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De Caculé a Uberlândia: mais de mil quilômetros de estrada

Deixando o sertão baiano: a longa estrada de Caculé até Uberlândia

5h47 da manhã. O céu ainda estava com aquela cor chumbo de fim de madrugada, a rua de paralelepípedo tinha cheiro de orvalho e o silêncio só era cortado pelo motor do carro ligando.

Foi assim que começamos o primeiro dia de 2026, ainda em Caculé, no sertão da Bahia. Depois de dias intensos passando por Brumado, Rio de Contas, Paramirim, Caetité e pela minha terra, chegava a hora de encarar a viagem de volta pra casa, lá em Cascavel, no Paraná.

E quando eu digo “encarar”, não é força de expressão. Nesse dia, a missão era sair de Caculé e dormir em Uberlândia, em Minas Gerais. Mais de mil quilômetros de estrada, no feriado de Ano Novo, com postos e restaurantes fechados pelo caminho. Já dava pra perceber que o dia seria longo.

Resumo da viagem

Data: 1º de janeiro de 2026

Trecho: Caculé, na Bahia, até Uberlândia, em Minas Gerais

Distância percorrida: aproximadamente 1.050 km no dia

Quem estava na viagem: eu, minha esposa e nossa sobrinha Marianny

Hospedagem anterior: Hotel e Restaurante Oliveira, em Caculé

Valor da hospedagem: R$ 180,00 para três pessoas

Almoço na estrada: R$ 65,00 para três pessoas

Destaque do dia: a mudança de paisagem entre a caatinga baiana e o cerrado mineiro

A última noite em Caculé

A nossa virada de ano foi bem simples. Nada de festa, roupa especial ou programação cheia de firula. Depois da maratona do dia anterior, o que a gente mais queria era banho, cama e silêncio.

Ficamos no Hotel e Restaurante Oliveira, em Caculé. Pagamos R$ 180,00 para nós três e, sinceramente, foi uma hospedagem bem honesta. Quarto limpo, camas boas e chuveiro quente funcionando. Depois de dias rodando, gravando e tomando sol no sertão, isso já vale muito.

Do lado de fora, a cidade comemorava a chegada do novo ano. Eu fiquei deitado no escuro, ouvindo os fogos ecoarem pelas serras. Minha esposa e a Marianny dormiram rápido. Eu ainda fiquei alguns minutos acordado, pensando no quanto era simbólico passar aquela noite justamente na cidade onde cresci.

Caculé tem um peso emocional muito grande pra mim. Meu pai conhecia aquelas ruas, aquelas estradas de terra e aquele comércio como poucos. Ele rodou muito por ali vendendo coisas nas feiras livres pra sustentar nossa família. Voltar àquela terra, dormir ali e depois sair novamente pela estrada dá uma apertada no peito. Não é drama não. É memória mesmo.

Uma volta rápida antes de pegar a estrada

Acordamos cedo, antes das seis. Tomamos café no próprio hotel e, antes de sair de vez, fiz questão de dar mais uma volta de carro pelas ruas centrais de Caculé.

A cidade ainda estava bem quieta, com aquela cara de manhã seguinte à virada de ano. Passamos por lugares que fizeram parte da minha infância, por ruas onde eu brincava, por pontos do comércio que meu pai frequentava e por cantos que talvez pareçam comuns pra qualquer pessoa, mas que pra mim carregam história.

Caculé começou a se formar no fim do século dezenove, numa região ligada à Lagoa Manoel Caculé. Com o tempo, a cidade cresceu com a agricultura, o comércio e a chegada da ferrovia, que ajudou muito no desenvolvimento local. É uma cidade do interior com alma de trabalho, comércio forte e gente acostumada a vencer no braço.

Na hora de ir embora, veio aquela sensação conhecida. Você quer ficar mais um pouco, mas a estrada chama, a rotina espera e a vida segue. A placa de saída foi ficando pequena no retrovisor, e eu fui tentando engolir a saudade junto com o café da manhã.

A BA-262 e o verde do sertão em janeiro

Por volta das 7h, acessamos a BA-262 em direção ao norte de Minas Gerais. O tanque estava cheio, porque abastecemos no dia anterior. E aqui vai uma dica que parece simples, mas faz diferença: em feriado nacional, especialmente no dia 1º de janeiro, não dá pra brincar com combustível.

A estrada estava bem vazia nas primeiras horas. Isso é bom, claro, mas também pede atenção. Em feriado, sempre pode aparecer alguém voltando de festa, cansado ou distraído. Felizmente, pegamos um trecho tranquilo.

O cenário da Bahia nesse período do ano surpreende muita gente. Quem imagina o sertão apenas seco e acinzentado precisa viajar por ali depois das chuvas. A caatinga estava verde, viva, cheia de pequenas plantas brotando com pressa, como se soubessem que a água não fica disponível por muito tempo.

Passamos por morros de pedra, pequenas propriedades, trechos de serra e vendas de beira de estrada que, naquele dia, estavam quase todas fechadas. O sol foi subindo e, antes das 10h, o calor já estava mostrando serviço. O ar-condicionado trabalhava com vontade, mas tinha hora que parecia só um ventilador educado pedindo desculpa.

Entrando em Minas Gerais

Depois de algumas horas de estrada, cruzamos a divisa com Minas Gerais. E uma coisa que sempre me chama atenção nessas viagens longas é como a paisagem muda aos poucos, mas de um jeito muito claro.

A caatinga foi ficando pra trás, e o cerrado mineiro começou a aparecer com seus campos mais abertos, arbustos retorcidos, pastagens e aquele tom mais seco no horizonte. É uma transição bonita de ver pela janela do carro. Avião pode ser mais rápido, mas esse tipo de mudança de cenário ele não entrega.

O problema é que, junto com a paisagem, veio a fome. E fome em estrada, no dia 1º de janeiro, é uma aventura à parte.

A busca por almoço no feriado

Perto do meio-dia, começamos a procurar um lugar aberto. Aí veio o desafio: restaurante fechado, lanchonete fechada, posto com movimento fraco, porta de aço baixada. A gente passava, olhava, diminuía a velocidade e nada.

Rodamos um bom trecho nesse clima de “será que hoje o almoço vai ser biscoito e água morna?”. Até que encontramos um posto com mais movimento de caminhões. Quando você está na estrada com fome, um posto aberto vira quase um ponto turístico.

O restaurante servia comida por quilo, simples e boa. Tinha arroz, feijão, salada, macarrão e aquele pão de queijo mineiro que aparece na hora certa pra salvar o humor do viajante. O almoço dos três deu R$ 65,00. Nada sofisticado, mas era exatamente o que a gente precisava naquele momento.

Ali abastecemos o corpo, esticamos as pernas e respiramos um pouco antes de voltar pra maratona. Porque ainda tinha chão. Muito chão.

O peso de dirigir mais de mil quilômetros

De Caculé até Uberlândia são pouco mais de mil quilômetros. É um trecho pesado pra fazer em um dia só. Mesmo com estrada vazia, o corpo sente. A perna começa a reclamar, os olhos cansam, a atenção precisa ser redobrada e qualquer parada vira um pequeno alívio.

A Marianny se acomodou no banco de trás, colocou o fone de ouvido e dormiu boa parte do caminho. Minha esposa assumiu a direção por algumas horas, e isso ajudou bastante. Em viagem longa, dividir o volante faz muita diferença. Quem acha que consegue dirigir o dia inteiro sem perder rendimento está confiando demais na própria teimosia.

No meio da tarde, paramos de novo pra comprar água e descansar um pouco. O movimento na rodovia continuava tranquilo. Um frentista comentou que a estrada estava bem mansa naquele dia. E estava mesmo. Mas estrada vazia também dá sono, então não dá pra relaxar demais.

Durante o caminho, fomos conversando sobre os dias anteriores da viagem. Relembramos Porto Seguro, a estrada de terra pra chegar na Praia da Pitanga, os lugares que valeram a pena e aqueles perrengues que, na hora, cansam, mas depois viram história boa pra contar.

Chegando em Uberlândia

Já era quase 20h quando começamos a ver as luzes de Uberlândia no horizonte. Depois de um dia inteiro dentro do carro, enxergar a cidade de destino dá um alívio difícil de explicar.

Uberlândia é um dos grandes polos econômicos do Triângulo Mineiro, com comércio forte, serviços, universidades e uma localização estratégica no interior do Brasil. Mas, naquela noite, eu confesso que não estava pensando em economia, logística ou desenvolvimento urbano. Eu só queria banho, comida e uma cama parada.

E tivemos um privilégio enorme: fomos direto pra casa da minha irmã. Isso muda tudo. Depois de mais de mil quilômetros de estrada, não precisar procurar hotel, fazer check-in e descarregar mala em recepção foi uma bênção prática da vida viajante.

Deixamos as malas, respiramos um pouco e ainda fomos jantar num restaurante simples perto da casa dela, pra não dar trabalho na cozinha. Gastamos R$ 55,00 para nós três. Comida simples, prato cheio e o tipo de refeição que parece melhor ainda quando o corpo está pedindo descanso.

Voltamos pra casa da minha irmã quase nos arrastando. A primeira grande etapa do retorno estava vencida. No dia seguinte, ainda teríamos cerca de 800 km até Cascavel. Mas isso já é conversa pra outro relato.

Dicas práticas para viajar de carro no feriado

Abasteça antes: em feriados como 1º de janeiro, muitos postos e restaurantes menores podem estar fechados. Não espere o tanque entrar na reserva.

Leve água e lanche: uma caixa térmica simples com água, frutas e lanches fáceis pode salvar o dia, principalmente em trechos com pouca estrutura.

Não confie só no GPS: ele calcula o tempo ideal, mas não sente fome, sono, calor nem cansaço. Coloque paradas reais no planejamento.

Divida a direção: se tiver outro motorista no carro, reveze. A viagem fica mais segura e menos pesada.

Evite pressa no fim do dia: depois de muitas horas dirigindo, o reflexo diminui. É justamente aí que a atenção precisa ser maior.

Planeje a hospedagem: em trechos longos, já saber onde vai dormir reduz o estresse no fim da viagem.

Reflexões do asfalto

No fim das contas, esse foi um daqueles dias em que a viagem pesa no corpo, mas alimenta a memória. Sair de Caculé de madrugada, ver o sertão verde pela janela, cruzar Minas Gerais e terminar o dia sendo recebido por família em Uberlândia foi cansativo, mas especial.

A estrada tem esse poder. Ela mostra o tamanho do Brasil sem precisar explicar muita coisa. Você vê a paisagem mudando, o sotaque mudando, o clima mudando e, quando percebe, também está mudando um pouco por dentro.

Não recomendo fazer mais de mil quilômetros em um dia se você não tem costume. É puxado mesmo. Mas, pra quem gosta de estrada e sabe respeitar os limites do corpo, esse tipo de viagem deixa lembranças que nenhum voo rápido conseguiria entregar.

Agora me conta: qual foi a viagem de carro mais longa que você já fez em um único dia? Você encararia mais de mil quilômetros de estrada ou prefere dividir o percurso com mais calma?

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