paraná inteiro naquele dia sem pagar praça nenhuma nessa rodovia, e nem deu valor.

Pois é. Aquilo acabou. As praças da região tinham parado de cobrar em novembro de 2021, com o fim dos contratos antigos de concessão, e ficaram cerca de quatro anos e meio caladas. Em 28 de maio de 2026 a cobrança voltou, agora com a concessionária Via Campo, nas praças de Corbélia, Mamborê e Floresta, depois de autorização publicada pela ANTT. A tarifa pra carro de passeio ficou em R$ 18,80. Motocicleta segue isenta.

Olha só o tamanho da mudança: quem faz hoje o mesmo caminho que eu fiz sai de Cascavel e já encontra Corbélia cobrando. Opinião minha, e é opinião mesmo: R$ 18,80 numa praça de pista simples é um valor que pesa, ainda mais pra quem mora em Corbélia ou Ubiratã e usa a rodovia todo dia pra trabalhar. A promessa é que esse dinheiro vire obra. Vamos ver.

A duplicação prometida

E é aqui que entra a parte que interessa a quem viaja. O Lote 5 das concessões rodoviárias do Paraná, arrematado pelo Grupo Pátria em outubro de 2025, prevê duplicação em massa exatamente nesse trecho. Segundo a Agência Estadual de Notícias do Paraná, são 61 km entre Campo Mourão e Mamborê e mais 109,2 km entre Mamborê e Cascavel, terminando no Trevo Cataratas.

Somando, dá mais de 170 km de pista dupla no caminho que eu fiz naquela manhã. O contrato é de trinta anos e inclui viadutos, passarelas, vias marginais e ciclovias. O prefeito de Campo Mourão disse na ocasião do leilão que a região espera essa obra há quase três décadas, e que já houve frustração antes. Achei sincero da parte dele.

Boa Esperança

Do posto em Boa Esperança eu lembro pouca coisa e é justamente isso que me faz gostar da lembrança. Chocolate quente dentro do carro, troca de motorista, cinto, e de novo na estrada. Nenhuma foto. Nenhuma gravação.

Maringá passou direto

Chegamos em Maringá às nove e trinta e quatro da manhã e não paramos. A cidade ficou ali, do lado, com aquele traçado bonito de avenida larga, e a gente seguiu, porque o plano era ambicioso: dormir em Uberlândia no mesmo dia.

O almoço foi em Pirapozinho, meio-dia. Parada estratégica, como eu chamo. E não foi a primeira: em 2023, na viagem pra Montes Claros, a gente tinha almoçado exatamente ali. Tem lugares que a gente nem escolhe mais, o corpo escolhe. Saímos de novo às doze e trinta e oito.

Uberlândia veio só às nove da noite, com a gente moído. A primeira coisa que fiz foi rever alguns amigos, e peguei eles de surpresa, sem avisar que estava chegando. Depois fomos pra casa de um casal amigo, onde dormimos a primeira noite. Quinze horas e meia depois de sair de casa, o começo da série estava fechado.

Se você for pegar a BR-369 nesse trecho, olha isso aqui
  • Desde 28 de maio de 2026 há cobrança em Corbélia, Mamborê e Floresta, a R$ 18,80 por carro de passeio. Faça a conta antes de sair.
  • Quem usa tag na pista automática tem desconto básico de 5% na tarifa. Vale ativar antes da viagem.
  • Motocicleta é isenta nessas três praças.
  • Saindo de Cascavel de madrugada, o trecho até Campo Mourão rende bem. Depois das sete da manhã o fluxo de caminhão aumenta bastante.
  • Como boa parte é pista simples, calcule a média real de viagem em torno de 70 a 80 km/h, e não a velocidade da placa.
  • Se for gravar as plantações, dezembro é o melhor mês. A soja está alta e verde dos dois lados da pista.

Uma coisa que fica pra próxima é parar de verdade em Campo Mourão e conhecer a cidade com calma, e não só de passagem pela janela. Se quiser esticar a parada, o centro tem praça, comércio ativo e uma boa estrutura de restaurantes na região da avenida principal.

O que dá pra fazer no meio do caminho sem perder o dia
  • Em Campo Mourão, o Lago Azul é a parada mais fácil pra esticar as pernas e fazer imagem, bem perto da rodovia.
  • Maringá vale meia hora só pela Avenida Brasil e o parque do Ingá, se o horário permitir.
  • Prefira abastecer nos postos maiores de Ubiratã ou Campo Mourão. Entre uma cidade e outra os intervalos são longos.

Encerrei o dia sem gravar nada da chegada. Larguei a câmera, abracei os amigos e fui dormir. O carro ficou na garagem com poeira de Paraná inteiro.

E você, já pegou a BR-369 depois que as praças voltaram a cobrar? Quero saber quanto ficou o pedágio na sua viagem e se o trecho de pista simples te atrasou muito.


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