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Bosque Rodrigues Alves: floresta, preguiças e história dentro da cidade

·10 min de leitura·por Helio Pere
Bosque Rodrigues Alves: floresta, preguiças e história dentro da cidade

A gente chegou no Bosque Rodrigues Alves tarde, faltando pouco tempo pra fechar. Sacola de roupa na mão, o almoço do Ver-o-Peso ainda pesando e aquele calor úmido do Pará que não dá trégua nem no fim da tarde. Era o último dia em Belém e o carro alugado ficava com a gente até a madrugada.

Do portão pra dentro, o barulho da avenida foi ficando pra trás. O movimento estava fraco, quase ninguém circulando nas trilhas, e foi aí que eu percebi uma coisa: dava pra ouvir os bichos. Som de mata mesmo, dentro de uma capital de mais de um milhão de habitantes.

Antes que você ache que é só um parquinho com bicho

Eu entrei achando que ia dar uma volta rápida pra matar tempo antes do pôr do sol. Saí de lá com uma informação sobre aquelas árvores que muda completamente o jeito de olhar pra elas, e que quase ninguém conta pra quem visita. Deixei essa parte pro meio do texto, porque ela precisa do contexto certo pra fazer sentido.

O portão dá pra uma das avenidas mais movimentadas de Belém

A entrada principal fica na Avenida Almirante Barroso, número 2305, no bairro do Marco. Tem também uma entrada lateral pela Travessa Perebebuí. Quem conhece Belém sabe o tipo de trânsito que passa ali. Ônibus, moto, buzina, o pacote completo de avenida grande.

E essa avenida carrega uma história antiga. Ela era o caminho do Marco da Légua, a estrada que ia em direção a Bragança, no tempo em que a cidade acabava mais ou menos por ali. O Bosque nasceu justamente na fronteira do que Belém considerava seu limite. A cidade cresceu, engoliu tudo em volta, e aquele quadrado de mata continuou onde estava.

O lago artificial com a ponte de concreto imitando troncos de madeira e o quiosque de palha do outro lado

As alamedas de dentro são largas, de concreto, com balaustrada pintada de amarelo e vasos de planta em cima do parapeito. É uma estrutura antiga, com marca de tempo e mancha de umidade no reboco, cercada dos dois lados por palmeira, bananeira brava e árvore alta. Você caminha por um corredor de jardim francês com floresta amazônica encostada na guarda.

📍 Bosque Rodrigues Alves

Abrir no Google MapsComo chegar

Estacionamento próprio o Bosque não tem. Quem vai de carro resolve nas ruas do entorno.

Os macacos aparecem sozinhos. A preguiça você tem que procurar

Rapaz, a quantidade de bicho ali é coisa séria. O Bosque abriga 435 animais de 29 espécies em recinto, e mais outras 29 espécies vivendo soltas ou em semiliberdade dentro da área de mata. Peixe-boi amazônico, jacaré, jabuti, arara, macaco. Alguns você vê porque eles se apresentam. Outros só com paciência.

Macaco foi o primeiro. Depois vieram aves e bichos que eu nunca tinha visto na vida e que continuo sem saber o nome. Fiquei olhando, gravando, e até hoje não sei dizer o que era. Se algum paraense quiser me ajudar nos comentários, eu agradeço.

Monumento aos Intendentes: estrutura azul de 1906 refletida na água esverdeada do espelho d'água

As preguiças são o oposto exato de um bicho de zoológico. Elas não fazem nada pra chamar atenção. Ficam encaixadas na forquilha do galho, parecendo um pedaço de tronco que criou pelo. Você passa por baixo três vezes sem ver. Aí alguém aponta e pronto, começa a enxergar em todo canto.

Eu estava filmando sem o microfone da DJI, que o rio tinha levado dois dias antes na Praia do Chapéu Virado, em Mosqueiro. Mil reais de equipamento fazendo companhia pros peixes. Com o parque vazio daquele jeito, o som que entrou nas imagens foi o do ambiente puro. Bicho chamando, folha mexendo, mais nada. Acabou saindo melhor assim.

O lago, a ponte de cimento fingindo que é madeira

Os lagos artificiais são do tempo das reformas antigas e continuam ali, com aquela água esverdeada de mata fechada, cheia de reflexo de folha. Sobre um deles passa uma pontezinha branca com guarda-corpo de concreto moldado pra imitar tronco de madeira, nó por nó. Truque de construção da virada do século que ficou tão bem feito que engana de longe. Do outro lado do lago tem um quiosque de palha, onde estava a única gente que eu vi circulando naquela hora.

Casarão de dois pavimentos com sacada de ferro, quase engolido pelas palmeiras no meio do Bosque

Em volta, uns pilaretes de cimento ligados por corrente separam o caminho da água. Uma estatueta pequena olhando pro lago, meio escondida no mato da margem. Um tronco caído servindo de passarela pra nada. É o tipo de cantinho que rende foto boa sem esforço nenhum.

As árvores grandes e a parte que quase ninguém conta

Tem árvore ali que faz qualquer pessoa parar de andar. Aquelas raízes que saem do tronco parecendo paredes, formando corredor no chão. No Norte chamam de sapopema, palavra do tupi que quer dizer raiz chata. A sumaúma é a mais conhecida entre as gigantes, chega a uns cinquenta metros, e tem fonte que fala em bem mais que isso. No Bosque também predominam a maçaranduba, a acariquara, o acapu e a castanheira sapucaia, uma das maiores árvores da floresta equatorial.

Agora vem a informação que eu prometi. Muita gente sai de lá achando que aquelas árvores foram plantadas quando o parque foi criado. Elas já estavam ali. O Bosque é um pedaço da mata original daquela região, cercado e preservado enquanto Belém se expandia por cima de todo o resto. São 15 hectares, mais de 10 mil árvores de mais de 300 espécies, e algo em torno de 80% da área é mata mesmo. Só uns 20% viraram caminho pra visitante andar.

O que você tem diante dos olhos é o que sobrou da floresta naquele quarteirão. Um historiador ouvido pela imprensa paraense chegou a dizer que é a única quadra de toda a região do Marco e de São Brás que continua inalterada desde o começo do século XX.

Olha só uma curiosidade que derruba lenda: a sumaúma é tratada como se fosse exclusividade nossa, mas ela também ocorre na América Central, na África ocidental e no sudeste asiático. Amazônica ela é, exclusiva não. Em 2025, depois da minha visita, o Bosque inaugurou um Santuário das Sumaúmas com dez mudas nascidas das sementes de uma sumaumeira centenária de Belém que precisou ser retirada em 2023.

1883, um barão e uma cópia de Paris no meio da Amazônia

A ideia do Bosque veio de José Coelho da Gama e Abreu, o Barão de Marajó, que presidia a província do Grão-Pará. E a inspiração dele foi o Bois de Boulogne, aquele parque enorme de Paris. Vale parar dois segundos pra imaginar a cena: um sujeito olhando pra floresta amazônica de verdade e decidindo organizar um pedaço dela nos moldes franceses, porque na cabeça da época isso era sinal de progresso e civilidade.

O decreto que trata da implantação é de 1870, mas a inauguração como parque municipal só aconteceu em 25 de agosto de 1883, ainda no reinado de dom Pedro II. O nome inicial era Bosque Municipal do Marco da Légua.

A grande reforma veio depois, no auge da borracha, com Antônio Lemos, intendente entre 1897 e 1912. A partir de 1900 entraram as grutas, os riachos, as cascatas e os viveiros, obra tocada pelo então diretor do Bosque, Eduardo Hass, e pelo arquiteto José Castro Figueiredo. Boa parte do que você vê construído hoje é dessa fase.

Andando pelas trilhas você esbarra nas construções antigas de repente, porque a mata cresceu por cima delas. Tem um casarão de dois pavimentos, com sacada corrida de ferro trabalhado, escada lateral de alvenaria e o reboco descascando em placa. Palmeira nascendo na frente, folha seca cobrindo o chão inteiro. O Bosque guarda também um chalé de ferro do século XIX, restaurado e transferido pra lá em 1985, além do quiosque chinês, da gruta de pedra-sabão, do portão monumental e das estátuas do Curupira e do Mapinguari.

O monumento azul e a homenagem de político pra político

A construção que mais chama atenção lá dentro é uma estrutura azul forte, com colunas, brasões em relevo e um arco de tijolo aparente no meio. Na frente, duas figuras femininas de bronze e dois bustos apoiados em pilares, tudo isso refletindo num espelho d'água circular que, no dia em que estive lá, estava com a água bem verde e as folhas boiando. É o Monumento aos Intendentes, uma das estruturas originais preservadas do Bosque. Pelas descrições mais detalhadas que encontrei, ele é de 1906, homenageia os intendentes e chefes políticos do Congresso Político realizado em 15 de agosto de 1903, e traz na frente os bustos de Augusto Montenegro e Antônio Lemos.

Combina com o resto da história. Em 17 de dezembro de 1906, por resolução do Conselho Municipal, o parque passou a se chamar Rodrigues Alves, homenagem a Francisco de Paula Rodrigues Alves, então presidente da República e correligionário de Antônio Lemos. Em 2002 o espaço recebeu o registro de Jardim Botânico da Amazônia, e em 2008 veio a certificação de Jardim Zoobotânico pelo Ibama.

Dois reais

O ingresso custa dois reais. Estudante paga meia com carteirinha, criança até seis anos e pessoa a partir de 60 não pagam. Pelo que a prefeitura anunciou em 2025, no último fim de semana de cada mês a entrada fica gratuita pra todo mundo.

Minha digníssima resumiu a visita numa frase só, e eu não teria feito melhor: muito bonito o local e a entrada é simbólica. É isso mesmo. Dois reais pra andar dentro de um remanescente de floresta amazônica é preço que nem chega a ser preço.

Sobre horário, eu preciso ser honesto com você, porque aqui as fontes brigam. O site oficial do Bosque ainda mostra funcionamento de terça a domingo das 8h às 14h, com regras de pandemia e tudo, o que dá a entender que a página está parada no tempo. Já as notícias mais recentes da imprensa paraense falam em terça a domingo, das 8h às 16h. Eu não vou cravar um horário que pode te fazer chegar em porta fechada. Confere antes na página oficial: Bosque Rodrigues Alves, visitação e horários.

Naquele dia inteiro em Belém, contando as compras, o almoço no Ver-o-Peso e o resto, a gente gastou R$ 315,00. A entrada do Bosque foi disparado o menor item da lista e o que rendeu mais imagem.

Se você for ao Bosque, olha isso aqui antes
  • Não existe estacionamento do Bosque. Dá pra parar na Travessa Perebebuí ou na Avenida Rômulo Maiorana
  • Entrada de alimento, bola e balão não é permitida, então come antes ou come depois
  • Bicicleta, skate e brincadeira com bola também estão fora das regras da casa
  • Dar comida pros animais, nem pensar, inclusive pros que andam soltos
  • Se a fila do portão principal estiver grande, tem a entrada lateral pela Travessa Perebebuí
  • Reserve pelo menos duas horas. Chegar em cima do fechamento, como eu fiz, é correr contra o relógio

Saí do Bosque e ainda deu tempo de ver o pôr do sol no Forte do Presépio e terminar a noite na Estação das Docas, onde provei açaí paraense pela primeira vez. Detestei. Gosto de nada, pra mim. Tem gente que ama e eu respeito, mas meu paladar cearense não foi feito pra aquilo.

O que ficou daquela tarde não foi o açaí nem a compra. Foi o som dos bichos num lugar quase vazio, e a ideia de que aquelas árvores estavam ali antes da avenida, antes do ônibus, antes de tudo. E continuam.

E você, já viu preguiça solta em árvore dentro de uma cidade grande? Em que lugar foi?

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