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Serra Pelada: A Verdadeira História do Formigueiro Humano que Cavou a Amazônia nos Anos 80

·6 min de leitura·por Helio Pere
Serra Pelada: A Verdadeira História do Formigueiro Humano que Cavou a Amazônia nos Anos 80

Rapaz, tem história que chegou até mim por dois caminhos ao mesmo tempo. Um foi a televisão dos anos 80, com aquelas imagens de um buraco imenso coberto de gente. O outro foi meu pai, que esteve em Serra Pelada. Ele não foi garimpar, foi conhecer. E contava sempre a mesma coisa, com essas palavras: "Artistas famosas iam lá fazer shows para os garimpeiros e eram pagas com ouro puro".

Eu era menino e morava longe daquilo tudo. Mesmo assim, o nome Serra Pelada tinha um peso diferente quando aparecia no jornal da TV e no filme do humorístico "Os Trapapalhões". Levei anos pra entender o tamanho real do que aconteceu ali no sudeste do Pará.

Antes de descer nesse buraco comigo

Você provavelmente já viu as fotos do formigueiro humano. O que quase não se conta é o que rolava fora da cava, o que foi proibido lá dentro, quanto ouro de fato saiu daquele chão e quem ficou com ele. Fica comigo até o fim, porque a Serra Pelada de 2026 mudou de um jeito que pouca gente sabe.

Tudo pode ter começado num buraco de cerca

A versão mais aceita, e o IBRAM registra ela assim, é que Genésio Ferreira da Silva, antigo dono das terras, encontrou ouro no fim dos anos 70 enquanto cavava um buraco pra fazer cerca. Outros relatos falam em ouro aparecendo nas margens de um córrego, a Grota Rica, aos pés de um morro da fazenda Três Barras. O nome do garimpo veio emprestado de uma serra vizinha, sem árvores, pelada.

A notícia correu de um jeito difícil de imaginar hoje, sem internet e sem estrada boa. Em cinco semanas já eram dez mil pessoas dentro da propriedade e outras doze mil nos arredores, segundo números levantados pela revista Time em 1980. No meio daquele ano, trinta mil. O país vivia inflação alta e desemprego, e a promessa de ouro fácil funcionava como ímã pra quem não tinha nada a perder.

O formigueiro humano e a escada chamada adeus mamãe

No auge, as estimativas falam em oitenta a cem mil homens dentro da cava, e mais de setenta por cento eram nordestinos. Subiam e desciam por escadas de madeira improvisadas, apelidadas de "adeus mamãe", carregando saco de terra nas costas. Muitos trabalhavam descalços, no barro, sob sol de rachar, sem nenhum equipamento de proteção. Desmoronamento era rotina. O pior acidente registrado matou dezessete garimpeiros soterrados de uma vez.

Foi esse cenário que Sebastião Salgado fotografou em 1986, em preto e branco, no trabalho que virou o livro Gold. Ele faleceu em maio de 2025 e as imagens voltaram a circular no mundo inteiro. São fotos que continuam incomodando quarenta anos depois, e acho que é exatamente esse o serviço que elas prestam.

Garimpeiros na cava do garimpo de Serra Pelada, no Pará, em imagem de arquivo
Imagem de arquivo do garimpo de Serra Pelada, no sudeste do Pará.

Curió e a lei dentro da cava

Com o caos instalado, o governo federal entrou. Em março de 1980 chegou a Docegeo, subsidiária da antiga Companhia Vale do Rio Doce, como compradora do ouro. Em maio veio o major Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, nomeado interventor federal. Ele mesmo resume as regras que impôs: proibiu bebida alcoólica, entrada de mulheres e uso ostensivo de armas.

Junto com ele instalaram Polícia Federal, Receita Federal, Correios e Caixa Econômica. O ouro só podia ser vendido ali, no balcão da Caixa. O Estado controlava o preço, arrecadava imposto e sabia quem tinha o quê, num garimpo que na prática funcionava sob vigilância permanente. Aí que tá: a cidade de Curionópolis, que carrega o apelido dele no nome, nasceu justamente do que foi proibido lá dentro. Mulheres, crianças, bares e comércio ficaram do lado de fora, no caminho, e viraram cidade.

Registro histórico do trabalho manual no garimpo de Serra Pelada, no Pará
Registro histórico da atividade no garimpo, quando tudo era feito na mão.

O show pago em pepita

Meu pai repetiu essa história a vida inteira, e eu fui conferir antes de escrever. Rita Cadillac foi a primeira mulher a se apresentar no garimpo. As fontes divergem no ano, umas falam em 1982, outras em 1984, mas o relato dela é o mesmo em todas: o palco era uma lona improvisada, o som saía de um gerador, e no meio da dança ela sentiu objetos pequenos batendo no corpo. Achou que fosse pedra, achou que não estava agradando o público. Era pepita de ouro sendo atirada pelos garimpeiros.

Terminada a temporada de shows, ela precisou vender aquele ouro no escritório da Vale do Rio Doce ali mesmo, porque sair da área com o material era proibido. Gretchen e Reginaldo Rossi também se apresentavam com frequência na região, segundo reportagem do Valor Econômico publicada em março de 2023 sobre o garimpeiro Chico Ozório. Meu pai não inventou nada, então.

Quanto ouro saiu dali

O número oficial fica na casa das quarenta toneladas. O IBRAM fala em 42 toneladas retiradas no período de auge, e outros registros trazem 44,5 toneladas declaradas. O que saiu sem registro ninguém auditou. Circula uma estimativa de até 360 toneladas no mercado paralelo, e eu prefiro apresentar isso pelo que é: estimativa, sem documento firme que sustente.

Do lado das pessoas, a conta foi outra. Chico Ozório, conhecido como rei do garimpo, chegou a encontrar 647 quilos de ouro e perdeu tudo. Em 1990, o garimpo inteiro produziu menos de 250 quilos.

Água, decreto e uma ponte em dezembro

Já em 1983 havia previsão de fechamento. Veio pressão dos garimpeiros, vieram prorrogações, e em 1984 foi criada a Coomigasp, a cooperativa dos garimpeiros, com direito de lavra garantido por lei. Enquanto isso o ouro de superfície acabava, a cava enchia de água e a escavação manual não dava mais conta.

Em dezembro de 1987, garimpeiros, esposas e crianças ocuparam a ponte sobre o rio Tocantins protestando contra a situação. A Polícia Militar do Pará desocupou a ponte à força. A corporação registrou três mortes. Os garimpeiros falam em mais de sessenta. Até a data exata varia entre os relatos, 28 ou 29 de dezembro. Esse buraco na contagem diz muito sobre quem tinha voz naquela história.

Em 1992 um decreto federal fechou o garimpo em definitivo e mandou retirar as máquinas de drenagem. Sem bombeamento, a cava começou a encher.

Serra Pelada hoje

A cratera de 24 mil metros quadrados virou lago. A profundidade é onde as fontes mais brigam: aparece como 70 a 80 metros em uns levantamentos e como 200 metros em outros. O mercúrio usado na separação do ouro deixou um passivo ambiental que ainda preocupa pesquisadores, e as encostas seguem instáveis. Cerca de seis mil pessoas moram no distrito, muitas delas famílias de antigos garimpeiros que ainda esperam indenização do governo federal desde o fechamento.

E aconteceu coisa nova por lá. A estrada de 31 quilômetros que liga Curionópolis ao distrito foi pavimentada. Em 2025, Curionópolis e Serra Pelada entraram no Mapa Nacional do Turismo. E em junho de 2026 foi inaugurado o Museu Orgânico Zé Branquinho, montado na casa do ex-garimpeiro Lucindo Ferreira Lima, que guardou por mais de quarenta anos fotos, documentos, vídeos e reportagens sobre a vila. A casa dele já recebia visitante antes de virar museu.

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