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Voo 2283 (Voepass): dois dias separaram a gente daquele avião

·7 min de leitura·por Helio Pere
Voo 2283 (Voepass): dois dias separaram a gente daquele avião

A mensagem do Evandro chegou no meio do segundo dia de passeio em Manaus. "Está tudo bem aí com você?" Só isso, mais nada. Eu li duas vezes, mostrei pra minha esposa e continuei sem entender. A gente estava de férias, e de férias eu não abro notícia.

Aí começou a chegar mensagem de todo mundo, uma atrás da outra, todas perguntando a mesma coisa. Quando eu juntei as peças, entendi o motivo. Um avião tinha caído em Vinhedo, no interior de São Paulo. E tinha decolado de Cascavel.

Faz dois anos neste 9 de agosto

O relatório técnico saiu em julho. O inquérito da Polícia Federal fechou nesta semana. E a data cai justamente hoje. Vou juntar aqui o que a gente viveu naqueles dias de agosto de 2024 com o que os documentos dizem agora, dois anos depois. Post difícil de escrever, mas eu moro nesta cidade e achei que devia.

Dois dias antes, no mesmo balcão

No dia 7 de agosto de 2024 a gente embarcou em Cascavel com destino a Guarulhos. Mesmo trecho, mesmo aeroporto pequeno, mesma fila. Foi um dia ruim de aeroporto, daqueles que rendem reclamação: teve atraso, teve cancelamento, teve gente perdendo conexão. A maioria das tomadas da sala de embarque não funcionava, o que numa espera longa chega a ser provocação. A gente só embarcou às 17h01 e pousou em Guarulhos às 18h26.

Lá em Guarulhos eu comprei uma sandália por R$ 51 e a gente comeu o lanche que tinha trazido de casa, porque preço de aeroporto é o que é. Às 22h saímos pra Manaus. Naquele momento aquilo era só um dia chato de viagem, do tipo que a gente conta rindo depois.

Dois dias depois, no dia 9, o voo 2283 da Voepass saiu do mesmo aeroporto pro mesmo destino. A gente já tinha voado com a Voepass antes, em outras datas.

Uma hora e vinte e quatro minutos

O 2283 decolou às 11h58, num ATR 72-500 de matrícula PS-VPB, com 58 passageiros e quatro tripulantes. A chegada em Guarulhos estava marcada pras 13h50. Às 13h22, já perto da aproximação, a aeronave perdeu sustentação, entrou em parafuso e caiu dentro de um condomínio residencial em Vinhedo. As 62 pessoas a bordo morreram. Nenhum morador em solo ficou ferido, que é a única linha boa deste parágrafo.

Foi o acidente aéreo mais grave em solo brasileiro desde 2007.

Cascavel virou uma cidade pequena naquela sexta

Dos passageiros, 27 moravam em Cascavel. Entre as vítimas havia oito médicos, seis deles oncologistas que iam pra um congresso sobre câncer em São Paulo, quatro professores da Unioeste, dois servidores da UTFPR e duas crianças, um menino de quatro anos e uma menina de três. Só entre a Unioeste e o Hospital Universitário do Oeste do Paraná foram oito pessoas ligadas às duas instituições, entre professores, médicos e ex-alunos.

Tinha também empresários, advogados, servidores públicos, aposentados e uma família que estava voltando pro país de origem. E tinha dez pessoas com passagem na mão que perderam o voo porque estavam esperando no portão errado.

Numa cidade do tamanho da nossa, isso significa que quase todo mundo conhecia alguém, ou conhecia alguém que conhecia. A gente tinha avisado família e amigos que ia viajar naqueles dias. Ninguém guardou a data exata na cabeça. Só sabiam que a gente tinha saído de Cascavel de avião, rumo a São Paulo. Foi por isso que o celular não parou.

Embarcar de novo

Depois disso a gente ficou pensando naquilo o tempo todo. Se a data fosse outra. Se a viagem tivesse sido marcada dois dias pra frente. É um pensamento que não leva a lugar nenhum e mesmo assim volta.

No dia 11, às 22h, a gente tinha voo de Manaus pra Belém, uns setecentos e trinta reais por pessoa, e depois ainda a volta pra Cascavel. Não foi tranquilo. Sentar na poltrona com aquilo tudo fresco na cabeça é outra coisa. Eu tentei lembrar se minha digníssima falou alguma coisa na hora do embarque e não lembro. Acho que ninguém falou muita coisa.

O banner que eu vi caminhando

Quando a gente desembarcou em Cascavel, tinha equipe de jornalismo local no aeroporto fazendo reportagem sobre o acidente. Câmera, microfone, o movimento todo. A gente chegou moído de viagem e entrou direto naquilo.

Uns dias depois, passando pelo Uopeccan num trajeto que eu faço quando saio pra caminhar, eu vi um banner enorme com os nomes. Parei e li. As duas médicas residentes de oncologia do hospital tinham trabalhado até poucas horas antes de embarcar. Em março de 2025 a cidade fez uma caminhada em homenagem às 62 vítimas no Lago Municipal, que é onde eu caminho.

O que os documentos dizem agora

Em 23 de julho deste ano o Cenipa divulgou o relatório final. A conclusão é dura: a aeronave não deveria ter sido liberada pra aquele voo. O avião tinha falhas conhecidas no sistema de proteção contra gelo, condição incompatível com a previsão de formação de gelo na rota. O documento aponta ainda que o avião saiu com falha no limpador de para-brisa, e cita problemas de coordenação da tripulação, de cultura de segurança da empresa e de fiscalização da Anac. Os investigadores identificaram falhas no sistema de degelo em três voos consecutivos, todos na asa direita.

Uma coisa precisa ficar clara antes de seguir: a investigação do Cenipa é preventiva. Ela existe pra evitar o próximo acidente e não atribui culpa civil nem criminal. Quem faz isso é outra frente.

E essa outra frente já vinha se movendo. Em março de 2025 a Anac suspendeu as operações da empresa, e três meses depois cassou o Certificado de Operador Aéreo em definitivo. A apuração encontrou 2.687 voos realizados entre agosto de 2024 e março de 2025 com aeronaves fora das condições mínimas exigidas de manutenção, e pelo menos 20 procedimentos obrigatórios que deixaram de ser feitos.

Na quinta-feira passada, dia 6 de agosto, a Polícia Federal fechou o inquérito e indiciou 16 pessoas por atentado contra a segurança do transporte aéreo, entre elas o proprietário da companhia e o então diretor de manutenção. A empresa divulgou nota afirmando que a segurança operacional sempre foi prioridade, que colaborou com as investigações desde o início e que vai exercer o direito de defesa. As famílias preparam uma ação coletiva de responsabilidade civil.

Aqui eu vou dar minha opinião, e é opinião mesmo. Número como 2.687 voos não aparece por acaso. Isso é rotina, é processo, é gente assinando papel todo dia. Gelo em asa de avião é problema conhecido desde sempre na aviação, e existe sistema pra isso justamente porque acontece. Quando o sistema falha três voos seguidos e a aeronave continua voando, o problema já saiu do céu e desceu pro escritório.

O registro ficou tremido. A vontade de voltar, não.

Se você voa com frequência, olha isso aqui
  • Manda pra alguém da família o número do voo e o horário, não só o destino. Muda tudo na hora de alguém te procurar
  • Confere o portão no painel e com o funcionário, mesmo que você ache que já sabe. Em aeroporto pequeno o portão muda sem aviso decente
  • O relatório final do Cenipa é público. Dá pra ler no site do próprio órgão, sem depender de manchete de jornal
  • Problema com companhia aérea se registra na Anac e se guarda por escrito. Se ligar pro atendimento, grave a ligação e avise a atendente que está gravando

Eu continuo voando. Não tem outro jeito de sair do oeste do Paraná pra metade do Brasil sem perder dois dias de estrada. Mudou uma coisa só: eu leio o nome da companhia na passagem com uma atenção que eu não tinha antes de agosto de 2024.

E você, já descobriu depois que passou perto de alguma coisa por questão de dias, ou de horas? Conta aqui embaixo como foi.

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