Quando eu tinha 15 anos, fiz algo que, pra muita gente, parecia impossível: escrevi um livro inteiro numa máquina de escrever barulhenta, daquelas bem simples. Era só eu, o papel, e as ideias fervendo na cabeça. Não tinha internet, não tinha plano, só uma vontade enorme de colocar no mundo uma história que nasceu dentro de mim.
O que aconteceu depois… foi outra história. Daquelas que a gente só entende com o tempo. E que até hoje me acompanha como uma página que nunca foi virada.
Resumo
- O Quê: Meu primeiro romance, escrito aos 15 anos
- Onde: No estado do Ceará, em casa, escrevendo na sala
- Quando: Início dos anos 90 (1990 a 1991)
- Quem: Eu, com uma máquina de escrever Olivetti simples
- Destaque: A escrita se perdeu numa mudança e nunca mais foi encontrado
- Hoje: Escrevo sobre minhas viagens e experiências reais
O nome do livro e a ideia central
O livro se chamava “O Meu Sonho é Te Encontrar”. Era um romance adolescente, com os protagonistas ainda pré-adolescentes. A história começava com um acidente num trem de carga — uma daquelas tragédias que muda tudo sem pedir licença. A menina acordava sem memória. O menino sumia do mapa, como se tivesse desaparecido do mundo. E a partir dali, cada um seguia seu rumo, com a vida empurrando pra direções opostas. Mas a vida, teimosa como só ela, insistia em fazer os dois se cruzarem outra vez. Era uma história de perda, de vazio, de reencontro. De como algo que parece acabado pode, de repente, se reencontrar. Mesmo que aos pedaços.
Paranaim: a cidade que criei
Inventei uma cidade chamada Paranaim. Me inspirei em Paramirim, cidade da Bahia que já morei com meus pais. Foi lá que meu pai tirou sua carteira de habilitação. Lembro até hoje ele chegando muito feliz ao me contar que deu tudo certo. Eu perguntei: “Passou no exame”. Ele disse: “Diga: Graças a Deus, meu filho”. Eu achava o nome do livro bonito, sonoro, com cara de interior romântico. Era tudo feito com imaginação, baseando nas coisas que eu ouvia e sentia. E com muito sentimento de um adolescente sonhador.
Escrever na sala, sem hora marcada
Escrevia na sala de casa, em qualquer hora do dia. Quando a ideia vinha, eu corria pra máquina. A cada tecla batida, parecia que eu tá vivendo dentro da história. O som seco da Olivetti acompanhava meus pensamentos. Eu achava isso o máximo! Era como se eu controlasse o destino daquelas crianças que eu criei.
Levei meses escrevendo. Não foi um processo rápido, mas também não durou um ano. Foi tudo aos poucos, sem pressa, sem roteiro. Eu não lembrava os nomes dos personagens, mas a essência deles ainda mora em mim.

Quando terminei, fui à gráfica
Quando terminei, fiquei muito feliz. Era um feito. Um livro completo! E logo pensei no próximo passo: publicar. Mas rapaz… olha no que deu. Criei coragem e fui sozinho numa gráfica perguntar quanto custava pra imprimir. O dono me olhou com cara fechada, mas foi respeitoso. Eu, um adolescente franzino, sem adulto junto, falando de livro e publicação. Ele foi educado, mas não me deu esperança. Não tinha registro, editora, nada. Era só o sonho e as folhas batidas na máquina.
Naquela época, eu ouvia muito Mara Maravilha, Rosana, Fábio Júnior, Roupa Nova e Patrícia Marx. As músicas românticas embalaram minha escrita. Talvez por isso o livro fosse tão sensível. As canções falavam de perda, amor, reencontro. Tudo isso foi parar nas páginas que escrevi com o dedo doendo e o coração cheio.

A mudança para Santo André em 1993
A mudança pra Santo André aconteceu em 1993. Fiquei cerca de dois meses por lá. Fui morar num kitnet de um amigo bem mais velho que eu, com idade de ser meu pai. Foi uma loucura. Tentei arrumar emprego, mas o espírito empreendedor falou mais alto. Procurei trabalho vendendo planos de saúde, mas não deu certo. Uns dois meses depois, voltei. Minha família estava em Pirapora, Minas Gerais. Foi só quando cheguei lá que percebi: o livro tinha sumido.
O livro sumiu… e nunca mais apareceu
Tinha deixado ele com conhecidos em Santo André pra lerem. Depois peguei de volta. Mas em algum ponto entre os dias e as caixas da mudança, ele desapareceu. Não adiantava procurar. Não tinha WhatsApp, e-mail, nem celular. Era tudo no escuro. Nunca mais tive notícia.
Tu já perdeu alguma coisa importante assim? Um caderno, uma carta, uma ideia que se foi e não voltou?
A vida adulta e o silêncio que ficou
A perda do livro doeu. Mas doeu de um jeito que me ensinou. Foi ali que percebi que escrever não era só passatempo. Era parte de mim. Parte da minha identidade. Parte do que eu sentia, mesmo sem saber explicar.
Nunca mais escrevi outro livro. A idade chegou, o tempo sumiu. Com 18 anos, comecei meu primeiro emprego de carteira assinada. A vida foi puxando minha energia pra outras responsabilidades. Mas aquele menino de 15 anos… ele ainda vive aqui dentro. Sentado na sala, batendo tecla, sonhando em ver seu livro virando algo grande.
Tu lembra da primeira coisa que tu escreveu na vida?
Hoje, escrevo sobre os lugares que conheci, sobre o que vivi de verdade. Cada post que faço é como se fosse um novo capítulo da minha história. Agora com mais bagagem, mais memórias, mais coragem. Mas com o mesmo coração de antes.
E olha só… o blog onde tu tá lendo isso aqui existe desde 18 de agosto de 2018. Já são anos escrevendo, publicando, dividindo o que eu vivo. Mesmo que aquele livro tenha se perdido, a vontade de escrever nunca mais me deixou.
Um dia, quem sabe, eu ainda reescreva aquele romance. Porque tem coisa que some do papel, mas não some da gente. Nunca.
Em Conclusão: Um sonho que ainda vive em mim
Escrever esse livro foi um marco. Mesmo sem publicá-lo, foi através dele que descobri o que era ter uma paixão. Um projeto que me fazia esquecer o tempo. Hoje, sigo escrevendo com a mesma alma daquele menino de 1990. E mesmo sem ter mais as folhas datilografadas, eu ainda carrego a história inteira aqui dentro.
Tu já teve um sonho que se perdeu com o tempo? Compartilha comigo nos comentários! Quero muito saber.
