Brasil Império: quanto custava receber um título de barão?

Estava lendo meu exemplar físico do livro 1889, de Laurentino Gomes, quando cheguei à parte sobre os títulos de nobreza. Barão, visconde, conde, marquês... Eu sabia que essas honrarias existiam no Brasil Império, mas uma coisa me chamou a atenção: quem recebia um título geralmente precisava pagar um imposto considerável pra conseguir o documento oficial.
Fui conferir os valores e encontrei uma tabela de 1879. Uma carta de barão custava 750 mil réis. Resolvi comparar com o salário de um trabalhador comum da época. Rapaz, que diferença! Só que a pesquisa não parou nessa conta. Comecei a procurar quem eram aquelas famílias e acabei chegando a um escritor brasileiro da atualidade, descendente de um barão do café.
Uma curiosidade puxou outra
O que começou com uma tabela de impostos virou uma investigação familiar. Apareceram sobrenomes conhecidos, pessoas com nomes iguais e documentos que precisaram ser conferidos com cuidado. E o mais curioso estava justamente na ligação entre uma família do século XIX e o mundo dos livros de hoje.
O prestígio tinha preço
No Brasil Império, entre 1822 e 1889, os títulos de nobreza eram concedidos pelo imperador. Podiam reconhecer serviços militares, contribuições ao Estado e outras atividades consideradas relevantes naquela sociedade.
Um caso conhecido foi Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, que recebeu sucessivas honrarias durante sua carreira militar. Mas também havia grandes proprietários rurais, comerciantes e pessoas influentes entre os agraciados.
A riqueza e as relações pessoais tinham peso. Algumas honrarias reconheciam serviços prestados. Outras estavam bastante ligadas à posição social de quem as recebia.
Havia ainda condecorações, como as ordens da Rosa e do Cruzeiro. Receber uma condecoração não significava automaticamente se tornar barão.
Ninguém podia simplesmente chegar com dinheiro e comprar um título. Era necessária a concessão imperial. Depois vinha a formalização por meio de documentos sujeitos ao imposto do selo, com as isenções previstas na legislação.
O preço do título
Encontrei a tabela no Decreto nº 7.540, de 15 de novembro de 1879, disponível no acervo da Câmara dos Deputados.
Os valores cobrados pela emissão das cartas de mercê eram estes:
- Barão ou baronesa: 750 mil réis.
- Visconde ou viscondessa: 1 conto e 25 mil réis.
- Conde ou condessa, incluindo barão ou visconde com grandeza: 1 conto e 575 mil réis.
- Marquês ou marquesa: 2 contos e 20 mil réis.
- Duque ou duquesa: 2 contos e 450 mil réis.
Quem precisasse formalizar um brasão de armas encontrava outra cobrança, de 170 mil réis.
Esses valores foram mudando. Dez anos antes, o decreto de 1869 estabelecia 300 mil réis pra carta de barão. Em 1879, a taxa havia chegado a 750 mil.
Repare também na data do decreto: 15 de novembro de 1879. Exatamente dez anos depois, naquele mesmo dia e mês, a monarquia brasileira chegaria ao fim.
Esse imposto era cobrado pela documentação da honraria. Não havia uma mensalidade pra pessoa continuar sendo barão.
A conta do carpinteiro
Essa é a parte que mais me fez pensar. Laurentino Gomes apresenta no livro 1889 alguns salários de trabalhadores comuns na São Paulo do século XIX.
Um vendedor ambulante podia ganhar entre 280 e 350 réis por dia. Um carpinteiro, alfaiate ou soldado recebia em torno de 600 réis diários, conforme os valores citados pelo autor.
Vamos fazer uma conta simples, considerando 300 dias de trabalho por ano e supondo que a pessoa conseguisse guardar tudo o que recebia.
Pra pagar 750 mil réis, a taxa de barão: um vendedor ambulante precisaria trabalhar aproximadamente de 7 a 9 anos. Já um carpinteiro que ganhasse 600 réis por dia levaria cerca de 4 anos e 2 meses.
Pra pagar 1 conto e 25 mil réis, a taxa de visconde: o vendedor ambulante precisaria de aproximadamente 9 anos e 9 meses a 12 anos e 2 meses. O carpinteiro levaria cerca de 5 anos e 8 meses.
Agora vem o problema dessa conta. Durante todos esses anos, o trabalhador teria que guardar absolutamente tudo. Nada de gastar com comida, moradia, roupa ou qualquer outra necessidade.
Se comprasse o almoço, já atrapalhava a matemática.
Claro que é uma comparação ilustrativa. Os salários apresentados no livro e as taxas de 1879 não correspondem necessariamente ao mesmo ano. Os 300 dias de trabalho também são uma hipótese nossa.
Mas o exercício ajuda a compreender a distância econômica entre um trabalhador comum e os grupos que recebiam essas distinções. E mesmo quem juntasse aquele dinheiro ainda precisaria ser escolhido pelo imperador.
Os barões do café
Outra passagem do livro 1889 trata dos grandes cafeicultores que receberam títulos de nobreza. Laurentino Gomes menciona cerca de 300 proprietários rurais de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro agraciados com honrarias.
Em Vassouras, no interior do Rio de Janeiro, três famílias chamam a atenção pela quantidade de títulos.
Segundo os números apresentados por Laurentino Gomes no livro 1889, os Leite Ribeiro reuniam oito barões e dois viscondes. Os Werneck tinham cinco barões. Já os Avelar contavam com seis barões e três viscondes.
Somando essas três famílias, encontramos 19 barões e cinco viscondes.
Só que existe uma parte dessa história que precisa aparecer junto com os números. Muitas fortunas dos grandes cafeicultores foram construídas com o trabalho de pessoas escravizadas.
Segundo o Arquivo Nacional, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, barão de Pati do Alferes, possuía sete grandes fazendas e mais de mil pessoas escravizadas.
Mais de mil. Fiquei pensando na quantidade de vidas envolvidas na produção daquela riqueza.
Quando estudamos os antigos casarões e as famílias do Vale do Café, precisamos conhecer os dois lados dessa história. Os proprietários ficaram conhecidos pelos nomes e pelos títulos. Já muita gente que sustentou aquela economia sequer teve sua trajetória individual preservada nos registros.
Herança? Não
Uma coisa que eu não sabia é que os títulos brasileiros eram, como regra, pessoais e não hereditários. O filho de um barão não se tornava barão automaticamente depois da morte do pai.
Pra receber uma honraria, precisava haver outra concessão. A influência da família podia ajudar, mas o título não passava simplesmente de uma geração pra outra.
A historiadora Marina Garcia de Oliveira investigou esse sistema numa tese defendida na Universidade de São Paulo em 2019.
Ela identificou 1.138 títulos concedidos durante o Segundo Reinado, entre 1840 e 1889. Desse total, 762 eram baronatos, mais de dois terços das concessões.
Com tantos barões, comecei a me perguntar quem seriam os descendentes dessas famílias atualmente. Foi aí que cheguei ao barão do Ribeirão.
Uma família, seis gerações
José de Avelar e Almeida, conhecido como barão do Ribeirão, foi um cafeicultor da região de Vassouras. Morreu em 1874, deixando uma família numerosa. Os registros genealógicos do GeneaMinas mencionam 14 filhos e 40 netos.
Uma de suas filhas, Bernardina Francisca de Avelar e Almeida, casou-se com Inácio José de Souza Werneck, integrante de outra família conhecida do Vale do Café.
Aqui apareceu uma dificuldade. O casal teve um filho chamado Ignácio José de Souza Werneck. Mesmo nome do pai. Nos registros genealógicos, eles aparecem identificados como primeiro e segundo do nome.
Quem já tentou pesquisar famílias antigas sabe como essa repetição de nomes pode atrapalhar. Se não prestar atenção, a árvore genealógica fica toda errada.
O segundo Ignácio se casou com Delmira Monteiro Caminhoá. Uma das filhas do casal foi Olga Caminhoá Werneck, que se tornou mãe de Carlos Lacerda, nascido em 1914.
Carlos foi jornalista e editor. Teve um filho chamado Sebastião Lacerda, que também trabalhou no mercado editorial. E Sebastião é pai do escritor Rodrigo Lacerda, nascido em 1969.
A sequência familiar, seguindo os registros dos Werneck, fica assim:
José de Avelar e Almeida, barão do Ribeirão; sua filha Bernardina; seu neto Ignácio José de Souza Werneck, o segundo do nome; sua bisneta Olga Caminhoá Werneck; seu trineto Carlos Lacerda; seu tetraneto Sebastião Lacerda; e seu pentaneto Rodrigo Lacerda.
São seis gerações de descendentes, desde o barão até Rodrigo. E essa ligação nos leva a uma história bem diferente daquela das fazendas de café.
Do café aos livros
Rodrigo Lacerda é escritor, editor, tradutor e historiador. Entre suas obras estão O Mistério do Leão Rampante, O Fazedor de Velhos e A República das Abelhas.
Em 1996, O Mistério do Leão Rampante ficou em segundo lugar na categoria Romance do Prêmio Jabuti.
Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 2009 confirma que Rodrigo é filho de Sebastião Lacerda e neto de Carlos Lacerda.
Em junho de 2025, ele também participou do programa Provoca, da TV Cultura, apresentado por Marcelo Tas.
Mas a ligação familiar com o mundo dos livros vai além de Rodrigo.
Seu avô, Carlos Lacerda, fundou a Editora Nova Fronteira em dezembro de 1965. A empresa publicou autores como Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna, Rubem Fonseca e Antoine de Saint-Exupéry.
A editora já não pertence à família. O Grupo Ediouro informa que concluiu sua aquisição integral em 2007.
Foi uma ligação que eu não esperava encontrar quando comecei a pesquisar o preço de uma carta de barão.
Barão virou piada
Com o aumento das concessões, surgiram críticas e brincadeiras sobre a quantidade de nobres brasileiros.
Laurentino Gomes registra no livro um dito popular daquela época:
“Sai daí, cão, que te faço barão!”
Olha só onde foi parar o prestígio do título. Uma honraria que devia representar grande distinção social chegou a ser usada como provocação.
Uma carta de julho
Encontrei ainda um documento curioso no acervo do Museu Imperial, em Petrópolis.
É uma carta datada de 20 de julho de 1889, concedendo a Manuel Salgado Zenha o título de barão de Salgado Zenha.
O registro do museu descreve até o carimbo-seco em alto-relevo, localizado na margem esquerda, com as armas nacionais. No verso da carta está o respectivo registro.
O documento mede 37,8 por 24,8 centímetros.
Era o último ano do Império.
Se você quiser pesquisar essas famílias, olha isso aqui
- Nos documentos antigos, 1:025$000 significa 1 conto e 25 mil réis. Essa escrita costuma confundir quem está começando.
- Pesquise também as grafias antigas dos sobrenomes, como Avellar e Avelar, Souza e Sousa.
- O acervo digital do Museu Imperial permite consultar registros históricos de honrarias e famílias do Império.
- A Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional reúne jornais antigos que podem ajudar a confirmar nomes, datas e acontecimentos familiares.
- Nunca considere um sobrenome igual como prova de descendência. É preciso conferir os vínculos de cada geração.
Uma dúvida continua
Ainda fiquei querendo descobrir descendentes atuais de outras famílias mencionadas no livro, especialmente os Leite Ribeiro. Encontrei registros históricos, mas não consegui ligar com segurança um barão específico a uma personalidade pública de hoje.
Prefiro deixar essa parte sem resposta até encontrar documentos melhores.
E você, quando encontra o nome de um barão numa rua ou num casarão antigo, já teve curiosidade de saber quem foi aquela pessoa e de onde veio a fortuna da família?
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