O sol estava descendo atrás de uma serra que eu não sabia o nome. A estrada cortava o sertão baiano em linha reta, e do nada, o céu inteiro ficou laranja, depois vermelho, depois roxo. Minha esposa foi a primeira a falar: “Para o carro. Para agora.” E eu parei. No acostamento, motor desligado, três pessoas em silêncio olhando pro horizonte como se fosse a primeira vez que víamos um pôr do sol na vida. Mandacarus recortados contra aquela imensidão de cores. Nenhuma foto faz justiça. Nenhum filtro de celular chega perto. Foi um daqueles momentos que a gente guarda no peito e leva embora da viagem sem precisar pagar nada.
Horas antes, a gente tinha saído de Brumado com a barriga cheia de almoço de R$ 3,00 no Restaurante Popular e uma missão pessoal: chegar a Paramirim, a cidade onde morei quando era criança, onde meu pai tirou carteira de habilitação pra uma caminhonete, onde tinha touradas debaixo de lona de circo à noite e um rio onde a gente ia se refrescar. Uma cidade que meus irmãos nem lembram, porque eram mais novos. Mas eu lembro. Eu vim ao mundo a passeio, e esse trecho entre Brumado e Paramirim foi a prova de que a estrada sempre cobra seu pedágio. Às vezes em dinheiro, às vezes em paciência, e às vezes em histórias que rendem post de blog.
Resumo
Trecho: Brumado → Livramento de Nossa Senhora → Rio de Contas → Paramirim (BA)
Data: 30 de dezembro de 2025 (tarde e noite)
Distância: Aproximadamente 300 km de estrada
Destaque: Pôr do sol absurdo no acostamento do sertão
Perrengue: Hotel em Paramirim, só a misericórdia
Quem: Eu, minha digníssima e Marianny
Missão: Rever a cidade onde morei nos anos 80
Saindo de Brumado: barriga cheia e uma missão no coração
Depois daquele almoço de R$ 3,00 que contei no post anterior, saímos de Brumado por volta das 14h. O sol já estava castigando, aquele calor de sertão que faz o asfalto tremer na frente dos seus olhos. Liguei o ar-condicionado no máximo, coloquei uma playlist de forró das antigas e enfiei o pé na estrada.
Brumado é uma cidade que tem um lugar especial no meu coração. Morei na região quando era criança, entre Caculé e Caetité, e cada vez que passo por essas estradas, as lembranças voltam. Meu pai conhecia o nome de cada cidadezinha do sertão baiano. Ele tinha a Bahia inteira mapeada na cabeça, sem GPS, sem mapa. Só na memória. E eu, rodando aquelas estradas décadas depois, sinto que estou refazendo caminhos que ele já percorreu mil vezes.
Acontece que o destino desse dia não era qualquer lugar. Era Paramirim. A cidade onde moramos por alguns meses nos anos 80, quando eu tinha uns 5 pra 6 anos. Foi lá que meu pai tirou a carteira de habilitação pra dirigir uma caminhonete. Eu lembro de correr pro portão quando ele voltou do teste e perguntar: “Pai, conseguiu tirar a carteira?” E ele respondeu: “Diga: Graças a Deus.” Essa frase ficou gravada na minha memória como se tivesse sido ontem. Lembro do rio onde a gente ia se refrescar, das touradas debaixo de lona de circo que eram a diversão da cidade à noite. Meus irmãos? Nenhum lembra. Eram mais novos. Mas eu lembro de tudo.
Pois é. Depois de mais de 43 anos, eu estava voltando. E no meio do caminho, a gente ainda ia passar pela região da Chapada Diamantina, aquela mesma que a gente tinha aberto mão lá no começo da viagem quando decidimos trocar o roteiro por Porto Seguro. A vida é assim: o que é pra ser, encontra a gente no caminho.
Livramento: a dica do vendedor de frutas
O trecho de Brumado pra norte é um espetáculo visual que pouca gente conhece. Conforme você vai subindo, a paisagem começa a mudar. O sertão plano vai dando lugar a serras, morros e formações rochosas que aparecem do nada no horizonte. Em dezembro, com a temporada de chuvas, o verde domina tudo. Não é aquele verde de litoral, de mata atlântica. É o verde vibrante da caatinga molhada, um verde que tem urgência, que sabe que vai durar pouco e por isso se mostra com toda a força.
Marianny, minha sobrinha, ia no banco de trás filmando pela janela. Minha digníssima ia no carona, como sempre, cuidando da navegação e me avisando dos buracos. Porque buraco, Nosso Deus, tinha. Não tantos quanto na Serra do Marçal, mas o suficiente pra manter a atenção ligada no asfalto.
Quando avistamos a Chapada Diamantina no horizonte, paramos na rodoviária de Livramento. A parada era só pra ir ao banheiro, mas aí que tá: um vendedor ambulante de frutas nos deu a dica de subir a serra até Rio de Contas. “Tem uma vista que vocês não vão esquecer”, disse ele. E mencionou que tinha uma cachoeira no caminho. Olhei pro céu: o sol já estava baixando. Mas a gente não veio até aqui pra jogar seguro. Decidimos subir.
A serra de Livramento a Rio de Contas: o motor pediu socorro
Rapaz. Pense numa subida. Uma subida íngreme, contínua, sem possibilidade de parar. O motor 2.0 do nosso carro guerreiro estava dando tudo de si, e lá embaixo eu sentia cheiro de pastilha de freio. Minha esposa olhou pra mim com aquela cara de quem quer perguntar se o carro vai aguentar, mas preferiu ficar calada.
A cada cidadezinha que passávamos, eu abaixava o vidro pra sentir o ar. Tem um cheiro no sertão baiano de dezembro que é fascinante: terra molhada, mato quente, fumaça de lenha de alguma casa distante. É um cheiro que me leva direto pra infância. Pra aquele tempo em que meu pai dirigia um Fusca velho por essas mesmas estradas e a gente torcia pra ele estragar no meio do caminho. E quando estragava, a molecada saía correndo pro mato pra brincar enquanto ele ficava possesso tentando consertar.
No caminho, sem parar o carro, registramos com vídeo e fotos uma enorme montanha de pedra com uma cachoeira descendo. Uma vista que ficou nas imagens e na memória. Chegando em Rio de Contas, fotografamos as casas coloniais e fomos até uma cachoeira próxima. Na verdade, era mais um córrego pequeno onde o povo da cidade estava tomando banho. Estrada de terra, carros estacionados, e três quedas d’água bonitas que o mangabinha (nossso drone) registrou. Ficamos pouco tempo, porque o sol já estava se pondo.
O pôr do sol que parou o carro
Por volta das 17h30, depois de sair de Rio de Contas, aconteceu. A gente vinha numa reta longa, aquelas retas infinitas do sertão onde você vê o asfalto desaparecer no horizonte. E de repente, o céu começou a mudar. Primeiro ficou dourado. Depois laranja. Depois foi como se alguém tivesse derramado tinta vermelha no horizonte inteiro.
Minha esposa falou primeiro: “Para o carro, Hélio.” E eu parei. Encostei no acostamento, desliguei o motor e a gente ficou ali. Três pessoas em silêncio, dentro de um carro no meio do sertão baiano, olhando o sol se despedir do dia 30 de dezembro de 2025.
O cenário era absurdamente bonito. As silhuetas dos mandacarus contra aquele céu em chamas. As serras ao fundo, escurecendo aos poucos. O vento quente do sertão batendo no rosto. Eu tentei filmar, mas rapidamente percebi que não ia funcionar. Tem coisa que a câmera não captura. Tem cor que a tela não reproduz. Tem sensação que só quem tá ali, naquele momento, com os pés no chão e o coração aberto, consegue sentir.
Que privilégio, gente. Que privilégio estar vivo, com saúde, com a família do lado, vendo um pôr do sol desses no meio de uma viagem pelo Brasil. Não custou nada. Não tinha ingresso, não tinha fila, não tinha horário de funcionamento. Era só as obras do Criador fazendo o que fazem de melhor: deixar a gente sem palavras.
Ficamos ali uns 15 minutos. Quando o último pedaço de sol sumiu atrás da serra, dei partida no carro e segui viagem. Ninguém falou nada por uns cinco quilômetros. Às vezes o silêncio é o melhor comentário que existe.
Chegada em Paramirim: a cidade que só eu lembro
Chegamos às 19h em Paramirim. A cidade estava bem deserta, praticamente ninguém na rua. E foi muito emocionante. Aquela sensação de voltar a um lugar que existe mais na sua memória do que no presente. Eu tinha 5, 6 anos quando morei ali com meu pai, minha mãe e meus irmãos. Foram poucos meses, mas o suficiente pra gravar lembranças que carrego até hoje.
Meu pai tinha uma caminhonete naquela época. Ele era vendedor de feiras livres, um camelô que percorria o sertão baiano pra vender seus produtos. E foi em Paramirim que ele tirou a carteira de habilitação. Imagina só: um homem que aprendeu a ler sozinho decifrando pedaços de jornais velhos, conseguindo tirar habilitação numa cidade do interior da Bahia nos anos 80. Eu lembro de correr até ele quando voltou do teste e perguntar: “Pai, conseguiu tirar a carteira?” E ele, com aquela calma de sempre: “Diga: Graças a Deus.”
Lembro do rio onde a gente ia se refrescar. Lembro das touradas debaixo de lona de circo, que eram a diversão da cidade à noite. Lembro da gente morando ali, uma família inteira com três filhos pequenos, vivendo aquela vida que meus pais não escolheram por modismo, mas por necessidade. Meus irmãos? Nenhum lembra de Paramirim. Eram mais novos. Eu sou o único que carrega essa cidade na memória. E depois de mais de 43 anos, eu estava ali de novo, de pé, olhando pras ruas de uma cidade que parecia ter parado no tempo.
Estávamos com muita fome. Achamos a única lanchonete aberta, ao lado de uma pracinha (e disseram que é a única da cidade). Pedimos o que tinha e comemos sem pressa, ouvindo o silêncio de Paramirim de noite. Eita coisa boa, viu. Esse tipo de silêncio que cidade grande não tem e que o sertão oferece de graça.
Hotel: a hospedagem complicada
Deixe comigo que vou te contar com calma, porque essa merece detalhes.
O Hotel fica fica próximo alí de onde a gente fez o lanche mesmo, em Paramirim. R$ 140,00 pra três pessoas. O check-in foi feito por dois senhores idosos, muito educados, que anotavam tudo num caderno de papel com marcas de muito uso, páginas amassadas. Aquele sistema tradicional, sem computador, sem sistema. Caneta e caderno. Deixamos o carro na garagem e fomos pro quarto. Eu nem vou falar o nome do hotel, gente, porque eles foram muito educados e são pessoas de bem. Só precisam entender melhor de limpeza e cuidado com o hotel.
Gente do céu. O quarto parecia que nunca tinha sido limpo. O banheiro idem. O travesseiro estava completamente marrom, com uma fronha por cima pra tentar disfarçar, mas a fronha também estava suja. O chuveiro pingava uma água morna que mais parecia suor de parede. Dentro do banheiro tinha um tapete imundo, encharcado de urina. E o hotel não tinha água disponível.
Minha esposa olhou pra mim com aquela cara de “não vou dormir aqui nem que a vaca tussa.” Marianny já tinha pegado o travesseiro dela e colocado por cima do da pousada, com nojo de encostar. Eu, que já passei por dezenas de hospedagens pelo Brasil, já vi de tudo. Mas essa entrou fácil pro top 3 das piores.
Resultado: ficamos. Já era quase 22h, Paramirim de noite não tem opção. Dormi com a toalha de casa por cima do lençol, porque pelo menos essa eu trouxe limpa. E como eu disse pra minha esposa: “Depois que apagar a luz não dá pra ver os ácaros.” Ela não achou graça. Mas era a pura verdade.
A lição que fica? Quando viajar na temporada de fim de ano pelo interior da Bahia, reserve com antecedência. Não faça como eu fiz. A pressa e o cansaço são péssimos conselheiros na hora de escolher onde dormir. E se você quer saber como evitar esse tipo de perrengue, já fiz um post completo sobre hospedagens pelo Brasil com análise de hotéis, pousadas e dicas reais.
Mini-guia: Brumado até Paramirim de carro
Se você está planejando esse trecho, vai aqui o que aprendi na prática:
Distância: Aproximadamente 300 km de Brumado até Paramirim, passando por Livramento e Rio de Contas.
Tempo estimado: Entre 4 e 5 horas, dependendo das paradas e condições da estrada.
Condição da estrada: Asfalto razoável, com trechos bons e outros com buracos. A serra de Livramento até Rio de Contas é íngreme e contínua, exige atenção. Atenção redobrada à noite, a sinalização é precária em alguns pontos.
Combustível: Abasteça em Brumado. Há postos no caminho, mas os preços sobem conforme você se afasta das cidades maiores.
Paisagem: Em dezembro (temporada de chuva), o sertão está verde e as serras são impressionantes. Pare pra fotos.
Hospedagem em Paramirim: As opções são limitadas e simples. Se puder, reserve com antecedência ou programe pra pernoitar em Rio de Contas ou Livramento, que têm mais estrutura.
Dica de ouro: Programe pra chegar com luz do dia. Dirigir esse trecho à noite não é a melhor ideia, especialmente se não conhece a região. E se o pôr do sol pegar você na estrada, pare e aproveite. Vai valer mais que qualquer minuto economizado.
Quanto gastamos nesse trecho: os números
Combustível (Brumado → Paramirim): Aproximadamente R$ 180,00 (300 km, consumo médio)
Rapadura no posto: R$ 5,00
Hospedagem (Hotel em Paramirim): R$ 140,00 a diária pra três pessoas
Lanche noturno em Paramirim: R$ 75,00
Total do trecho: Aproximadamente R$ 395,00 pra três pessoas
Não é o dia mais barato da viagem, longe disso. O combustível pesou e a hospedagem decepcionou pelo que entregou. Mas quando coloco na balança o pôr do sol que vimos, as serras de Rio de Contas, e a emoção de pisar em Paramirim depois de 43 anos, o custo se paga. Viajar barato não é gastar zero. É gastar com inteligência e fazer cada real valer a experiência.
O que ficou desse trecho
Sei não, viu, mas o sertão baiano tem um poder que nenhuma praia do litoral tem: o poder de te fazer pensar. Na praia, você relaxa. No sertão, você reflete. Cada quilômetro daquela estrada entre Brumado e Paramirim trazia uma lembrança, uma sensação, um pedaço da minha história.
Morei nessa região quando era moleque. Meu pai dirigia por essas mesmas estradas num Fusca que vez ou outra resolvia estragar no pior lugar possível. E cá estou eu, décadas depois, fazendo a mesma rota, com minha esposa e minha sobrinha, num carro guerreiro que aguentou estrada ruim, Serra do Marçal, milhares de quilômetros desde Cascavel e não reclamou uma vez sequer.
O Hotel foi péssimo? Foi. Mas a gente dormiu. O chuveiro era frio? Era. Mas a gente tomou banho. Perrengue faz parte. E essa viagem continua provando que os melhores momentos nascem no meio da dificuldade.
E aquele pôr do sol? Aquele pôr do sol vai ficar comigo pro resto da vida. Não precisa de barco caro, não precisa de mirante famoso, não precisa de drone sobrevoando. Precisa só de estar no lugar certo, na hora certa, com o coração aberto. E naquele acostamento no meio do sertão baiano, a gente estava.
E voltar a Paramirim? Isso nenhum dinheiro compra. É o privilégio de revisitar um pedaço da sua própria história, pisar nas ruas que seus pés pequenos de criança já pisaram, e sentir que a vida, apesar de tudo, fez um círculo bonito. Meu pai não está mais aqui pra voltar comigo. Mas de algum jeito, naquela noite em Paramirim, ele estava.
E você, já voltou a uma cidade da sua infância depois de décadas? Já dormiu num hotel que fez você questionar suas escolhas de vida? Me conta nos comentários. Quero saber!
No próximo post: réveillon no sertão e o reencontro com Caculé
Depois dessa noite no Hotel Fiesta, veio o último dia do ano. E se você acha que a gente passou o Réveillon num resort com champanhe e fogos de artifício, se enganou bonito. O destino foi outro, bem mais especial: Caculé, a cidade onde morei dois anos quando era criança. Mas antes, ainda deu tempo de tomar banho num posto de gasolina em Paramirim (sim, o hotel não tinha água), gravar imagens do Rio Paramirim com o drone e rever Caetité. Teve reencontro, teve emoção, teve virada de ano no interior da Bahia do jeito mais autêntico possível. E tem uma história sobre essa noite que vai te fazer rir e se emocionar ao mesmo tempo. Fique ligado que o próximo post vem com tudo.
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