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Bodega do Sertão: a última janta da nossa viagem a Maceió

·7 min de leitura·por Helio Pere
Bodega do Sertão: a última janta da nossa viagem a Maceió

A parede era de taipa. No telhado, bandeirinha de papel colorida pendurada de ponta a ponta. Numa prateleira ao lado da escada, três mamulengos de louça olhavam pra quem passava, um de vestido vermelho, outro de terno. Do lado de fora daquela porta estava a orla de Maceió, com aquele calor de sempre. Do lado de dentro, sertão.

Era a última noite da viagem. A gente tinha combinado de jantar com a Vívia, aquela amiga que até então a gente só conhecia pela internet, e o encontro ficou pro fim da semana de propósito. Ela e o marido escolheram o lugar. A gente só chegou e sentou.

A noite que fechou a viagem

Tem lugar que a gente lembra pela comida. Tem lugar que a gente lembra pela parede. Esse aqui eu lembro por causa de uma placa pregada numa tábua de madeira, escrita de um jeito que só quem é do Nordeste entende de primeira. Vem comigo até o fim que eu conto qual foi.

Sertão na orla

O Bodega do Sertão fica no Jatiúca, num pedaço de Maceió cercado de prédio e de restaurante de frutos do mar. Aí você entra e o cenário muda inteiro. Parede de taipa, telha aparente, mezanino de madeira, luminária pendurada, artesanato logo na entrada. A casa tem até um espaço construído em formato de um bule gigante, que é o cartão de visita do lugar.

Segundo as reportagens locais, a casa é tocada pela família Freire e já colecionava prêmio de comida regional bem antes da gente aparecer por lá (Encontra Maceió). Naquela noite eu não sabia nada disso. Só sabia que tinha entrado num lugar que parecia casa de interior e que estava lotado num dia de semana comum.

Pra quem mora no Paraná há tantos anos como eu, entrar ali deu um efeito estranho. Aquele cheiro, aquela decoração, aquela toada de fala. Cearense reconhece o próprio sotaque de longe, né não? Foi tipo entrar na casa de uma tia que eu nunca tinha visitado.

A mesa comprida

O serviço é de buffet. E não é aquele buffet de três travessas mornas. Nas fotos que eu fiz aparece uma mesa comprida, dessas que atravessam a sala inteira, coberta de travessa atrás de travessa, cada uma com uma tampa de vidro em cima. No fundo, a cozinha aberta, com o cozinheiro de touca branca trabalhando na frente de todo mundo. Numa mesa menor, forrada com toalha de estampa florida bem colorida, ficava outra fileira de panelas.

A casa é conhecida pelas receitas do sertão: macaxeira, arroz com queijo coalho derretido, mungunzá, as cocadas e as sobremesas de tapioca. Doce ali não é enfeite no fim da mesa, é departamento próprio.

Sobre preço eu vou ser sincero com você: eu não anotei. Em 2015 eu ainda não produzia conteúdo, viajava só como turista mesmo, e conta de restaurante não entrava em caderno nenhum. Hoje eu anoto até o valor do litro do etanol no posto de beira de estrada. Naquela época eu fotografava o mamulengo e esquecia a nota fiscal. Pra você ter uma referência atual, guias de viagem publicaram em 2025 o buffet por quilo na faixa dos cento e poucos reais e pratos à la carte começando bem abaixo disso (Dicas de Viagem). Mas isso muda de ano pra ano, então trate como referência e não como promessa.

As placas da parede

Agora vem a parte que me ganhou. O lugar é cheio de plaquinha escrita à mão, e o humor delas é do tipo que não precisa de explicação.

Na entrada do espaço do bule, uma faixa laranja anunciava: "Bule climatizado". Na porta do banheiro, uma tábua pintada avisava "Home e Muié", e logo abaixo, numa placa menor, "Privada". E pregada numa madeira escura, quase escondida, a que virou minha favorita: "Ual Fai Zone".

Rapaz, eu ri sozinho. Wi-fi escrito exatamente como o povo pronuncia. Não tem tradução, não tem ironia, não tem placa de designer. É a fala do dia a dia pregada na parede, sem pedir licença. Aquilo ali diz mais sobre o Nordeste do que muita frase bonita de folheto de turismo.

Quem estava na mesa

Éramos quatro: eu, minha digníssima, a Vívia e o marido dela. As fotos daquela noite são quase todas iguais, sempre o mesmo canto de parede de taipa ao fundo, sempre os copos de suco na mesa, sempre alguém rindo no meio do clique. É o tipo de sequência que a gente faz quando está feliz e não quer que a mesa acabe.

Aquela viagem tinha começado justamente por causa dela. A gente escolheu Maceió porque a passagem estava em conta e porque tinha uma amiga morando lá, que até então só existia na tela do computador. Uma semana depois, essa amiga estava sentada na nossa frente, escolhendo restaurante pra nossa despedida. Fecha um ciclo bonito, esse.

O que a foto guardou

Confesso uma coisa: metade das fotos daquela noite está tremida. Tem uma das bandeirinhas do teto que saiu completamente desfocada, só um borrão colorido. Tem outra dos mamulengos que ficou escura demais. A câmera era da época, a luz do salão era amarela e baixa, e eu não fazia a menor ideia do que era estabilizar imagem.

Onze anos depois, olhando o arquivo, foi exatamente esse material torto que segurou a lembrança. A conta eu esqueci. O nome do garçom eu não anotei. A música que tocava eu não sei dizer. Mas o borrão colorido das bandeirinhas ainda me põe sentado naquela mesa.

Numa das fotos da mesma leva, tirada da rua, a orla aparece molhada, com os postes refletindo no asfalto e uma palmeira no primeiro plano. Deve ter caído chuva em algum momento daquela noite. Isso eu não lembro. Mas a foto lembra por mim.

No dia seguinte era arrumar mala e voltar pro Paraná.

Se você estiver montando um roteiro por Maceió, anota algumas coisas antes de sair de casa.

Se você for jantar por lá, olha isso aqui
  • Fica no bairro Jatiúca, na Av. Dr. Júlio Marques Luz, 62, perto da orla
  • Horário e valores mudam bastante e as fontes na internet se contradizem. Confirme por telefone no (82) 3327-4446 antes de ir
  • Funciona com buffet e também com opções à la carte. Dá pra ajustar ao bolso escolhendo o formato certo
  • Vaga na porta é limitada. Se for de carro em alta temporada, saia com tempo sobrando
  • Relatos recentes falam em espera nos horários de pico. Jantar cedo resolve
  • Na entrada tem artesanato e doces à venda. Boa parada pra lembrancinha sem precisar caçar loja depois
  • Guarde espaço pra sobremesa. É a parte mais elogiada da casa e não é exagero

Uma última dica que vale pra qualquer viagem, não só pra essa: fotografe a mesa, fotografe a parede, fotografe a placa boba do banheiro. Você acha que vai lembrar. Não vai.

Antes de ir

Se quiser ver os outros relatos dessa viagem, tem mais coisa publicada aqui no blog sobre a mesma semana em Alagoas. Ver outros relatos sobre Maceió.

A viagem terminou ali, numa mesa emprestada de uma amiga que a gente tinha acabado de conhecer pessoalmente, embaixo de bandeirinha de papel. Não teve discurso, não teve despedida solene. Teve prato, teve risada e teve foto tremida.

A conta eu esqueci. A placa do banheiro eu não esqueci.

E você, se já jantou no Bodega do Sertão: aquela plaquinha do "Ual Fai Zone" ainda está pregada na madeira ou tiraram na última reforma?

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