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Amazônia de 1818: como a notícia corria antes do viajante

·8 min de leitura·por Helio Pere
Amazônia de 1818: como a notícia corria antes do viajante

Cheguei tarde nos livros do Laurentino Gomes. Estou lendo a série de história do Brasil agora, pela primeira vez, sempre à noite, antes de dormir, que é o horário em que o livro costuma ganhar do leitor. Numa dessas noites eu parei na página 240.

O trecho conta que, antes de dois estrangeiros chegarem numa aldeia no meio da Amazônia, a aldeia já sabia que eles vinham. Sabia que eram dois. Sabia que eram brancos. E no dia seguinte já sabia se eles estavam comendo ou dormindo. Isso em 1818. Sem fio, sem antena, sem energia.

Antes de você continuar

O que vem daqui pra frente junta três coisas que eu não esperava encontrar na mesma página de um livro: uma tecnologia de comunicação que funcionava sem eletricidade, um personagem que me deixou bem desconfortável, e um detalhe sobre o fim dessa expedição que quase nenhum livro conta. Tem também dois pontos em que eu discordo do texto que estou lendo, e vou explicar por quê. Se você acha que já sabe como termina a história dos naturalistas que catalogaram o Brasil, segura a leitura até o fim.

Dois bávaros que o livro chamou de austríacos

Os homens que chegaram naquela aldeia eram Johann Baptist von Spix, zoólogo, e Carl Friedrich Philipp von Martius, botânico. A cena está no capítulo chamado Os viajantes, do livro 1808. Livro sério, jornalismo bem feito. Mas ali os dois aparecem como botânicos austríacos, e não é bem isso.

Eles eram bávaros, de Munique. Vieram a convite do rei Maximiliano I José da Baviera, encaixados na comitiva que acompanhou a arquiduquesa Leopoldina ao Brasil pro casamento com D. Pedro. A expedição inteira ficou conhecida como Missão Austríaca, e é daí que nasce a confusão. Partiram de Trieste e chegaram ao Rio de Janeiro em julho de 1817, conforme os registros do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, que montou uma exposição de bicentenário sobre a viagem em 2017.

Em três anos eles cruzaram mais de dez mil quilômetros de Brasil. Rapaz, dez mil quilômetros em 1817 é coisa de outro mundo. Sem estrada, sem posto de gasolina, sem GPS reclamando que você saiu da rota. A conta da bagagem que voltou pra Munique está no próprio livro: 85 mamíferos, 350 aves, 130 anfíbios, 116 peixes, 2.700 insetos, 80 aracnídeos e 6.500 plantas. O relatório saiu na Alemanha em três volumes, publicados entre 1823 e 1831, e continua sendo referência no estudo das ciências naturais no Brasil.

O telégrafo de madeira que ninguém patenteou

O instrumento se chamava trocano. Uma tora oca, ou escavada, que os povos do Alto Solimões batiam pra mandar recado. Dependendo da batida, a mensagem mudava. As aldeias vizinhas ficavam sabendo que a tribo tinha acabado de receber dois homens brancos. Ficavam sabendo até de coisa miúda, tipo que naquele momento os visitantes estavam comendo.

Funcionou tão bem que, no dia seguinte à chegada de Spix e Martius, apareceram centenas de indígenas vizinhos, curiosos pra ver quem eram aqueles sujeitos que surgiram do nada. Olha só o tamanho disso: a notícia correu mais rápido que os próprios viajantes. Eu, que já rodei estrada no interior do Paraná procurando uma barra de sinal em cima do teto do carro, fico pensando que aquele tambor tinha cobertura melhor do que muita operadora tem hoje.

Aí que tá o ponto que me incomodou na leitura. O livro descreve o trocano como um telégrafo primitivo e chama as pessoas que o usavam de "seres humanos primitivos". Um sistema que transmite mensagem codificada a quilômetros de distância, sem fio, sem bateria e sem manutenção, primitivo é que não é. O adjetivo diz mais sobre quem escreveu do que sobre quem batia o tambor. E o texto aqui está reproduzindo o olhar dos próprios naturalistas, que era o olhar europeu de duzentos anos atrás.

João Manoel, o chefe que comia em prato de louça

O dono daquele pedaço de mundo era um indígena chamado João Manoel, chefe dos miranhas. Pelas contas dos dois pesquisadores, o povo dele somava seis mil pessoas. O poder dele se estendia por uma área duas vezes e meia maior que o atual estado do Sergipe.

João Manoel usava calça e camisa, chapéu na cabeça, fazia a barba todo santo dia e comia em prato de louça, igualzinho aos colonizadores portugueses. Não falava português. Se comunicava na língua geral, o idioma que na época circulava entre a maioria das tribos indígenas do Brasil. E escravizava os povos vizinhos.

Essa última frase costuma sumir das versões românticas da história. A escravidão de indígenas por indígenas existiu, e no Japurá ela estava alimentada por uma demanda que vinha de fora, dos brancos que compravam cativos rio abaixo. Não dá pra tratar isso como curiosidade exótica de um chefe pitoresco. Tinha gente sendo vendida.

E tem uma coisa que ficou em aberto e que eu não consegui resolver por mais que procurasse: não existe registro do que João Manoel achou daqueles dois. Tudo que a gente sabe da cena veio dos diários deles. A versão miranha nunca foi escrita.

A parte que quase ninguém conta

Quando a expedição terminou e a bagagem foi embarcada rumo à Europa, Spix e Martius não levaram só planta e bicho empalhado. Levaram duas crianças indígenas da Amazônia pra Munique. Foram batizadas de Isabella Miranha e Johannes Juri, nomes tirados dos grupos a que pertenciam.

As duas morreram poucos meses depois de chegar na Alemanha, de doenças pulmonares e intestinais. O caso está documentado em pesquisa acadêmica sobre os chamados meninos índios levados a Munique, publicada na revista Artelogie, e aparece também nos estudos da pesquisadora Karen Macknow Lisboa, uma das principais referências brasileiras sobre essa viagem.

Os mesmos homens que catalogaram 6.500 plantas colocaram duas crianças dentro da coleção. Né não? É desconfortável de escrever e deve ser desconfortável de ler. Mas ficar só na parte bonita da ciência do século XIX é mandar recado incompleto.

O próprio Spix pagou caro pela viagem. Morreu em 13 de março de 1826, em Munique, por causa de doenças que pegou no Brasil. Tinha 45 anos. Nasceu numa cidadezinha alemã chamada Höchstadt an der Aisch, nome que eu não consigo pronunciar nem devagar.

O Beethoven que não fecha a conta

Tem um detalhe menor no livro que vale registrar. O texto diz que os dois vinham de Viena, onde Beethoven estava compondo a Quinta sinfonia. A Quinta foi composta entre 1804 e 1808 e estreou em dezembro de 1808. Quando Spix e Martius embarcaram, em 1817, aquela música já era velha de quase dez anos. Funciona bem como efeito literário num livro que gira em torno de 1808. Cronologia, não é.

O que isso tem a ver com quem viaja hoje

Eu vivo chegando em cidade pequena com câmera na mão e drone na mochila, achando que sou eu quem está registrando o lugar. Essa história do trocano virou minha cabeça do avesso. Dois séculos atrás, um sujeito chegou de canoa achando exatamente a mesma coisa, e o lugar já sabia dele antes de a canoa encostar.

Quem viaja gosta de se sentir observador. A verdade é que a gente é observado o tempo todo, desde sempre, e em geral com muito mais atenção do que a gente observa. O dono da pousada já sabe seu nome. O rapaz do posto já reparou na placa do carro. A senhora da esquina já contou pra vizinha que tem gente de fora na rua. A tecnologia mudou. O funcionamento é o mesmo.

E ficou mais uma coisa. Toda vez que eu ler relato de viajante europeu que passou pelo Brasil, e essa série de livros está cheia deles, vou lembrar de perguntar quem não teve direito de escrever a própria versão. As obras do Criador estavam ali inteiras, do mesmo jeito, muito antes de alguém aparecer pra catalogar e dar nome em latim.

Se você quiser ir atrás dessa história

O relato original dos dois se chama Viagem pelo Brasil, tradução de Lúcia Furquim Lahmeyer, e está disponível de graça na Biblioteca Digital do Senado Federal. São três volumes, leitura densa, mas você lê a coisa na fonte em vez de ler alguém contando. O Instituto Spix e Martius mantém material online sobre a expedição, inclusive sobre as catorze canções indígenas que Martius transcreveu em partitura durante a viagem. O blog da Biblioteca Brasiliana da USP tem textos bons sobre o legado científico, e quem quiser análise crítica deve procurar por Karen Macknow Lisboa. Uma última dica, que serve pra qualquer relato de viagem antigo: quando só um lado está narrando, vá atrás de quem ficou calado.

Aquela noite o livro fechou na página 240 e o sono não voltou tão rápido. A tora de madeira já estava naquela aldeia antes de eles chegarem e continuou lá depois que foram embora. O caderno de anotações é que foi pra Munique.

Agora me conta: você já chegou em algum lugar e descobriu que já tinham avisado da sua chegada antes de você aparecer? Como foi que você percebeu?

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Ver o que já escrevi sobre a Amazônia e o Norte.

Ver os relatos das viagens pelo Paraná.

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