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Campos de concentração no Ceará: os currais do governo

·11 min de leitura·por Helio Pere
Campos de concentração no Ceará: os currais do governo

Madrugada de domingo, quatro e meia da manhã. Milhares de pessoas saem da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores, em Senador Pompeu, no Sertão Central do Ceará, e caminham cerca de três quilômetros no escuro até um pequeno cemitério próximo ao açude do Patu.

Ali, elas rezam por pessoas que morreram sem identificação individual e foram enterradas em valas coletivas. O povo chama essa devoção de Santas Almas da Barragem. A caminhada acontece todo mês de novembro, desde 1982.

Eu nasci no Ceará e essa é uma daquelas histórias que quase não se contam. Nem em sala de aula. Em 1932, sete campos de concentração foram usados para confinar brasileiros dentro do próprio estado.

Não foi na Europa. Foi no Ceará.

Quando comecei a pesquisar os chamados currais do governo, encontrei uma história de seca, medo, isolamento e milhares de pessoas impedidas de seguir viagem. O que restou em Senador Pompeu é apenas a parte visível de uma política que alcançou boa parte do Ceará.

O nome era campo de concentração mesmo?

Era. O termo “campo de concentração” aparece em documentos oficiais e jornais da época. Não é um nome inventado posteriormente para deixar a história mais pesada.

Mas é importante fazer uma distinção. Os campos cearenses não eram campos de extermínio organizados nos moldes do sistema nazista que surgiria na Europa. O contexto, o objetivo e a dimensão histórica eram diferentes.

No Ceará, eram espaços de confinamento criados para controlar retirantes, limitar sua circulação e impedir que chegassem livremente a Fortaleza. Dentro deles, havia vigilância, racionamento de comida, doenças, recrutamento para trabalhos e punições para quem tentasse fugir ou se rebelar.

O povo preferia outro nome: currais do governo.

O apelido dizia bastante. Aquelas pessoas se sentiam cercadas, controladas e tratadas como o gado que muitas delas tinham perdido durante a seca.

Tudo começou com o medo de outra tragédia

Pra entender os currais, é preciso voltar até a grande seca de 1877 a 1879. Fortaleza tinha pouco mais de 40 mil habitantes, segundo o censo mais próximo daquele período, e recebeu mais de 100 mil retirantes vindos do interior.

A cidade não tinha estrutura para aquilo. Vieram a fome, os abarracamentos improvisados, os saques e uma epidemia de varíola que matou milhares de pessoas.

A elite de Fortaleza nunca esqueceu aquela multidão ocupando ruas, praças e prédios públicos.

Nas décadas seguintes, a capital passou por reformas urbanas e tentou construir uma imagem de cidade moderna. Havia bondes, praças arborizadas, comércio crescendo e famílias bem vestidas circulando pelo centro.

Só que, quando a seca apertava, o sertão chegava junto.

Parte da imprensa e das autoridades passou a tratar os retirantes como ameaça à ordem, à higiene e à aparência da cidade. Eram brasileiros fugindo da fome dentro do próprio país, mas vistos como um problema que deveria ser afastado.

1915: o primeiro grande curral

Durante a seca de 1915, o governo instalou no Alagadiço, região que hoje faz parte do bairro Otávio Bonfim, o primeiro campo oficialmente organizado para concentrar retirantes.

Cerca de 8 mil pessoas passaram pelo local. Ficavam reunidas em condições precárias, recebiam alguma alimentação e eram vigiadas para que não circulassem livremente pela capital.


Foi essa seca que Rachel de Queiroz retratou anos depois no romance O Quinze, publicado em 1930. A estiagem marcou a infância da escritora e levou sua família a deixar o Ceará temporariamente.

A parte que mais me incomoda vem depois. Em vez de olhar para o Alagadiço como uma vergonha que não deveria se repetir, o poder público entendeu que aquela forma de contenção tinha funcionado.

A receita ficou guardada.

1932: sete campos em seis municípios

Na seca de 1932, os campos voltaram em escala muito maior. Foram sete espaços distribuídos por seis municípios: dois em Fortaleza, conhecidos como Alagadiço e Urubu, além de campos em Ipu, Quixeramobim, Cariús, Crato e Senador Pompeu.

A localização não foi escolhida por acaso. Os campos do interior ficavam próximos às linhas ferroviárias.

A ideia era interceptar os retirantes antes que eles embarcassem nos trens e chegassem à capital. Quando famílias desesperadas tentavam entrar nos vagões, encontravam passagens suspensas, vigilância e agentes enviados para encaminhá-las aos campos.

O discurso oficial falava em abrigo, alimentação, trabalho e assistência. Na prática, havia barracões improvisados, comida insuficiente, pouca assistência médica e milhares de pessoas vivendo sob controle.

Homens, mulheres e até crianças em condições de trabalhar eram usados na manutenção dos campos e em obras públicas. Sair não era uma decisão simples. Havia guardas, cercas e punições.

Em 30 de junho de 1932, o jornal O Povo publicou o levantamento oficial dos campos. Naquele momento, eram 6.507 pessoas em Ipu, 1.800 nos dois campos de Fortaleza, 4.542 em Quixeramobim, 16.221 em Senador Pompeu, 28.648 em Cariús e 16.200 em Buriti, no Crato.

O total chegava a 73.918 pessoas.

É importante entender esse número. Ele representa o total registrado naquele levantamento de junho, não necessariamente todas as pessoas que passaram pelos campos durante o período inteiro de funcionamento.

Patu: cerca de 20 mil confinados

O Campo do Patu funcionou em Senador Pompeu entre 1932 e 1933. No levantamento de junho, havia 16.221 pessoas registradas ali. Considerando todo o período de funcionamento, a Secretaria da Cultura do Ceará trabalha com a estimativa de que cerca de 20 mil retirantes tenham passado pelo local.

O número de mortes é ainda mais pesado.

Segundo estimativa divulgada pela própria Secult, entre 8 mil e 12 mil pessoas teriam morrido e sido enterradas em valas coletivas na região do Patu.

Não existe uma contagem definitiva. Muitos óbitos não foram registrados, os documentos são incompletos e parte dos arquivos desapareceu. Portanto, 8 mil a 12 mil não é um número exato. É uma estimativa oficial baseada nos registros disponíveis, nos relatos de sobreviventes e nas pesquisas realizadas sobre o local.

Isso não enfraquece o tamanho da tragédia. Pelo contrário. Mostra que milhares de pessoas podem ter morrido sem deixar sequer uma certidão de óbito.

Os ingleses construíram, os retirantes ocuparam

Senador Pompeu fica a cerca de 270 quilômetros de Fortaleza. Entre os sete campos criados em 1932, o Patu é o único que ainda conserva ruínas visíveis das estruturas usadas no confinamento.

Os prédios não foram construídos originalmente para receber retirantes. No começo da década de 1920, a companhia inglesa Norton Griffiths foi contratada para trabalhar na construção do açude do Patu.

A empresa ergueu casas, armazéns, oficinas, hospital, estação ferroviária e outras estruturas para atender aos trabalhadores e engenheiros da obra.

O projeto foi interrompido, os ingleses foram embora e os prédios ficaram abandonados.

Anos depois, o governo encontrou ali uma estrutura pronta, próxima à ferrovia e afastada da capital. Em 1932, o que tinha sido construído para apoiar uma obra de engenharia virou campo de concentração.

Além dos edifícios de alvenaria, muitos retirantes ficaram em barracões improvisados ou até ao relento. Faltavam comida, remédios, água em condições adequadas e espaço para tanta gente.

Relatos de sobreviventes falam de fome, febres, cólera e mortes que se acumulavam. Alguns homens eram obrigados a abrir as próprias valas onde os corpos seriam enterrados.

As Santas Almas da Barragem

Depois que o campo foi desativado, a memória não desapareceu completamente. Ela ficou nas famílias de Senador Pompeu, nos relatos dos sobreviventes e no pequeno cemitério próximo à barragem.

As vítimas, muitas delas desconhecidas, passaram a ser chamadas de Almas da Barragem ou Santas Almas da Barragem. Moradores começaram a visitar o local, fazer orações e levar objetos em agradecimento por graças que atribuíam àquelas almas.

A devoção popular já existia quando o padre italiano Albino Donati chegou à cidade, em 1981. Depois de ouvir as histórias dos moradores, ele ajudou a organizar a primeira Caminhada da Seca, realizada em 1982.

Desde então, no segundo domingo de novembro, milhares de pessoas saem de madrugada da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores e seguem até o Cemitério da Barragem.

Alguns participantes levam pão e água, lembrando a fome e a sede enfrentadas pelos retirantes. Outros caminham porque tiveram parentes no campo ou cresceram ouvindo as histórias de quem sobreviveu.

É religião popular, memória familiar e denúncia histórica caminhando pela mesma estrada.

O tombamento demorou décadas

A luta pela preservação das ruínas ganhou força na década de 1990, principalmente por causa do trabalho de moradores, estudantes e integrantes do grupo cultural 19-22.

Em 1996, reportagens do jornal O Povo mostraram que até órgãos públicos responsáveis pela área desconheciam a importância histórica das construções.

O sítio recebeu proteção municipal em 2019. Em 27 de novembro de 2023, foi assinado o decreto de tombamento definitivo do Sítio Histórico do Patu como patrimônio cultural do Estado do Ceará.

Foram mais de noventa anos entre o funcionamento do campo e o reconhecimento estadual definitivo.

Por que quase ninguém aprende isso na escola?

Uma das principais referências sobre o assunto é o livro Campos de concentração no Ceará: isolamento e poder na seca de 1932, da historiadora Kênia Sousa Rios.

A obra foi publicada originalmente pelo Museu do Ceará e pela Secretaria da Cultura do Estado em 2001. Em 2014, ganhou uma edição revista e ampliada pela Universidade Federal do Ceará.

A pesquisa mostra que os campos não foram uma consequência automática da seca. A estiagem criou a crise, mas o confinamento foi uma escolha política e administrativa.

Essa diferença é importante.

O clima não construiu cercas, não colocou soldados na entrada e não decidiu quem poderia pegar o trem. Tudo isso foi organizado por pessoas e instituições.

Em 2019, o filme Currais, dirigido por Sabina Colares e David Aguiar, ajudou a levar o assunto a um público maior. A produção mistura documentário e ficção para reconstruir as memórias deixadas pelos campos de 1932.

Tomaz Pompeu Sobrinho, escritor e estudioso das secas, deixou uma frase que resume um lado ainda mais incômodo dessa história. Para a maioria, as secas de 1915 e 1932 foram devastadoras. Mas “para alguns fora um grande inverno verdejante”.

Havia quem lucrasse com contratos de obras, fornecimento de alimentos e utilização de mão de obra barata. Enquanto milhares procuravam um prato de comida, outros enxergavam negócio.

Na minha opinião, o silêncio em torno dos campos não aconteceu apenas por descuido. É mais confortável contar a seca como tragédia natural do que falar das decisões tomadas pelo governo e pelas elites diante daquela população faminta.

Quando a responsabilidade fica toda no clima, as cercas desaparecem da história.

A seca não construiu os currais

Eu passei boa parte da infância ouvindo falar de seca como se fosse apenas uma questão de chuva. A água faltava, a plantação se perdia, o gado morria e as famílias precisavam deixar a terra.

Era assim que a história normalmente chegava.

Ninguém me contou que, em 1915 e 1932, uma das respostas do poder público foi cercar o pobre, controlar seus movimentos e impedir que ele chegasse à capital.

A estiagem vinha do clima. Os currais, não.

Os currais foram decisão de gente.

Dicas para Conhecer o Sítio Histórico do Patu

O Ceará que me criou tem praias, serras, cidades antigas e essa cicatriz. Eu prefiro conhecer a cicatriz a fingir que ela não existe.

Quem morreu no Patu não ganhou nome na cova. O mínimo que a gente pode dar agora é lembrança.

E você, já tinha ouvido falar dos currais do governo? Se sua família viveu alguma das grandes secas do Ceará, alguém guardou uma história daquele tempo?

Veja outros relatos e pesquisas sobre o Ceará aqui no blog.

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