Aos 28 anos soube que minha esposa tinha um câncer de mama

No mundo, 18,1 milhões de casos de câncer de mama são diagnosticados por ano.

 

Essa será uma postagem difícil de fazer, mas me sinto no dever de escrevê-la, pois sei que infelizmente muitos podem estar passando por essa triste realidade. Minha esposa foi diagnosticada com câncer de mama.

O Diagnóstico

Quando eu tinha 28 anos minha então esposa me disse que sentiu um caroço no seio. Ficamos preocupados e no dia seguinte ela já fez uma consulta no posto de saúde do bairro. O médico disse: “Não podemos descartar nenhuma possibilidade”.  Agora era marcar consulta com especialista e fazer uma mamografia. Nossa condição financeira era bem limitada, mas em vista da urgência nós pagamos a consulta e o exame particular. Infelizmente o diagnóstico era o pior de todos. Ela tinha um Carcinoma Ductal Infiltrante, um dos cânceres de mama mais agressivos.

O cenário

E agora? Tínhamos 5 anos de casamento, um filho de 4 anos, morávamos de aluguel. Morávamos em Minas Gerais, onde tinha tratamento para a doença, mas a família dela achou que no Rio de Janeiro, sua terra natal, o tratamento seria melhor. Como de fato, o INCA (Instituto Nacional do Câncer) é um dos melhores hospitais para tratamento dessa doença em toda América Latina.

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A minha condição financeira não me dava opções. Eu não vi absolutamente nenhum poder de decisão nesse momento, uma vez que ela que estava doente. Eu tinha que respeitar a decisão dela.

Minha reação

Eu soube do diagnóstico ainda no trabalho, no meio do expediente. Trabalhava com uma barraquinha de produtos naturais em frente a um hospital. Procurei um banheiro mais próximo, entrei e chorei profundamente por alguns minutos. Só vinha uma pergunta na mente: “Porque eu?”.

A mudança

Depois de conversar sobre o assunto com bons amigos resolvemos mudar para o Rio de Janeiro. Em Minas eu estava deixando meu pai, minha mãe e meus irmãos. Também estava deixando amigos de longa data, uma história. Vendemos o que tínhamos e partimos.




Problemas após o diagnóstico

Primeiramente, ainda em Minas Gerais, a doutora fez uma biópsia na mama. Isso foi um grande erro. Ajudou a aumentar o tumor. Jamais a médica deveria ter mexido no tumor se desconfiasse de um câncer.

Ao chegar no Rio, outro problema, levou 30 dias para achar uma vaga no INCA. Durante esse período quase nada foi feito. O tumor passou de 1cm para 8cm.

Minha esposa chorava e dizia: “Não estão encontrando vaga no INCA”. Eu só pedia calma. Depois de 30 dias a vaga surgiu. A primeira coisa que fizeram foi a Quimioterapia. O tumor regrediu e então puderam fazer a mastectomia (retirada completa da mama). Depois disso, 4 meses de radioterapia.

Até hoje eu acho que ela poderia até estar viva, se não fossem esses problemas citados acima.

Período de calma

Após a retirada da mama, parecia que absolutamente tudo havia voltado ao normal. Nós então podíamos ter nossa casa de volta, como de fato já estávamos em nossa casa, mobiliar a casa e seguir com nossa vida, criar nosso filho. Enfim, a mama tinha sido retirada, o problema tinha sido extirpado da nossa vida. Esse foi um período de cerca de um ano mais ou menos.

Ele voltou

Infelizmente, uma ilusão. Ela começou a sentir dores pelo corpo. Foram feitos novos exames e o diagnóstico não era nada bom. O câncer tinha ido para os ossos.

Minha reação

Choramos muito e juntos. Mas ela disse que iria lutar, que não ia desistir. Mas no meu íntimo só uma coisa me vinha na cabeça: perdi minha esposa. É só uma questão de tempo. Meu casamento entrou em contagem regressiva. A mãe do meu filho vai partir. Como vou suportar ver ela piorar a cada dia? Ao mesmo tempo me dava pânico pensar na situação dela, que estava com a doença. Era um turbilhão de pensamentos.

Novo período de calmaria

Após a descoberta da metástase óssea ela começou um novo tratamento, chamado Arédia. O objetivo desse tratamento era segurar a doença apenas nos ossos. Esse foi um período relativamente longo, que durou cerca de 4 anos e meio mais ou menos. Era como uma transfusão de sangue, só que o produto era outro. Não tinha nada haver com sangue e sim um tipo de soro. Era feito apenas uma vez por mês. Ficávamos felizes ao saber todo mês que a doença estava estacionada nos ossos. Demais partes do corpo estavam bem.

Conseguíamos ter uma vida normal, como qualquer casal, durante esse período. Eu trabalhava, ela cuidava do nosso filho.




A parte mais triste dessa história

Por fim, certo dia, ela me olhou e disse: “Minha cara está quadrada”. Eu brinquei com ela e disse que não, que estava tudo bem. Mas no fundo eu notei mesmo o rosto um pouco fora dos padrões. Ela então sentiu uma dor do lado, um pouco abaixo da costela.

Novamente ela passou por uma bateria de exames. Foi descoberto então que o câncer havia invadido o fígado e o pulmão.

Ela agora tinha dificuldades de respirar e sentia ânsia de vômito.

Sinceramente não quero entrar mais em detalhes daqui em diante, primeiro para preservar a história de uma pessoa especial demais pra mim que foi minha esposa e a mãe do nosso único filho. Segundo porque não sei se vou conseguir relatar. Terceiro porque acho que você não precisa ler isso. Não vai te acrescentar em nada.

Perdemos ela em fevereiro de 2010, após 7 anos de tratamento e 12 anos de casamento.

As lições que ficaram

Sempre tivemos uma fé forte e o apoio espiritual, que consideramos a coisa mais importante em nossas vidas. Nosso Pai Celestial nos ajudou, nos fortaleceu e amparou em todos os momentos desses anos turbulentos que passamos.

Se você é marido e está passando por isso agora, seja paciente com sua esposa, diga a ela todo dia que a ama e que não vai deixá-la só porque perdeu uma ou duas mamas. Se tiver filhos, faça o possível para aliviar o fardo dela, cuidando um pouco mais dos seus filhos, para que ela tenha mais conforto.

Não viva a sua vida como se fosse qualquer casal sem a doença. Não ache que tudo está normal e que tudo vai ficar bem. Encare a realidade de que vão estar juntos por pouco tempo e aproveite esse tempo da melhor maneira possível. Viagem juntos, se puder. Realizem sonhos juntos. Se você tiver uma boa condição financeira, não economize dinheiro. Invista em vocês dois e dê sempre prioridade a sua esposa.

O que tenho a dizer aos viúvos

Nunca esqueça sua esposa. Tenha um lugar especial para ela em seu coração, por toda sua vida. Não se esqueça jamais dos momentos felizes que passaram juntos e foque nisso. Mostre aos seus filhos que você amava sua esposa. Mesmo que você se case novamente, tenha o devido respeito pela mãe de seus filhos.

Se casar de novo, faça sua nova esposa feliz. Não sinta que está traindo sua ex-esposa. Transforme seu amor que tinha por ela como marido no amor que sentiria por uma filha. Aprenda a conviver com possíveis erros que tenha cometido ao longo do seu casamento anterior. Você não pode voltar atrás para concertá-los. Mas você pode e deve ser um marido melhor, se casar de novo.

Considerações finais

Eu acredito que um dia vamos nos ver de novo, não como marido e mulher, mas como alguém que entrou em minha vida, não por acaso, com objetivo especial e cumpriu muito bem esse papel.

Ela me deixou um exemplo notável de força, resiliência, perseverança, amor à família e a vida. Exemplo que procuro seguir e seguirei por toda minha vida.

Para mim o amor não morre. Quem ama uma vez jamais deixará de amar. O amor por ela, como a mãe do meu filho, continua vivo e presente em minha vida e será assim para sempre.

Se há uma coisa que quero é não ser esquecido se eu partir. Por isso quero que ela seja lembrada sempre que possível, tanto agora, como na eternidade.

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