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Uberlândia tem mais gente do que nove capitais brasileiras

·7 min de leitura·por Helio Pere
Uberlândia tem mais gente do que nove capitais brasileiras

Praça Tubal Vilela, fim de tarde. Um senhor empurrava o carrinho de picolé e, junto com o de cajá, oferecia um saquinho de sal. Cinco reais o picolé. Sal em picolé era novidade pra mim, mas ali parece ser o padrão: todo vendedor carrega o sal pra oferecer junto.

Eu estava no meio de uma cidade que tinha acabado de me impressionar pelo tamanho. E o que eu levei daquele dia foi o picolé de cajá com sal.

Tem coisa embaixo do asfalto aqui

Uberlândia não entra em lista de destino turístico. Não tem praia, não tem serra famosa, não aparece em roteiro de agência. Só que os números dela desmontam qualquer ideia de cidade pequena, e uma das avenidas mais movimentadas do Triângulo Mineiro esconde uma história que quase ninguém que passa por lá conhece. Vem comigo até o fim que eu conto essa parte.

Números de capital

Uberlândia tem 761.835 habitantes, segundo a estimativa do IBGE pra 2025. É a segunda maior cidade de Minas Gerais, atrás só de Belo Horizonte, e o nono município mais populoso do Brasil fora as capitais.

Faz uma conta comigo. Pela mesma estimativa, Uberlândia tem mais moradores que Cuiabá, Aracaju, Florianópolis, Porto Velho, Macapá, Boa Vista, Rio Branco, Vitória e Palmas. Nove capitais brasileiras. Nenhuma a mais, nenhuma a menos.

Isso pra uma cidade que muita gente do Sul e do Nordeste ainda trata como cidadezinha do interior mineiro. Rapaz, cidadezinha coisa nenhuma.

Setenta e quatro no papel

A Prefeitura trabalha hoje com 74 bairros aprovados, e a previsão da Secretaria de Planejamento Urbano é chegar a uns 85 dentro do atual perímetro urbano. O número está publicado no portal da Prefeitura, na página de mapas e bairros.

Só que na boca do povo esse número é muito maior. Isso acontece por causa de um projeto chamado Bairros Integrados, criado nos anos 1980, que juntou dezenas de loteamentos antigos dentro de bairros maiores. O loteamento continua existindo, continua tendo nome e continua sendo o que o morador fala quando alguém pergunta onde ele mora. No mapa oficial, virou parte de outro bairro.

Tem o endereço da lei e tem o endereço da conversa. Os dois estão certos, cada um do seu jeito.

A avenida do córrego

A Rondon Pacheco é a avenida que dá o tom da cidade. Sete quilômetros de extensão, quarenta metros de largura, cinco pistas em cada sentido, sendo quatro de rolamento e uma de estacionamento, mais ciclovia dos dois lados. Ela cruza dez bairros: Brasil, Cazeca, Lídice, Morada da Colina, Nossa Senhora Aparecida, Patrimônio, Vigilato Pereira, Saraiva, Tabajaras e Tibery.

Aí que tá a parte que quase ninguém sabe. Aquela avenida toda foi construída em cima do córrego São Pedro. Até 1971 ela se chamava avenida São Pedro, em homenagem ao curso d'água. Depois mudou de nome, o asfalto cobriu tudo, e hoje quem passa dirigindo não faz ideia do que corre embaixo do carro. A reportagem do Comunica UFU conta essa história e mostra que a Rondon não foi a única via da cidade levantada sobre água.

É a mesma avenida onde se concentra boa parte dos restaurantes. O pessoal de lá chama o trecho de corredor gastronômico.

Maior que o Ibirapuera

O Parque do Sabiá ocupa 1.850.000 metros quadrados, o que dá 185 hectares. Pra efeito de comparação, o Parque Ibirapuera, em São Paulo, tem 1.584.000 metros quadrados. Uberlândia ganha por uns 266 mil metros quadrados de diferença, e o parque paulista é infinitamente mais conhecido.

O nome oficial do conjunto é Complexo Virgílio Galassi, e quase ninguém usa. Começou a ser construído em 7 de julho de 1977 e foi inaugurado em 7 de novembro de 1982. Dentro dele tem um bosque de 350 mil metros quadrados, lago artificial com pedalinho, zoológico, pista asfaltada de 5.100 metros, piscinas, quadras e o estádio ali do lado. A Prefeitura estima mais de 10 mil visitantes por dia, passando de 20 mil nos fins de semana. Os dados estão na página oficial do parque.

Passei uma tarde inteira lá. Tomei uma água de coco na beira do lago enquanto um grupo tocava música caipira num canto do parque. A entrada principal estava em obras naquele dia, com previsão de ganhar mais 400 vagas de estacionamento.

Shopping e terminal

A cidade tem dois shoppings grandes. O mais conhecido é o Center Shopping, aberto em 27 de abril de 1992, no cruzamento da Rondon Pacheco com a João Naves de Ávila. Tem gente na cidade que fala em mais de 400 lojas. A administradora informa mais de 300 operações, 13 lojas âncoras, dez salas de cinema e quase 57 mil metros quadrados de área locável, o que coloca ele entre os maiores de Minas Gerais.

Lugar desse tamanho engole meia manhã fácil.

Mas quem me impressionou de verdade foi o Terminal Central. Não serve apenas pra pegar ônibus: tem shopping em cima, lojas, banco e praça de alimentação. O espaço ali é muito bem aproveitado. Devia ser modelo pra outras cidades desse porte.

A feira sumida

Em Uberlândia praticamente todo bairro tem feira. Eu sabia disso e saí de manhã com minha esposa e minha sobrinha Marianny disposto a achar uma, dar uma volta e comer alguma coisa no meio do povo.

Não achamos nenhuma.

Rodamos, perguntamos, chegou perto do meio-dia e nada. Desistimos e fomos almoçar no centro. Vinte reais por pessoa, comida servida no prato, feijão tropeiro, macarrão, salada de repolho com tomate e aquele tempero de Minas que dispensa apresentação. Pra acompanhar, guaraná mineiro. A Marianny quis experimentar o Guaraná Jesus, que é maranhense e chega até lá.

Fica a lição pra quem for: feira de bairro tem dia e tem endereço. Sem conferir antes, você roda a cidade toda e almoça no centro igual a mim.

Se você for conhecer Uberlândia, olha isso aqui
  • O Parque do Sabiá tem entrada gratuita e portarias em mais de um bairro. Confira horários e eventuais obras na página da Prefeitura antes de ir
  • A pista asfaltada do parque tem 5,1 km e circula o complexo inteiro. Boa pra caminhada logo cedo, antes do calor apertar
  • Praça Tubal Vilela e Praça Clarimundo Carneiro ficam perto uma da outra, no centro, e valem uma caminhada no fim da tarde
  • Se aparecer vendedor de picolé na praça, aceite o sal no de cajá. Cinco reais e uma experiência que você não repete em casa
  • Feiras de bairro acontecem em dias e locais diferentes. Pergunte no hotel ou pra um morador antes de sair rodando
  • O Terminal Central vale a parada mesmo pra quem está de carro. É estrutura de capital

Lago e cachoeira

Dois lugares me surpreenderam fora do roteiro óbvio.

O primeiro foi a Cachoeira do Sucupira. Subi o Mangabinha, meu drone, e as imagens de cima ficaram bonitas. Só que, pelo que deu pra observar de perto, a queda d'água não é totalmente natural: tem uma estrutura de concreto ali formando a cachoeira. O acesso é meio isolado, então convém ir acompanhado e ficar atento à segurança.

O segundo foi o Parque Una, um bairro planejado na zona sul com um lago enorme no meio e prédios altos subindo em volta. O que chamou minha atenção é que não se trata de condomínio fechado. É bairro normal, rua aberta, qualquer um entra. Projeto bem diferente e interessante.

Ficamos ali até o sol baixar.

Dicas pra quem for rodar a cidade de carro
  • Uberlândia tem aeroporto. Se for usar drone, confira antes as restrições de voo da região onde você está
  • Na Cachoeira do Sucupira, o acesso é isolado. Não vá sozinho e evite chegar com pouca luz
  • O lago do Parque Una rende uma boa parada no fim da tarde, com os prédios refletindo na água
  • A Rondon Pacheco corta a cidade quase inteira e serve de referência pra se localizar em qualquer trecho

O que ficou

Voltei já de noite pra casa da minha irmã, com a sensação de ter subestimado a cidade antes de chegar. Uberlândia tem número de capital e jeito de interior ao mesmo tempo.

E tem picolé de cajá com sal, que eu não vi em lugar nenhum do Brasil até hoje.

Você já provou picolé com sal em alguma cidade por aí, ou isso é coisa só do Triângulo Mineiro?


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