Marechal Rondon: o outro lado do herói que virou nome de estado

O nome de Marechal Rondon está em rodovia, escola, aeroporto, quartel e até no mapa do Brasil. Rondônia é ele. Aqui no Paraná tem cidade inteira batizada em homenagem, Marechal Cândido Rondon. Com tanta placa espalhada, fica fácil imaginar um personagem sem defeito, desses que atravessaram a história sem errar uma vírgula.
Só que a vida real costuma ser menos comportada. Fui atrás da história desse homem e encontrei duas coisas ao mesmo tempo: um militar que proibia os próprios soldados de atirar em indígena, mesmo sob ataque, e um projeto de Estado que abriu caminho pra ocupação das terras desses mesmos povos. As duas coisas são verdade. E é justamente isso que torna a conversa interessante.
Um aviso antes de você descer o texto
Se você chegou esperando mais uma biografia de herói, melhor ajeitar a expectativa. Nessa história tem um militar que proibia a própria tropa de revidar flechada, tem foto posada com bandeira, tem um órgão do governo que terminou em escândalo e tem um sobrenome que virou nome de estado inteiro. Como é que tudo isso cabe na mesma pessoa? Vai descendo que eu conto. Só adianto uma coisa: o pedestal não sai inteiro no final.
Noventa e dois anos num Brasil que não parava quieto
Rondon nasceu em 5 de maio de 1865, em Mimoso, no atual município de Santo Antônio de Leverger, em Mato Grosso. Era descendente de povos indígenas pelos dois lados da família, com ascendência Terena, Bororo e Guaná. Ficou órfão ainda criança, foi criado por parentes e depois seguiu pro Rio de Janeiro, onde entrou na Escola Militar.
Ele nasceu no Império, quando a escravidão ainda era legal, viu a Abolição em 1888, participou do movimento republicano, atravessou a Primeira República inteira, viveu a Era Vargas e morreu em 1958, no governo de Juscelino Kubitschek. E um detalhe que pouca gente sabe: o título de marechal só chegou em 1955, quando ele completou 90 anos. Nas expedições que o tornaram famoso, o homem ainda era tenente, major, coronel.
E a escravidão, ele ficou de que lado?
As biografias institucionais registram que Rondon participou do movimento abolicionista enquanto estudava no Rio, no grupo de militares influenciados por Benjamin Constant, defensor da República e do positivismo. Ele tinha 23 anos quando a Lei Áurea foi assinada.
Aqui vale segurar o entusiasmo. As fontes confirmam a participação dele nesse ambiente, mas não o colocam no nível de nomes como Luiz Gama, José do Patrocínio ou André Rebouças. O mais honesto é dizer que foi um militar de ideias abolicionistas, não um dos protagonistas da campanha. Inflar isso seria fazer com Rondon o mesmo que critico nas biografias oficiais: maquiar a história pra ela caber melhor no monumento.
Um fio de telégrafo atravessando o sertão
No fim do século XIX, boa parte do interior brasileiro vivia desligada do governo federal. Uma mensagem entre regiões distantes podia depender de semanas de viagem por rio ou por caminho aberto no mato. O telégrafo era a tecnologia mais rápida que existia.
Rondon começou nas linhas que ligavam Cuiabá ao Araguaia. Depois participou da expansão em direção a Corumbá e às fronteiras com o Paraguai e a Bolívia. Em 1907, assumiu a comissão encarregada de levar a linha de Cuiabá até Santo Antônio do Madeira, localidade que hoje faz parte de Porto Velho. O trabalho passou por regiões que hoje incluem cidades como Vilhena, Pimenta Bueno, Ji-Paraná, Jaru e Ariquemes.
Em 1915 a linha estava concluída e conectada à rede que chegava ao Rio de Janeiro. Num país sem rádio popularizado, sem telefone de longa distância e sem estrada decente naquela área, isso tinha um peso enorme. Os postes não criaram aquelas regiões do nada, porque já havia povos vivendo ali fazia muito tempo. Mas ampliaram a presença do governo e viraram ponto de apoio pra tudo que veio depois. Guarde essa frase, que ela volta mais adiante.
Mapas, bichos, plantas e até cinema
A Comissão Rondon não carregava só fio e poste. Naturalistas, fotógrafos, engenheiros e médicos acompanhavam parte das viagens, levantando informações sobre rios, relevo, doenças, animais, plantas e diferentes povos indígenas. Milhares de exemplares botânicos e zoológicos foram parar no Museu Nacional.
Em 1912, Rondon criou uma seção própria de fotografia e cinema dentro da comissão, coisa ousada pra um país que mal engatinhava na produção de filmes. E entre 1913 e 1914 veio a expedição com o ex-presidente americano Theodore Roosevelt, descendo o Rio da Dúvida, depois rebatizado de Rio Roosevelt. O telégrafo envelheceu rápido quando o rádio chegou. Os mapas, as coleções e os filmes ficaram.
"Morrer, se preciso for; matar, nunca"
As frentes de expansão daquela época eram marcadas por invasão de terra, doença, expulsão e massacre. Fazendeiro, seringueiro, turma de ferrovia: muita gente tratava o indígena como obstáculo a remover.
Rondon adotou outra orientação. As equipes dele deviam evitar o confronto, recuar quando necessário e tentar aproximação gradual, mesmo levando flechada. Em 1910, foi chamado pra dirigir o Serviço de Proteção aos Índios, o SPI, primeiro órgão federal criado pra essa função. Na prática, essa política interrompeu confrontos armados e obrigou o governo a admitir que não podia simplesmente deixar indígena sendo morto por invasor. Pra aquele tempo, mandar tropa não revidar nem sob ataque era uma mudança e tanto. Apagar esse mérito pra deixar a história mais polêmica seria tão errado quanto esconder o que vem nos próximos parágrafos.
O problema mora na palavra "civilizar"
Rondon defendia a sobrevivência dos povos indígenas, mas não trabalhava com a ideia atual de autonomia. Como positivista, acreditava que essas populações passariam por etapas até serem incorporadas à chamada civilização brasileira. O SPI tratava o indígena como alguém temporariamente separado da sociedade nacional, e o Estado assumia o papel de tutor, decidindo o que era melhor pra comunidades inteiras.
Isso significava proteção contra a violência imediata, mas também escola nos moldes de fora, trabalho organizado em padrão alheio e pressão pra abandonar modos próprios de viver. A diversidade era aceita como fase, e não como algo que devia permanecer. Rondon rejeitava as teorias de extermínio e de inferioridade racial que circulavam na época, e isso o colocava à frente de muitos contemporâneos. Mas o destino que ele imaginava pro indígena era virar brasileiro comum. Mais humanitário que a média do seu tempo, paternalista do mesmo jeito.
Pacificar também era abrir a porteira
Lembra dos postos telegráficos servindo de ponto de apoio? Aí que tá o nó. As linhas não atravessavam território vazio. Quando a comissão mapeava rio, abria picada e instalava posto, outras pessoas conseguiam chegar depois. Vieram ferrovias, fazendas, extração, cidades, projetos de colonização.
O caso dos Kaingang, no oeste de São Paulo, mostra bem essa dificuldade. A política de contato conteve os confrontos ligados ao avanço da Estrada de Ferro Noroeste e salvou vidas naquele momento. Só que a ferrovia continuou entrando no território, acompanhada pela colonização, e a terra indígena encolheu. Pro governo, "pacificação" significava tornar a região segura pra obra. Pro indígena, muitas vezes significava a chegada definitiva de quem não ia mais embora.
O SPI acabou mal
Décadas depois, o órgão acumulou denúncias de fome, doença, assassinato, corrupção e até escravização de indígenas. Uma investigação nos anos 1960 expôs abusos graves, e o SPI foi extinto em 1967, substituído pela Funai. Os piores escândalos vieram quando Rondon já estava afastado ou morto, e não é justo botar esses crimes direto na conta dele. Mas o desenho original já era de tutela e controle. O órgão que ele fundou terminou numa investigação do próprio governo.
Ele também sabia posar pra foto
As fotografias, os filmes e os relatórios da comissão tinham valor científico, mas serviam também pra convencer autoridade e público de que o trabalho merecia continuar recebendo verba. Pesquisadores apontam que os álbuns enviados ao governo funcionavam como divulgação das expedições e como construção da imagem do próprio Rondon. Muitos registros mostravam indígenas "pacificados", perto da bandeira, aceitando símbolos nacionais.
Não quer dizer que as cenas fossem falsas. Quer dizer que houve escolha sobre o que mostrar. O indígena desconfiado, resistente, contrário à ocupação, rendia menos pra narrativa de um Brasil avançando em paz. Rapaz, no começo do século XX o homem já cuidava da própria imagem, e olha que nem existia rede social.
Por que Rondônia se chama Rondônia
Em 1956, o antigo Território Federal do Guaporé virou Território Federal de Rondônia, em homenagem às expedições e às linhas que atravessaram aquela região. Em 1981, virou estado e manteve o nome. Rondon ainda estava vivo quando o sobrenome da família entrou oficialmente no mapa do Brasil.
Se quiser fuçar mais nessa história, olha isso aqui
Desconfie de biografia que só elogia, seja de Rondon ou de qualquer figura histórica. A leitura mais honesta junta o documento oficial com o que os próprios povos indígenas contam sobre esse período, e aí a versão muda de figura. Boa parte dos relatórios e das imagens da Comissão Rondon está digitalizada nos acervos do Museu do Índio, e a expedição com Roosevelt no Rio da Dúvida rende leitura melhor que muito romance de aventura. E se você passar por Rondônia ou pelo oeste do Paraná, faça o exercício de contar quantas vezes o nome dele aparece em placa. É homenagem que não acaba mais.
Os fios do telégrafo praticamente sumiram. Os mapas ficaram, as cidades cresceram, e povos indígenas seguem brigando por terras que aqueles projetos atravessaram. E o sobrenome Rondon continua lá na placa, firme.
Depois de ver os dois lados, me diz: na sua opinião, Rondon merece o pedestal, o banco dos réus, ou um lugar mais desconfortável no meio dos dois?
Ver outros relatos sobre história aqui no blog.
Fontes consultadas: esta matéria foi pesquisada em documentos e conteúdos do Senado Federal, do Museu do Índio (Funai), do CPDOC da Fundação Getulio Vargas, da revista Pesquisa FAPESP, do Governo de Mato Grosso e do Museu Virtual da Polícia Militar de Rondônia.
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