Jacinto MG: uma rua, chão batido e a pressa de seguir

Entrei em Jacinto por uma rua e saí pela mesma rua. Foi o tempo de cortar a cidade e pegar a BR de novo. Dá pra dizer que passei por lá. Conhecer, não.
A gente vinha de Almenara achando que o pior já tinha ficado pra trás, e não tinha. Ainda faltava chão batido, ainda faltava lama, e o destino era Porto Seguro naquele mesmo dia. Ninguém no carro estava com humor pra turismo. Só que a placa ficou na cabeça, e depois eu fui atrás da história do lugar.
Passei rápido, mas fui atrás
Tem cidade que a gente atravessa em cinco minutos e depois descobre que carrega uma história bem maior do que o tamanho dela. Jacinto é uma dessas. O que eu encontrei quando fui pesquisar mudou o jeito como eu olho pra aquele pedaço do mapa, e tem a ver com um rio, com uma estrada que demorou setenta anos e com uma coisa que eu só fui pensar semanas depois, já em casa.
Uma rua só
O que eu vi de Jacinto cabe em pouca coisa. Casas baixas, comércio de rua, gente na calçada, o movimento normal de fim de tarde numa cidade pequena. O carro cheio de poeira e a gente já com pressa. Não parei, não desci, não gravei nada de jeito.
Aí que tá: naquele dia inteiro foram mais ou menos 200 quilômetros de estrada de terra e umas quatro horas nesse ritmo. Choveu no meio. Teve trecho de lama, teve poça grande, teve derrapada. O medo de atolar era real, porque atolar ali significava passar a noite ali. O asfalto só apareceu bem depois, já em Salto da Divisa.
Então Jacinto, pra mim, foi isso: uma cidade que apareceu no meio de uma tensão e sumiu do retrovisor antes de virar assunto.
A cidade é nova
Quando fui pesquisar, a primeira coisa que me pegou foi a idade do lugar. A gente olha pro interior de Minas e imagina cidade de trezentos anos, ciclo do ouro, casario antigo. Jacinto não é nada disso. Segundo o histórico do IBGE, a primeira casa da região foi construída em 1919. O povoado começou em 1920, com o nome de Barra do Jacinto. Virou distrito em 1938 e só se tornou município em 31 de dezembro de 1943, desmembrado de Almenara.
Isso é ontem, em termos de Brasil. Enquanto Ouro Preto já tinha passado por revolta, apogeu e decadência, ali no baixo Jequitinhonha ainda não tinha casa levantada.
E o município nasceu grande. Na criação, Jacinto era formado por três distritos: a sede, Salto da Divisa e Jordânia. Os dois se soltaram depois, e Santo Antônio do Jacinto também se emancipou, em 1962. Ou seja, a cidade que hoje tem pouco mais de onze mil habitantes já foi a cabeça de um território bem maior. Fonte no histórico do IBGE e nos dados do panorama municipal.
Nome de morador
O nome tem uma origem que eu não esperava. O IBGE registra que, por volta de 1900, um homem chamado Jacinto morreu nas cabeceiras do córrego que banha a região, e o córrego passou a ser chamado assim. A cidade veio depois e herdou o nome do córrego. Que herdou o nome de um sujeito que morreu ali. Olha só o tipo de coisa que a gente descobre quando resolve procurar.
O rio que pararam
Jacinto fica na margem direita do rio Jequitinhonha, na foz do córrego do Jacinto, segundo a própria Câmara Municipal. O Jequitinhonha nasce na Serra do Espinhaço, perto de Diamantina, e corre mais de mil quilômetros até desaguar em Belmonte, na Bahia. É um rio grande, de nome conhecido, e com uma fama que não faz justiça à região.
Aqui vem a parte que mais me impressionou. Na vizinha Salto da Divisa existia a Cachoeira do Tombo da Fumaça, também chamada de Salto Grande, com cerca de 43 metros de queda. Era considerada a principal queda d'água do Jequitinhonha e a atração da cidade. O conjunto chegou a ser tombado pelo estado e protegido por lei municipal em 1998. Um ano depois, em 1999, saiu a licença de instalação da usina de Itapebi, do lado baiano, e as cachoeiras foram submersas pelo reservatório. Isso está registrado na ficha do Iepha, o órgão de patrimônio de Minas.
Passou a existir um lago onde antes existia uma queda de mais de quarenta metros. Jacinto aparece na lista dos municípios afetados por essa barragem. Eu passei sem parar e sem saber de nada disso. Se soubesse, teria parado.
Guerra de 1808
Tem um pano de fundo mais antigo que explica por que aquele pedaço demorou tanto pra ser ocupado. Durante todo o auge da mineração, a faixa entre o Jequitinhonha, o Mucuri e o rio Doce ficou de fora do povoamento organizado. Era mata fechada, território dos botocudos, e a Coroa tinha interesse em manter aquilo fechado pra dificultar o contrabando de ouro e diamante.
Isso mudou de forma violenta. Em 13 de maio de 1808, recém chegado ao Brasil, Dom João assinou uma carta régia mandando fazer guerra ofensiva aos botocudos, dividindo o território em seis distritos e nomeando comandantes pra tarefa. O documento original está digitalizado no acervo da Câmara dos Deputados e vale a leitura, porque o texto não esconde o que era. Registro uma divergência honesta: a carta cita nominalmente o rio Doce, e são estudos posteriores sobre o vale que estendem o efeito dessa política ao Jequitinhonha. Não é a mesma coisa, e eu prefiro dizer isso do que arredondar.
A estrada que faltava
A BR-367 corta Jacinto e liga Almenara a Salto da Divisa, num trecho de 61,6 quilômetros. Essa é a ligação natural do Vale do Jequitinhonha com o sul da Bahia, e é por ali que passa boa parte da madeira de eucalipto que abastece as fábricas de celulose do lado baiano. Também é o caminho de quem sai do interior de Minas rumo às praias.
A pavimentação foi cobrada por décadas. As obras começaram em 2020, orçadas em cerca de 157 milhões de reais, com o Dnit executando junto com o Exército. Em 2024, o Dnit informou que trabalhava na terraplenagem do trecho entre Salto da Divisa e o quilômetro 61,6 e falava em concluir aquele segmento em 2025. Quando eu passei, no fim de 2025, ainda era chão. O comunicado oficial do Dnit está disponível pra quem quiser conferir o histórico.
Como a situação muda de mês pra mês, não vou afirmar como está hoje. Quem for pegar essa rota que consulte o Dnit antes de sair de casa.
Menor que Caculé
Vou ser honesto numa coisa. Enquanto eu passava por Jacinto, não pensei em Caculé nenhuma vez. Estava preocupado com o carro e com a hora. A comparação me veio agora, escrevendo, e eu poderia ter fingido que ela nasceu na hora, mas não nasceu.
Caculé e Caitité, na Bahia, foram as duas menores cidades onde eu já morei. Fui atrás dos números e me surpreendi: Caculé tinha 22.462 habitantes no Censo de 2022, e Caitité, 52.012. Jacinto tinha 11.042 no mesmo censo. Quer dizer, aquela cidade que eu atravessei em uma rua é bem menor do que as duas que eu carrego como referência de cidade pequena. Espalhados em quase 1.400 quilômetros quadrados, o que dá menos de oito pessoas por quilômetro quadrado.
Fica a sensação estranha de ter dirigido por dentro de um lugar assim sem prestar atenção. Isso me incomoda um pouco.
Se você for pegar essa rota, olha isso aqui
- Consulte a situação da BR-367 no site do Dnit antes de sair, porque o trecho está em obras e muda de condição
- Se chover, considere sair mais cedo ou reprogramar o dia. Chão molhado ali vira lama de verdade
- Abasteça em Pedra Azul ou em Almenara. Não conte com posto no meio do trecho
- Leve água e comida no carro. A gente resolveu almoço com marmita de beira de estrada e foi a melhor decisão do dia
- Calcule o dobro do tempo que o aplicativo mostrar para o trecho não pavimentado
E se, diferente de mim, você tiver tempo pra parar de verdade, algumas coisas valem a pena.
Se você parar em Jacinto
- A cidade fica na margem direita do Jequitinhonha, então a beira do rio é o ponto natural pra ver a paisagem e fazer imagem
- Vale conversar com morador antigo. A cidade é de 1919 pra cá, então ainda existe gente que viu quase tudo acontecer
- Porto Seguro fica a cerca de 195 quilômetros, segundo a Câmara Municipal, o que faz de Jacinto uma parada possível pra quem vai à praia
- Horários de comércio e feira mudam em cidade pequena. Confirme com a prefeitura antes de contar com isso
No fim das contas, chegamos em Porto Seguro por volta das oito da noite, com dezesseis horas de estrada nas costas e o carro irreconhecível de tanta poeira e barro. Jacinto virou uma nota mental. Só que a nota mental cresceu depois, quando eu sentei pra pesquisar e descobri a cachoeira que virou lago, a estrada esperada por setenta anos e uma cidade mais nova do que muita gente que mora nela.
Passei rápido demais por um lugar que merecia mais tempo. Vai ficar essa dívida.
Você já atravessou alguma cidade sem parar e só depois, pesquisando, descobriu que perdeu algo que valia a parada? Qual foi a cidade?
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