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Praia do Gunga: o passeio de buggy que hoje é proibido na areia

·7 min de leitura·por Helio Pere
Praia do Gunga: o passeio de buggy que hoje é proibido na areia

O bugueiro perguntou se era com emoção. A gente respondeu que sim, porque naquela hora a resposta é sempre sim. Uns dez segundos depois eu estava com areia na boca, no olho e dentro da orelha, segurando o celular com uma mão e me agarrando na barra do buggy com a outra.

Filmei tudo. E tudo saiu tremido. Era 2015, eu ainda não produzia conteúdo pra internet, não tinha drone, não tinha estabilizador, não tinha nada além de um celular e muita vontade. Estávamos em Maceió comemorando três anos de casados, e quem nos levou pra conhecer a Praia do Gunga foi a Vívia, nossa amiga que mora na região.

Tem uma coisa nesse passeio que mudou

Voltei a olhar essas fotos dez anos depois e percebi que uma parte do que a gente viveu naquele dia hoje funciona de outro jeito. Vou contar primeiro como foi, do começo ao fim, e lá pelo meio você vai entender por que eu falo isso.

Como o Gunga entrou no roteiro

A viagem inteira nasceu por causa da Vívia. A gente queria visitar a amiga e as passagens pra Maceió estavam entre as mais em conta naquele período. Juntou tudo e viramos a semana em Alagoas. Alugamos um carro logo de cara, e essa foi a melhor decisão da viagem, porque abriu o litoral inteiro pra gente. Com carro, a Vívia ia junto e ia indicando os lugares.

Ela também nos acompanhou no bate e volta até Porto de Galinhas, em outro dia. Mas o Gunga é o passeio que ficou marcado, e eu vou explicar o motivo.

A praia que não fica em Maceió

Aqui vai a informação que quase ninguém guarda: a Praia do Gunga fica no município de Roteiro, no litoral sul de Alagoas, a uns trinta e poucos quilômetros de Maceió. O povo vende como se fosse praia da capital, e ela nem vizinha da capital é. A confusão aumenta porque a Barra de São Miguel fica bem ali do lado, e muita gente jura que o Gunga pertence à Barra.

A geografia do lugar é o que faz a diferença. O Gunga é uma península. De um lado, a Lagoa do Roteiro, com água parada e morna. Do outro, o mar aberto, com recifes que seguram a onda de manhã e liberam a bagunça à tarde. No meio disso tudo, um coqueiral que se perde de vista, dentro de uma fazenda particular. Você chega e leva um tempo pra entender que aquele tapete verde não acaba.

Com emoção

O passeio de buggy até as falésias é o carro-chefe do lugar. Naquela época, o trajeto era pela areia batida da praia, colado no mar. O bugueiro acelerava, jogava o traseiro do carro de lado, e a gente ia rindo e engolindo vento.

Eu sou cearense, cresci tomando sol de cabeça e já tinha andado de bugre em Morro Branco. Mesmo assim, areia na cara em movimento continua sendo areia na cara. Levantei o celular pra filmar achando que ia sair alguma coisa aproveitável. Rapaz, saiu tudo tremido. Dez anos depois eu revi aquele vídeo e não consegui identificar nem qual pedaço era mar e qual era falésia.

Do valor eu não faço a menor ideia. Não anotei nada, não guardei recibo, não tinha nem o costume de registrar preço na época. Se alguém quiser o número exato de 2015, não vai sair de mim.

Em cima das falésias

Quando o buggy para, o cenário muda de assunto. As falésias do Gunga são paredões de areia compactada em camadas, do vermelho ao amarelo, com faixas esbranquiçadas no meio, como se alguém tivesse pintado listra por listra. Obras do Criador que a chuva e o vento vão desenhando devagar.

A gente subiu. Tirou foto encostado na parede, foto de braço aberto, foto em cima da pedra, foto abraçado. Minha digníssima e a Vívia acharam um ângulo atrás do outro. Eu fiquei um tempo só olhando o desenho das camadas, porque de perto dá pra ver que cada faixa tem uma textura diferente.

Vale um aviso: falésia é estrutura instável por natureza. Areia compactada solta pedaço sem avisar. Subir com calma e não se pendurar em beirada é o mínimo.

Antes de seguir, separei o que o texto não cobriu sobre o passeio em si.

Se você for fazer o passeio de buggy no Gunga, olha isso aqui
  • O buggy leva até quatro passageiros e quem dirige é o condutor credenciado. O quadriciclo leva dois e você mesmo pilota, seguindo o guia em fila.
  • O circuito dura cerca de uma hora e inclui parada nas falésias e numa lagoa.
  • Os valores variam bastante de um receptivo pro outro. Pergunte o preço antes de embarcar e confirme se é por pessoa ou pelo buggy inteiro.
  • Vários operadores só aceitam os opcionais em dinheiro vivo. Leve espécie e não conte com cartão nem pix.
  • Se for filmar, use alça de mão ou cordinha no celular. O balanço é de verdade.

O que mudou de lá pra cá

Aquele trecho pela areia que a gente fez não é mais liberado. A faixa de praia do Gunga é área de desova de tartarugas, e o tráfego de veículos sobre a areia foi proibido justamente por isso. Hoje o passeio segue por dentro do coqueiral, num caminho paralelo, sem perder o mar de vista.

Eu acho a mudança acertada. Ninho de tartaruga fica enterrado na areia e some da vista de quem está dirigindo. Não dá pra manter buggy passando por cima disso em nome da adrenalina do turista. Perdeu-se um pedaço de emoção e ganhou-se uma praia que continua existindo daqui a trinta anos.

Quem for hoje vai fazer um passeio mais tranquilo do que o meu. Continua bonito, continua valendo, e chega no mesmo lugar.

Dicas práticas pra planejar o dia no Gunga
  • O acesso por terra é pela AL-101 Sul, entrando no Gunga. De carro alugado dá tranquilo e você paga estacionamento no local.
  • Dá pra chegar de lanchinha saindo da Barra de São Miguel, com parada no aquário natural e num banco de areia. A travessia leva de vinte a trinta minutos.
  • Na entrada da praia fica o Mirante do Gunga, uma torre de observação com vista da lagoa, do coqueiral e do mar. Cobra taxa e a subida é por escada em caracol, sem elevador.
  • Manhã com maré baixa é o melhor horário de banho. À tarde o mar do lado aberto fica mais agitado.
  • Não existe hospedagem dentro do Gunga. Quem quer dormir perto fica na Barra de São Miguel; quem quer estrutura de cidade fica em Maceió mesmo.
  • Cadeira, guarda-sol e ducha são cobrados por cada barraca, cada uma com sua regra. Confirme o valor antes de sentar.

O registro tremido

Olha só o que sobrou daquele dia: um punhado de fotos boas e um vídeo que não serve pra nada. As fotos ainda mostram as camadas da falésia, a gente subindo o paredão, o buggy amarelo parado na areia. O vídeo mostra o interior do meu bolso e uns borrões coloridos.

Hoje eu viajo com drone, com câmera de bolso, com bateria reserva e com uma rotina de conferir tudo antes de sair do lugar. Naquela época eu só estava passeando. Levei dez anos pra perceber que aquele passeio virou documento de uma coisa que acabou.

E você, se tivesse que escolher entre o buggy pela areia do jeito antigo e a praia protegida do jeito de hoje, ficaria com qual?

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