Eunápolis: passamos de noite e fui atrás da história da cidade

Quando o farol pegou a primeira rua iluminada de Eunápolis, a gente já tinha umas quinze horas de estrada naquele dia. Duzentos quilômetros tinham sido de chão batido, entre Pedra Azul e Salto da Divisa, com lama, poça funda e carro derrapando. O asfalto voltou e, pouco depois, veio cidade grande de verdade: comércio aberto, calçada com gente, movimento de fim de noite.
A gente não parou. Atravessou por dentro do fluxo, sem entrar nos bairros, sem conhecer nada. Uma palavra resumiu o carro inteiro naquele instante: "finalmente".
A cidade que se apelidou sozinha
Passei por Eunápolis achando que era só mais uma cidade grande no caminho de Porto Seguro. Semanas depois, sentado pra pesquisar, descobri que aquele lugar carregou por anos um apelido do tamanho do planeta, e que a conta por trás do apelido não fechava de jeito nenhum. Vem comigo até o fim que eu conto de onde saiu o nome, quem inflou os números e o que sobrou dessa história hoje.
O que deu pra ver da janela
Vou ser honesto com você. Eu não conheço Eunápolis. Eu atravessei Eunápolis. O que ficou foi impressão de janela de carro, e impressão de janela de carro é pouco. Vi avenida larga, loja ainda aberta num horário em que muita cidade do interior já baixou a porta, gente circulando, aquele tipo de movimento que só existe onde o comércio manda.
Na hora eu calculei de cabeça uns cinquenta quilômetros até Porto Seguro. A pesquisa depois me corrigiu, e olha só que coincidência boa: o trecho da BR-367 entre as duas cidades tem sessenta e quatro quilômetros. Esse número é justamente a origem do nome antigo do lugar.
Antes era só o 64
Eunápolis nasceu de um acampamento de trabalhadores. Homens que abriam o ramal ligando Porto Seguro à estrada que viria a ser a BR-101 levantaram barracos ali por volta de meados dos anos 1940, esperando as empreiteiras que continuariam a obra. O ponto ficou conhecido como Quilômetro 64, pela distância até Porto Seguro. Antes de virar Eunápolis, o lugar também atendeu por Ibiapina e Nova Floresta, conforme o registro histórico do IBGE.
O nome atual homenageia Eunápio Peltier de Queiroz, engenheiro agrimensor que era secretário de Viação e Obras da Bahia em 1954 e comprou as terras que permitiram o povoado se espalhar. Eunápio mais polis, cidade em grego. Cidade de Eunápio. Aqui vale a ressalva: as fontes locais divergem sobre o tamanho exato da área comprada e até sobre o nome de uma das fazendas envolvidas. Umas falam em cem hectares e nas fazendas Boa Vista e Gravatá, outras em cinco alqueires e Boa Nova e Gravatá. Não tenho como cravar qual está certa.
O maior povoado do mundo
Aí que tá o ponto que me fisgou. Nos anos 1970, no auge do crescimento, apareceu o slogan que virou identidade: Eunápolis, o maior povoado do mundo. As próprias fontes da cidade descrevem a coisa sem rodeio, como autodenominação dos moradores. O povoado aparecia em jornal, revista e televisão como o lugar que mais crescia no país.
Só que o levantamento histórico local estraga a festa com números. Circulava a estimativa de que ali morava entre cento e cinquenta e duzentas mil pessoas. A população real girava entre cinquenta e sessenta mil. Detalhe que salva o orgulho: mesmo essa conta menor era maior do que a de cada um dos dois municípios donos do território, já que o povoado pertencia a Santa Cruz Cabrália e a Porto Seguro ao mesmo tempo.
Rapaz, isso mexeu comigo. Um povoado que era administrado de fora, sem prefeitura própria, e que já tinha mais gente do que as duas sedes que mandavam nele. Uma monografia da UNEB apresentada num encontro da ANPUH trata o slogan como discurso, levantando a hipótese de que grupos políticos espalharam a ideia de grandeza pra se colar no progresso da região. Tinha até uma proposta de gestão vendida como levar o povoado do lixo ao luxo.
Eu acho que as duas coisas convivem. O crescimento foi real, o comércio era real, a migração era real. A conta é que foi esticada.
Duas datas pro mesmo plebiscito
Quando fui atrás da emancipação, tropecei numa divergência que preciso registrar aqui. Parte das fontes coloca o plebiscito em 7 de fevereiro de 1988, com 21.897 votos pelo sim contra 121 pelo não. Outra parte, inclusive páginas que reproduzem a história oficial do município, dá a data de 17 de fevereiro de 1988. Procurei em mais de um lugar e as duas versões continuam circulando lado a lado. Fico com o registro da divergência.
O que não tem discussão é o desfecho: a Lei estadual 4.770, sancionada pelo governador Waldir Pires em 12 de maio de 1988, criou o município, desmembrando de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália uma área que hoje passa de mil e quatrocentos quilômetros quadrados. E tem uma passagem curiosa numa das versões locais, que eu repasso como o que é, versão local sem confirmação oficial que eu tenha encontrado: contam que faltaram votos pro sim e que eleitores favoráveis votaram mais de uma vez pra garantir o resultado. Guarde isso como relato de memorialista, não como fato apurado.
Serraria, eucalipto e loja aberta
A economia de Eunápolis conta a história do extremo sul baiano inteiro. Com a conclusão do trecho da BR-101 na região, em 1973, veio o ciclo madeireiro. Centenas de serrarias, mata atlântica derrubada, tronco saindo pra Bahia e pro Brasil, dinheiro girando, gente chegando, médico, contador, advogado, autopeça, oficina. O povoado virou o grande fornecedor de produtos e serviços da microrregião, segundo o resgate histórico do jornalista Teoney Guerra.
A ironia é cruel. A emancipação chegou em 1988, justamente quando a proibição da derrubada da mata nativa fechou quase todas as serrarias e jogou a região numa crise braba. A cidade nova nasceu junto com o desemprego.
O ciclo seguinte foi o eucalipto e a celulose. A fábrica da Veracel entrou em operação em Eunápolis em 2005, com produção que hoje passa de um milhão de toneladas por ano. O comércio, que já era a vocação do lugar desde o tempo do barraco de beira de estrada, seguiu firme. O IBGE registra 113.710 habitantes no Censo de 2022 e estimativa de 121.067 pessoas em 2025. O tal maior povoado do mundo virou cidade média de verdade, quase quarenta anos depois.
O acidente na saída
Minha digníssima e eu já estávamos contando os minutos quando o trânsito parou na saída da cidade. Acidente na pista. Ali não tem desvio, não tem alternativa, não tem jeito. Parou todo mundo.
Ficamos uns vinte e cinco minutos parados. E aconteceu aquilo que só acontece em estrada: os motoristas foram descendo dos carros. Ficaram em pé, no escuro, conversando entre si, esperando liberar. Ninguém buzinando, ninguém brigando. Gente de pé no asfalto trocando ideia sobre uma coisa que ninguém ali podia resolver.
Quando liberou, foram sessenta e quatro quilômetros até o hotel. Chegamos em Porto Seguro por volta das oito da noite, com dezesseis horas de estrada no corpo.
Ver outros relatos da estrada na Bahia: busca no blog por Bahia e estrada.
Se você for passar por Eunápolis, olha isso aqui
- A cidade fica no entroncamento da BR-101 com a BR-367. Quem vai de carro pra Porto Seguro passa por ali obrigatoriamente
- É o maior centro de comércio e serviços da região. Se precisar resolver alguma coisa antes da praia, resolva ali e não em Porto Seguro
- São 64 km até Porto Seguro pela BR-367. Calcule pelo menos uma hora, mais na alta temporada
- Trecho sem desvio: qualquer acidente na pista para tudo. Deixe folga no horário se tiver check-in marcado
- Quem gosta de história pode procurar a praça Eunápio Peltier de Queiroz, conhecida como praça do Jacaré. É onde ficava o acampamento que deu origem à cidade
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