Chapéu no Brasil colonial: lei, hierarquia e cabeça coberta

Pegue qualquer foto de rua brasileira do começo do século passado e tente contar as cabeças descobertas. Você vai contar pouca coisa. Homem de terno, homem de paletó puído, entregador, engraxate, garoto de recado, todo mundo com alguma coisa na cabeça. Agora olha a rua de hoje, num sábado de sol, e conta de novo. Inverteu completamente.
Aí que tá o que me incomodou. O chapéu faz sombra, protege do sol e da chuva, tem função clara e útil num país como o nosso. A gravata é um pedaço de pano pendurado no pescoço que não esquenta, não refresca, não segura nada e ainda aperta. E foi a gravata que sobreviveu. Meu pai dizia brincando que se abrisse uma fábrica de chapéu o povo começaria a nascer sem cabeça. Fui atrás do motivo que levou o chapéu praticamente desaparecer da cabeça dos brasileiros achando que ia encontrar assunto de moda. Encontrei outra coisa.
Achei que ia escrever um texto sobre sol
Comecei essa pesquisa imaginando sombra, calor e clima tropical. Terminei com uma lei portuguesa do século XVIII, uma fábrica de chapéus no Rio de Janeiro, altura de teto de automóvel e um presidente americano pagando por um crime que não cometeu. Se você acha que roupa é assunto raso, segura mais um pouco aí comigo.
O chapéu funcionava como crachá
No Brasil colonial e no Império, roupa era assunto de lei. Isso não é figura de linguagem. Portugal legislava sobre o que cada um podia vestir, e a legislação valia também por aqui. A Pragmática de 24 de maio de 1749, assinada por D. João V, proibiu o luxo excessivo nos trajes, nos móveis, nas carruagens e até no modo de vestir de criados e escravizados, com penas que iam de multa a prisão e degredo. O documento está digitalizado e disponível de graça na Biblioteca Nacional de Portugal, se você quiser conferir com os próprios olhos.

Décadas antes disso o reino já mexia até na procedência da peça. Um alvará de 15 de novembro de 1690 mandou colocar uma marca nos chapéus fabricados em Portugal, pra distinguir dos que vinham de fora. Olha só o tamanho da importância do troço: existia lei sobre a marca do chapéu.
Se a lei regulava o que você podia usar na cabeça, o chapéu passava informação sem você abrir a boca. Condição social, ofício, dinheiro, tudo ali. E a etiqueta em volta dele era o gesto de hierarquia mais visível que existia: você descobria a cabeça diante de quem estava acima. Sobrou na língua até hoje. A gente ainda diz que tira o chapéu pra quem merece, e ainda fala em chegar de chapéu na mão.
Pele de lebre, pele de castor e muita gente na linha de produção
Chapéu aqui virou indústria pesada. O historiador Lyndon de Araújo Santos, em artigo publicado na revista Varia História em 2015, mostra que a fabricação de chapéus no Rio de Janeiro remonta a 1825 e que boa parte dela foi tocada por chapeleiros portugueses vindos de Braga. Ele cita a historiadora Eulália Lobo, para quem a chapelaria foi o ramo que melhor aguentou a concorrência estrangeira ao longo do século XIX.

Os detalhes da produção derrubam a ideia de chapéu como coisa simples. Feltro feito com peles de lebre e de castor importadas, produtos químicos pra impermeabilizar, aplicação de goma elástica no feltro a partir de 1843. As fases finais dependiam de trabalho manual, e as mulheres chegaram a ser mais da metade do operariado em alguns momentos, ganhando menos que os homens pela mesma jornada. Uma fábrica só, a Chapéus Mangueira, sustentou parte daquele bairro do Rio por décadas.

Do lado popular, o chapéu de palha seguiu outro caminho. Segundo o Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro, ele nasce do encontro entre técnicas indígenas de trançado, com fibras como buriti, tucum e arumã, saberes africanos e a chapelaria europeia adaptada ao calor daqui. Entre os séculos XVIII e XIX virou item obrigatório na cana e no café.
O que matou o chapéu, e não foi o Kennedy
A versão que todo mundo repete diz que John Kennedy acabou com a indústria do chapéu ao aparecer sem um na posse, em 1961. É uma boa história e é falsa. O jornalista Neil Steinberg destrinchou isso no livro Hatless Jack (Plume, 2004): Kennedy usou cartola na posse, e as vendas de chapéu já vinham caindo desde o começo dos anos 1950. A indústria preferiu um culpado só, com nome e rosto, a encarar meia dúzia de causas ao mesmo tempo.

As causas de verdade são chatas, como quase toda causa de verdade. A guerra deixou uma geração enjoada de uniforme, e uma pesquisa de 1947 encomendada pela Hat Research Foundation, entidade da própria indústria americana, apontou que 19% dos homens que não usavam chapéu davam como motivo principal terem sido obrigados a usar no exército. O automóvel trouxe tetos mais baixos e acabou com a caminhada diária até o trabalho, que era exatamente a hora em que o chapéu servia pra alguma coisa. Ventilador, ar-condicionado e vida dentro de prédio comeram o resto da utilidade.
E tem o cabelo. A partir dos anos 1950 o penteado virou o enfeite principal. Ninguém passa meia hora no espelho pra amassar tudo embaixo de um feltro.
Mas o detalhe que mais me chamou atenção foi a regra de educação. Chapéu se tira em ambiente fechado, sempre foi assim. Steinberg descreve rituais hoje esquecidos disso tudo, incluindo temporada oficial pra chapéu de palha e os quebra-quebras que aconteciam em Nova York contra quem usava palha fora de época. Quando a vida inteira passou a acontecer em ambiente fechado, o chapéu virou uma peça que você carrega na mão o dia todo. Peça que atrapalha morre.
A gravata sobreviveu justamente por não servir pra nada
A gravata é bem mais nova. Ela vem dos mercenários croatas a serviço da França no século XVII, que usavam um pano amarrado no pescoço como distintivo militar. A corte francesa copiou, e a palavra cravate saiu de croate. As datas variam conforme a fonte, entre 1635 e 1668, e não encontrei consenso, então fico com o século e sigo.

Agora repara na diferença prática. A gravata não sai da cabeça porque não está na cabeça. Não amassa cabelo, não voa com vento, não precisa ser retirada quando você entra num lugar, não briga com teto de carro, não fica esquecida no cabide do restaurante. Ela nasceu como sinal e continuou sendo só isso. Objeto que apenas significa não perde função quando o mundo muda, porque nunca teve função nenhuma pra perder.
O chapéu tinha as duas coisas, utilidade e significado, e as duas estavam amarradas na vida de rua. A rua encolheu. O chapéu foi junto.
Minha opinião sobre essa troca
Aqui é análise minha, não é dado de pesquisa. Acho esquisito o que a gente fez. Um país que passa boa parte do ano com sol batendo na moleira abandonou a peça que dava sombra e manteve a que só enfeita, ainda usando terno em reunião de janeiro. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, o câncer de pele não melanoma é o mais frequente do país, respondendo por cerca de 31,3% de todos os tumores malignos estimados.
Não estou dizendo que o fim do chapéu explica esse número, seria esticar demais a corda. O próprio INCA aponta a exposição solar acumulada como fator principal, não a moda. O que me incomoda é outra coisa: a peça útil saiu de cena por motivos que não tinham relação nenhuma com utilidade. Saiu por causa de altura de teto, de penteado e de escritório refrigerado.
Onde o chapéu nunca saiu
No Ceará, onde eu nasci, chapéu de palha não precisou de volta triunfal. Continuou na roça, na feira, na carroceria, na cabeça de quem passa seis horas debaixo do sol e sabe exatamente por que está usando aquilo. O couro do vaqueiro no sertão segue a mesma lógica: peça de trabalho. O chapéu não sumiu do Brasil, ele foi expulso do centro da cidade.
Se você quiser cavar essa história por conta própria
- A Pragmática de 1749 está digitalizada e gratuita no acervo da Biblioteca Nacional de Portugal, no endereço purl.pt/33988
- Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional dá pra buscar a palavra chapeleiro em jornais do século XIX e cair direto nos anúncios da época
- O artigo da Varia História sobre os chapeleiros do Rio está liberado no SciELO, sem pagar nada
- Foto antiga de família ajuda a datar: o modelo do chapéu costuma entregar a década melhor que a roupa
- Se for comprar chapéu pra estrada, prefira aba larga e material que respire. Boné protege a testa e deixa orelha e nuca no sol
Terminei essa pesquisa com uma conclusão meio sem graça: a gravata ganhou por ser inofensiva. Ela nunca atrapalhou ninguém a entrar em lugar nenhum.
E na sua casa, tem chapéu? Se tem, é de usar mesmo ou é aquele que só sai do armário em festa junina e foto de viagem?
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