Sete e meia da manhã. Eu, minha digníssima e a Marianny em fila no banheiro de um posto de gasolina em Paramirim, na Bahia, cada um com o seu sabonete da mochila, esperando a vez pra tomar banho. Gratuito. Com água boa. Sem tapete encharcado de urina no chão. Se você leu o post anterior, já entende o nível de alívio que aquele chuveiro de posto representou depois de uma noite naquele hotel em Paramirim. Se não leu, corre lá primeiro. O que importa agora é o que veio depois: um dia inteiro de estrada, emoção e perrengue no sertão baiano, que terminou com o acarajé mais barato que já comi na vida e o reencontro com a cidade que me criou. Vem comigo.
- Data: 31 de dezembro de 2025
- Trecho: Paramirim → Caetité → Caculé (BA)
- Distância: Aproximadamente 180 km
- Quem: Eu, minha digníssima e Marianny
- Perrengue do dia: Hotel sem água, banho no posto e mercado de Caculé fechado pela segunda vez consecutiva
- Destaque: Pôr do sol na Lagoa Manoel e reencontro com a cidade da infância
- Achado gastronômico: Acarajé a R$ 4,00 cada. Eu digo quatro reais mesmo.
Banho no posto e café no supermercado de esquina
O banheiro do posto era limpo, a água era boa, e o atendente não perguntou nada. Saímos de lá renovados e prontos pra encarar a estrada. Como diria minha mãe: melhor pingar do que secar. Depois do banho, fomos tomar café num supermercado de esquina ali mesmo em Paramirim. O mercadão municipal da cidade não abre todos os dias da semana, então a opção foi o mercadinho. Simples, sem cerimônia, com aquele café coado de interior que vale mais do que qualquer coisa de cafeteria chique.
Reabastecidos, eu e o Mangabinha (nosso drone) ainda tínhamos trabalho pra fazer antes de sair da cidade. Fui ao Rio Paramirim pra fazer imagens aéreas. Aquele rio existe na minha memória desde que eu tinha 5 anos. Era onde a gente ia se refrescar. E ali estava ele, décadas depois, largo, calmo, com aquela cor de argila que só rio de sertão tem. As imagens ficaram impressionantes. Depois voei também sobre uma lagoa que fica nos arredores da cidade. O sol da manhã ainda baixo, iluminando a água de lado, criava reflexos que nenhum filtro de celular ia reproduzir. Meus irmãos não lembram de Paramirim. Eram mais novos. Mas eu lembro de tudo. E agora tinha as imagens pra provar.
Caetité: almoço no mercadão e mais um pedaço da história da família
Por volta das 10h30 deixamos Paramirim e seguimos para Caetité. E Caetité não é qualquer cidade pra mim: minha família também morou lá. Meu pai percorreu cada rua dessas cidades vendendo nas feiras livres do sertão baiano. Ele tinha o mapa inteiro da Bahia na cabeça, sem GPS, sem aplicativo. Então rodar por esse trecho não é turismo comum. É refazer um caminho que ele já conhecia de cor.
Chegando em Caetité, fomos direto ao mercado municipal, um daqueles mercadões de cidade do interior baiano cheios de opções de almoço. Comemos bem e gastamos pouco, como sempre. Depois do almoço caminhamos pela feira e pela praça pra fazer mais algumas gravações e contar a história da cidade pro canal. Só antes de sair que a gente lembrou que precisava de água gelada pro carro, pois no supermercado de Paramirim só tinha água mineral quente à venda. Acabamos comprando numa farmácia de Caetité. Aquele detalhe de viajante de estrada que só quem está na estrada entende. As gravações foram trabalhosas e demoradas, pois envolviam contar a história em diferentes pontos da cidade, o que gerou vários deslocamentos. No final deu tudo certo e logo depois seguimos viagem. Queríamos chegar antes do anoitecer em Caculé.
Chegando em Caculé: e o mercado estava fechado de novo
Chegamos em Caculé por volta das 16h. E a primeira parada foi no mercado municipal. Fechado. Nosso Deus, foi uma frustração enorme. Sabe por quê? Porque na minha visita anterior a Caculé, em 2023, o mercado estava em reforma. Ou seja: duas visitas consecutivas a Caculé e nenhuma vez consegui entrar no mercado municipal que inauguraram há pouco tempo. É isso mesmo que você leu: duas vezes. Pense numa situação.
Passamos num supermercado pra pegar algumas coisas, rodamos um pouco pela cidade procurando hospedagem e achamos o Hotel e Restaurante Oliveira, por R$ 180,00 pras três pessoas. Depois do Hotel de Paramirim, aquele quarto limpo com chuveiro funcionando parecia o Copacabana Palace. Deixamos as malas e saímos pra explorar a cidade enquanto o dia ainda não tinha acabado.
A cidade que me criou: de rua em rua, a memória que o corpo guarda
Rapaz, já olhei a lista de lugares que visitei desde que comecei esse blog. Manaus, Belém, Porto Seguro, Fortaleza, o litoral do Ceará inteiro. Lugares lindos, experiências que não têm preço. Mas quando me perguntam qual lugar me marcou mais, eu respondo sem hesitar: Caculé. Não pela beleza de cartão-postal. Mas porque foi lá, dos 8 aos 10 anos, que eu cresci. Foi lá que aprendi a andar de bicicleta pagando pra usar a do vizinho, porque a gente não tinha a nossa. Que fui à escola, que brinquei nas ruas, que meu pai chegou um dia com um Chevette 86 zero e o carro pegou fogo no mesmo dia. Ele ficou tão calmo que os vizinhos ficaram mais desesperados que ele. Uma lição de resiliência que eu carrego até hoje.
Fomos pro Bairro W3, que era o bairro do meu tio e nossos prios. As casas continuam simples, as ruas continuam estreitas, as crianças continuam brincando na calçada do mesmo jeito que a gente brincava. Passamos pela pracinha do antigo centro, onde eu gravei contando histórias de quando morava lá. Depois pela praça próxima ao centro atual. Cada esquina era um atalho pra memória. Tem uma continuidade bonita nas cidades pequenas que a gente não encontra nas grandes. Uma geração passa, outra chega, e o jeito de viver o espaço permanece.
O pôr do sol na Lagoa Manoel: imagem que ficou gravada
O ponto alto da tarde foi a Lagoa Manoel Caculé. Quem conhece sabe que a lagoa tem jacarés, o que por si só já é uma história pra contar. Mas o que me pegou de surpresa foi o pôr do sol daquele dia. Estava lindíssimo. O Mangabinha voou e registrou tudo: o verde exuberante ao redor da lagoa (dezembro de chuva deixa a caatinga com um verde que tem urgência, que sabe que vai durar pouco), o reflexo dourado na água, as serras ao fundo escurecendo devagar. Eu fiz gravações contando a história de quando morei ali, com aquele cenário todo por trás. Ficou absurdo de bonito.
Antes de voltar pro hotel, passamos numa sorveteria. Um sorvete simples de cidade do interior, daqueles que custam dois reais e valem dez, só pelo cenário ao redor. Eita coisa boa quando a vida oferece isso no meio de uma tarde no sertão baiano.
O acarajé de R$ 4,00: o achado gastronômico do dia
À noite, depois de tomar banho no hotel, saímos pra caminhar pela cidade. Encontramos uma área com barraquinhas de lanche e um parque de diversões. E foi ali que aconteceu o achado gastronômico mais impressionante de toda a viagem: acarajé a R$ 4,00 cada. É isso mesmo que você leu. Quatro reais. Eu ainda fiz aquela conta mentalmente duas vezes pra ter certeza que não estava enganado.
Pra vocês terem noção do contraste: em Porto Seguro, numa das noites na Passarela do Álcool, eu comi acarajé por R$ 35,00. O mesmo acarajé. A mesma receita baiana de sempre. Na cidade grande do turismo, trinta e cinco reais. No interior, quatro reais. Essa diferença, meu amigo, é o sertão te dizendo que você chegou no lugar certo. A Marianny ainda comprou um espetinho por R$ 10,00. Antes de voltar pro hotel, passei numa barraquinha e peguei uma água de coco por R$ 6,00. Noite redonda, gastamos quase nada e saímos satisfeitos.
O que me agradou muito em Caculé nessa noite foi a tranquilidade da cidade. Sem aquela bagunça intensa de cidades maiores. A gente saiu, comeu, caminhou, e voltou pro hotel com calma. Do jeito que gostamos.
Mini-guia: Caculé e como chegar
Como chegar: Caculé fica no sudoeste da Bahia, a aproximadamente 710 km de Salvador e a cerca de 180 km de Brumado. A rota mais comum de quem vem do sul é pela BR-116 até Vitória da Conquista e depois pela BA-262. Estrada em geral boa, com trechos de serra que pedem atenção, especialmente à noite.
Melhor época pra visitar: Em dezembro e janeiro (período chuvoso) a caatinga está verde e a paisagem ao redor da Lagoa Manoel fica exuberante. No período seco o céu fica mais limpo e a logística é mais tranquila. Nos dois períodos você encontra o interior autêntico da Bahia.
O que ver: A Praça J. J. Seabra, o centro histórico, a Lagoa Manoel Caculé, o Bairro W3, as ruas do antigo centro e as feiras da região. Não é um destino de roteiro turístico convencional. É um destino pra quem aprecia autenticidade de interior.
Hospedagem: As opções são simples. O Hotel e Restaurante Oliveira saiu por R$ 180,00 pras três pessoas, quarto limpo e chuveiro funcionando. Confirme disponibilidade com antecedência se for em temporada de alta. E se puder, confirme também o horário de funcionamento do mercado municipal antes de chegar.
Gastronomia: Procure as barraquinhas de lanche do centro. O acarajé que encontramos saiu por R$ 4,00 cada e estava ótimo. Longe, longe dos R$ 35,00 que cobram nas cidades turísticas da Bahia. O interior tem esses presentes pra quem está disposto a chegar.
Quanto gastamos nesse trecho
Combustível (Paramirim → Caetité → Caculé): Aproximadamente R$ 100,00 (180 km)
Almoço em Caetité (mercadão): R$ 50,00 pras três pessoas
Hospedagem em Caculé (Hotel e Restaurante Oliveira): R$ 180,00 pras três pessoas
Acarajés + espetinho + água de coco à noite: R$ 28,00
Total do trecho: Aproximadamente R$ 358,00 pras três pessoas
Um dia inteiro no sertão baiano com hotel, alimentação e combustível por pouco mais de R$ 350,00 pras três pessoas. Viajar barato não é gastar zero. É fazer cada real render experiência real.
O que ficou desse dia em Caculé
Sei não, viu, mas o sertão baiano tem um poder que poucos lugares têm: o poder de te fazer sentir. Em cada quilômetro daquele dia, de Paramirim a Caetité a Caculé, aparecia um pedaço da minha história no asfalto.
Meu pai não está mais aqui pra fazer essa viagem comigo. Mas de alguma forma, naquelas ruas de Caculé, com o cheiro de terra molhada de dezembro e o pôr do sol incendiando a Lagoa Manoel, ele estava. Estava nas ruas que percorreu. Na cidade onde me criou. Na praça onde eu brincava quando tinha oito anos e ele chegava do trabalho todo dia.
Que privilégio enorme ter tido esse dia. Os melhores destinos não são os mais famosos. São os mais seus. E Caculé é, sem dúvida, o lugar mais meu que existe nesse Brasil afora. Valeu cada quilômetro, cada perrengue, cada hotel sem água, cada banho de posto de gasolina. Você chega onde o turismo de pacote nunca vai te levar.
No próximo post: a volta pra casa e o que ficou de tudo isso
Depois de Caculé, ainda tinha estrada pela frente. Saímos de manhã cedo com destino a Uberlândia, mais de 13 horas de viagem, com paradas, perrengues e aquela mistura de cansaço e satisfação de quem acabou de viver uma das melhores viagens da vida. No próximo post eu conto como foi a volta, o que a gente sentiu ao se afastar do sertão baiano depois de tanto tempo por lá, e o balanço completo dessa aventura de Cascavel ao sul da Bahia e de volta. Fique ligado.
E você, já voltou a uma cidade da sua infância depois de décadas? Já encontrou aquele acarajé de R$ 4,00 que fez você questionar cada real que pagou no litoral turístico? Me conta aqui nos comentários. Esse tipo de história eu leio com muito prazer.
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