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Praia do Francês e Gunga: cores, placas e o que ficou faltando

·7 min de leitura·por Helio Pere
Praia do Francês e Gunga: cores, placas e o que ficou faltando

A gente não sentou na areia do Gunga. Não pediu nada em barraca, não abriu guarda-sol, não molhou nem o pé direito. A programação daquele dia era o passeio de buggy, e passeio de buggy tem hora pra sair e hora pra voltar. O resto foi janela, câmera na mão e pescoço torcido pra olhar pra trás.

Isso foi em 2015, na semana que passamos em Maceió eu e minha digníssima. Eu ainda não gravava nada pra internet. Tinha uma câmera compacta e a mania de fotografar placa, carrinho de ambulante e cadeira de plástico, coisa que na época parecia bobagem e hoje é justamente o que me deixa escrever este texto.

Passei correndo e mesmo assim não esqueci

Tem lugar que a gente conhece com calma, cadeira, conversa e tempo sobrando. E tem lugar que passa pela janela e fica gravado do mesmo jeito. Gunga e Francês entraram nessa segunda lista pra mim, e eu levei mais de dez anos pra entender o motivo. Vem comigo até o fim que eu te mostro o que as fotos me devolveram.

O Gunga de longe

Primeiro um acerto que quase ninguém faz: a Praia do Gunga não fica em Maceió. Fica no município de Roteiro, a uns quarenta quilômetros ao sul da capital, do outro lado da foz. A gente diz "praia de Maceió" por costume, porque é de lá que sai todo mundo, mas o endereço é outro.

O desenho do lugar é o que faz a fama. É uma ponta de areia que avança no mar bem onde a Lagoa do Roteiro se encontra com o Atlântico. Por causa desse encontro, a cor da água não é uma só: muda com a maré, puxando pro azul quando a maré baixa e ficando mais esverdeada quando as águas se misturam. Em volta, coqueiro. Coqueiro que não se conta, se estima. Cearense que se preze reconhece coqueiral de longe, e mesmo assim aquilo ali me pareceu exagero.

Antes de descer pra praia tem o mirante na beira da estrada, com vista pra plantação de coco e pra ponta lá embaixo. Eu já contei essa parte, junto com o passeio pelas falésias coloridas, em um post que escrevi sobre as falésias do Gunga. Aqui eu quero falar do que ficou fora do buggy.

As cores que sobraram

Revendo as fotos, o Gunga que eu guardei não é o do cartão postal. É o pedaço de trás da barraca. Numa delas aparece uma placa branca com um arco colorido pintado e dois coqueiros desenhados, escrito Arco Íris Restaurante, e embaixo, em letra miudinha, Praia do Gunga/AL. Ao lado, duas caixas de som pretas empoleiradas num pé de madeira fincado na areia, com o fio descendo torto até a tomada.

Tem espreguiçadeira branca de plástico espalhada, uma cerca de bambu grosso, guarda-sóis fechados verdes e azuis encostados, tenda branca armada mais adiante e um coqueiro carregado de coco verde na ponta esquerda do quadro. O céu daquele dia estava esbranquiçado, sem aquele azul de propaganda. E o mar aparece só num pedacinho, no fundo, quase escondido atrás das cadeiras.

Tem uma foto que eu, sinceramente, não sei mais dizer de qual das duas praias é. Um coqueiral inteiro em fileira, meio sumido na névoa, com três pessoas caminhando na beira d'água num dia cinzento. Olhei, virei, ampliei e continuo sem cravar. Deixa assim mesmo.

A parada no Francês

Na volta a gente parou no Francês, que fica em Marechal Deodoro. E aqui eu preciso ser honesto com você: as fontes não combinam sobre a distância. Umas falam em vinte quilômetros até Maceió, outras em trinta e três, dependendo do caminho que se considera. Não vou escolher o número mais bonito. É perto, e é isso que interessa.

Rapaz, o que me pegou ali foi a linha do arrecife. Numa das fotos, tirada de dentro da barraca, entre cadeiras empilhadas, o mar aparece cortado ao meio por uma faixa branca de espuma quebrando sobre a pedra. De um lado, azul escuro. Do outro, um verde mais claro e parado. É como se alguém tivesse riscado o mar com régua. Obras do Criador que a gente olha e fica calado.

É isso que explica a praia. O canto esquerdo é protegido pelos arrecifes e forma piscinas naturais na maré baixa, água morna e rasa, cheio de barraca e movimento. O lado direito é mar aberto, com onda forte e coqueiral, e é onde fica a turma do surfe. Duas praias no mesmo nome. O apelido, segundo a tradição local registrada na página da Praia do Francês, vem dos contrabandistas franceses de pau-brasil que frequentavam o trecho no tempo do Brasil colônia.

Placa, abacaxi e tambor

O que mais me diverte nas fotos do Francês são as coisas sem importância. Uma placa azul-clara escrita à mão, Acarajé da Malu, em letras vermelhas, fincada na areia. Um muro amarelo com A Francesinha pintado em azul, e a escada amarela ao lado toda manchada de limo. Um carrinho verde de puxar, com toldo amarelo, e uma fileira de abacaxis inteiros pendurados na borda do toldo, um do lado do outro, que nem cortina. Um tambor azul de plástico servindo de lixeira no meio da areia. Coco seco jogado, copo caído, uma sacola verde parada perto de um pé de coqueiro.

Ninguém arrumou nada pra foto. Estava assim.

O que eu não anotei

Aí que tá: eu não anotei o valor do buggy. Dez anos depois, não vou inventar preço pra fingir que sou organizado. Naquela época eu viajava pra passear, não pra registrar, e essa diferença aparece na hora de escrever. Se você for hoje, os valores mudaram de qualquer jeito, então confira na hora com o operador.

Uma informação prática que vale saber: o acesso ao Gunga por terra passa por área particular, e há relatos de cobrança pra entrar. O mirante da estrada também costuma cobrar uma taxa de manutenção. Confirme no dia, porque isso muda com o tempo e eu não vou publicar número que não posso conferir agora.

Se você for passar rápido por essas duas praias, olha isso aqui
  • Confira a tábua de marés antes de sair. As piscinas naturais do Francês só existem na maré baixa
  • No Francês, escolha o lado antes de estacionar: esquerda é água calma, direita é onda forte
  • Se contratar passeio fechado saindo de Maceió, pergunte quanto tempo livre você terá em cada parada
  • Pare no mirante da estrada antes de descer pro Gunga. A vista de cima é diferente da vista da areia
  • Leve dinheiro trocado. Acesso, estacionamento e ambulante nem sempre têm máquina

E se sobrar tempo, o entorno tem mais coisa do que parece. Marechal Deodoro foi a primeira capital de Alagoas e virou Patrimônio Histórico Nacional, com casario antigo e ruas que rendem uma caminhada boa no fim da tarde.

O que dá pra fazer por ali além de pisar na areia
  • Caminhar pelo casario e pelas praças do centro histórico de Marechal Deodoro
  • Conhecer o trabalho das rendeiras no Espaço Cultural Santa Maria Madalena
  • Visitar a casa onde nasceu o primeiro presidente do Brasil, hoje espaço de visitação
  • Descer até a Praia do Saco da Pedra, vizinha e bem mais rústica que o Francês
  • Confira horários e funcionamento no dia da visita, porque muita coisa por ali fecha cedo

Dez anos depois

O que eu tirei disso tudo foi uma lição de programação. Quando o roteiro fecha em cima de um passeio só, os lugares em volta viram paisagem de janela. A gente volta pra casa com a foto e sem a memória do pé na areia, que é uma memória diferente, mais grudenta.

Se eu voltar, não vou refazer o buggy. Vou sentar numa daquelas cadeiras amarelas do Francês, de frente pra linha branca do arrecife, e ficar ali sem programação nenhuma. E dessa vez eu anoto o valor.

A câmera voltou cheia naquele dia. Meu pé voltou seco.

E você, já conheceu Gunga ou Francês com tempo de sobra? Me conta aqui embaixo qual dos dois lados do Francês você aproveitou, o das piscinas naturais ou o das ondas, e se valeu a maré que você pegou.

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