Oito da manhã. O café ainda estava fresco, as malas já estavam encaixadas no porta-malas e a vontade de voltar pra casa brigava com aquela saudade antecipada dos amigos que estávamos deixando em Uberlândia. Minha esposa conferia a rota no celular enquanto a Marianny, nossa sobrinha de 17 anos, tentava acordar de verdade no banco de trás.
E já vou te adiantando uma coisa: esse retorno pra Cascavel não foi só ligar o carro e seguir viagem. Teve carro tremendo na estrada, almoço improvisado debaixo de árvore, GPS querendo inventar moda e um calor daqueles que fazem a gente questionar algumas escolhas da vida. No fim, foi uma maratona de quase 1000 km, com susto, cansaço e mais uma história pra conta.
Resumo da viagem
Data: 3 de janeiro de 2026.
Trajeto: Uberlândia, em Minas Gerais, até Cascavel, no Paraná.
Quem estava junto: eu, minha esposa e a sobrinha Marianny.
Comida do dia: pão de queijo mineiro fresquinho e marmitex de beira de estrada por R$ 25,00.
Perrengue principal: o volante do carro começou a tremer forte acima de 80 km/h, perto de Presidente Prudente.
Chegada: quase meia-noite, com o corpo cansado e a cabeça cheia de história pra contar.
A despedida de Uberlândia e o pão de queijo mineiro
Sair da casa de amigos que recebem a gente tão bem tem um peso diferente. No dia anterior, a gente tinha rido bastante, conversado, passeado pela Praça Tubal Vilela e conhecido o Parque Una. Mas viagem é assim: uma hora o roteiro chama de novo e a estrada começa a bater na porta.
Tomamos café da manhã sem muita pressa, naquela mistura de conversa, despedida e vontade de ficar mais um pouco. Mas Cascavel estava longe, e quanto mais tarde a gente saísse, mais puxada seria a chegada.
Antes de deixar Uberlândia, passamos em uma panificadora indicada por uma amiga local. E dica de morador, meu jovem, a gente não ignora. O lugar estava movimentado, com aquele barulho de xícara, gente conversando e cheiro bom de pão saindo do forno.
Fui direto no pão de queijo. Em Minas Gerais, isso nem deveria ser escolha, deveria ser parte do roteiro oficial de qualquer viajante. Compramos um pacote reforçado, além de alguns lanches, sucos e garrafinhas de água. Gastamos cerca de R$ 40,00 nessa parada, mas valeu bem a pena. Em viagem longa, ter comida e água no carro evita depender do primeiro posto caro que aparece no caminho.
Com a garrafa térmica abastecida, pão de queijo garantido e o carro pronto, deixamos Uberlândia pra trás. A saudade ficou no retrovisor, mas a cabeça já estava no próximo desafio: encarar o retorno até o oeste do Paraná.
O calor na estrada e o GPS querendo inventar moda
A paisagem foi mudando aos poucos. O verde e as áreas mais onduladas de Minas Gerais deram lugar a trechos longos de lavouras, pastos e rodovias movimentadas no interior de São Paulo. Era perto de 11h quando passamos pela região de São José do Rio Preto, e o calor resolveu mostrar serviço.
O asfalto parecia devolver o sol pra dentro do carro. Sabe aquelas ondas de calor que distorcem a visão lá na frente da pista? Pois é. O ar-condicionado trabalhava firme, mas o vidro ainda ficava morno por dentro. Minha esposa passou protetor solar mais uma vez, e a Marianny seguia no banco de trás, de fone, olhando pela janela naquele modo adolescente em viagem longa: presente no corpo, mas a mente em outro planeta.
A rodovia estava bem movimentada. Caminhões pesados, carros de família cheios de bagagem e aquele fluxo constante de quem está voltando ou indo pra algum canto. Em alguns trechos, dava pra ver grandes áreas agrícolas dos dois lados da pista, com plantações e pastagens formando aquele cenário típico de estrada pelo interior paulista.
Foi aí que o GPS resolveu brincar de guia alternativo. Do nada, o aplicativo recalculou a rota e queria que a gente pegasse uma saída meio suspeita, daquelas que a pessoa olha e pensa: “se eu entrar aqui, talvez eu só volte com ajuda dos bombeiros”.
Eu não entrei. Preferi confiar nas placas da rodovia e no bom senso. Tecnologia ajuda muito, mas em estrada longa não dá pra obedecer cegamente. Às vezes o aplicativo quer economizar cinco minutos e entrega meia hora de aventura rural não solicitada.
Isso me lembrou a nossa descida pela Serra do Marçal, quando a atenção na estrada e a leitura do caminho fizeram toda a diferença. GPS é ótimo, mas olhar placa, entender o sentido da rota e desconfiar de desvio estranho continuam sendo habilidades importantes.
Um almoço econômico debaixo das árvores
Depois de algumas horas de estrada, o pão de queijo já tinha virado lembrança. A fome foi chegando sem pedir licença, e decidimos parar em um restaurante simples de beira de pista. Daqueles lugares com pátio amplo, movimento de caminhoneiro e comida com cara de almoço de verdade.
Fui olhar os preços e gostei logo de cara. Uma marmitex caprichada custava R$ 25,00. Como a viagem ainda era longa, nós três decidimos dividir uma só. Em estrada, comer demais pode virar convite pro sono, e sono no volante não combina com retorno tão longo como esse.
A marmitex veio simples e bem servida: arroz, feijão, macarrão, salada de tomate e ovos fritos. Nada de frescura. Comida honesta, preço justo e suficiente pra gente seguir viagem sem pesar o corpo.
Mas o melhor nem foi o preço. Foi o lugar onde a gente comeu. Pegamos a marmitex, alguns talheres descartáveis e fomos sentar debaixo de uma árvore grande no quintal do restaurante. A sombra era generosa, o vento aparecia de vez em quando e os caminhões passavam ao fundo lembrando que a estrada continuava ali, esperando a gente terminar o almoço.
Aquela árvore, com a copa aberta e firme no meio do calor nos deu a oportunidade de apreciar a paiagem e o almoço virou não só um momento de recarregar as energias, mas um momento de contemplação. Não era restaurante bonito, não tinha mesa arrumada, não tinha vista planejada. Mas tinha sombra, comida quente e alguns minutos de sossego. E, sinceramente, tem hora que isso vale muito.
Quem acompanha nossas viagens por Arraial d’Ajuda sabe que marmitex e improviso já fazem parte do nosso histórico. Não é nada glamuroso, mas funciona. E ainda ajuda a economizar sem transformar a viagem em sofrimento.
O susto perto de Presidente Prudente
Depois do almoço, voltamos pra estrada com ânimo renovado. A viagem seguia naquele ritmo de rodovia longa: pneu no asfalto, paisagem passando, conversa indo e voltando. Só que, perto da região de Presidente Prudente, o clima mudou.
Eu estava na faixa da direita, tranquilo. Quando passei de 80 km/h, o volante começou a vibrar na minha mão. No começo, achei que fosse alguma irregularidade da pista. Tem trecho em que o asfalto engana mesmo. Só que a pista melhorou e a tremedeira continuou.
A vibração vinha forte pela direção. Não era aquele tremorzinho leve que a gente ignora. Era algo que dava pra sentir no braço, no banco e no ouvido. Minha esposa percebeu na hora e ficou atenta. Eu reduzi a velocidade sem pensar duas vezes.
Abaixo de 70 km/h, o carro ficava mais estável. Passou disso, a tremedeira voltava. Naquele momento, a coragem diminuiu bastante, e a prudência assumiu o volante junto comigo. Mantive o carro na direita, liguei o alerta quando necessário e fui prestando atenção em cada reação da direção.
A cabeça começou a trabalhar rápido. Poderia ser pneu, roda torta, balanceamento, suspensão ou alguma peça já pedindo manutenção. E claro, junto com a preocupação vem aquela conta mental que todo motorista faz: “quanto será que vai custar essa brincadeira?”
Mas desespero não conserta carro. O jeito era reduzir, manter calma e procurar um lugar seguro pra avaliar a situação.
A busca por socorro em Presidente Prudente
Decidimos entrar em Presidente Prudente pra tentar encontrar uma oficina ou borracharia com equipamento pra verificar o carro. Só que tinha um detalhe importante: era tarde de sábado.
Quem já precisou de mecânico em fim de semana sabe como é. A gente passou por avenidas, ruas de bairro, áreas comerciais e encontrou quase tudo fechado. Até no shopping da cidade a gente entrou. As oficinas estavam com as portas abaixadas, e os borracheiros que encontramos não tinham equipamento de balanceamento ou alinhamento.
A cidade seguia em ritmo de sábado à tarde, e nós rodando devagar, com o carro tremendo e a paciência sendo testada. Não era uma situação desesperadora, mas era desconfortável. Principalmente porque ainda faltava muito chão até Cascavel.
Isso me lembrou o susto que tivemos com o drone Mangabinha na Ponte de Guaratuba. A gente acha que está tudo sob controle, até alguma coisa resolver mostrar que viagem também tem vontade própria.
Como não encontramos conserto, tínhamos duas opções: parar em Presidente Prudente, gastar com hospedagem e esperar segunda-feira, ou seguir bem devagar, respeitando o limite que o carro aceitava. Escolhemos seguir. Não foi a decisão mais confortável do mundo, mas era a que fazia mais sentido naquele momento.
Voltamos pra rodovia e mantive o carro perto dos 70 km/h. A partir dali, a viagem deixou de ser retorno tranquilo e virou exercício de paciência.
A noite caiu e Cascavel ainda parecia longe
Depois do problema no carro, o clima dentro do veículo mudou. A conversa ficou mais baixa, e todo mundo passou a prestar atenção nos sons da estrada. Cada trepidação parecia maior. Cada buraco exigia cuidado. Cada ultrapassagem precisava ser pensada com calma.
O sol foi descendo no interior paulista, pintando o céu com um tom alaranjado bonito. Em outro momento, eu teria parado pra admirar mais. Mas naquele dia o foco estava no volante, no comportamento do carro e nos quilômetros que ainda faltavam.
Quando entramos no Paraná, o ar ficou um pouco mais fresco, e cada placa indicando Cascavel parecia uma pequena vitória. Só que, a 70 km/h, até placa perto parece distante. A vontade era chegar logo, tomar um banho e deitar na própria cama, mas o carro deixava claro que pressa não seria uma opção.
Foi uma daquelas viagens em que a gente aprende na prática que segurança vem antes de horário. Chegar mais tarde é ruim. Não chegar, aí sim seria um problema de verdade.
Chegamos em casa perto das 23h30. Quando desliguei o carro na garagem, parecia que o corpo finalmente entendeu que a missão tinha terminado. A gente estava cansado de verdade, daquele cansaço que não é só físico. É estrada, tensão, calor, preocupação e horas segurando a atenção no limite.
Nem tivemos muita cerimônia. Pegamos só o essencial, deixamos o restante no carro e fomos direto pro banho e pra cama. No dia seguinte, levei o carro ao mecânico de confiança e a suspeita se confirmou: suspensão e balanceamento precisavam de uma manutenção mais pesada. A tremedeira não era impressão. Era o carro avisando que alguma coisa não estava certa.
Dicas práticas pra viagens longas de carro
Saia cedo: em viagens longas, cada atraso no começo pesa muito no final do dia. Sair cedo ajuda a dirigir mais tempo com luz natural.
Leve água e lanches: isso evita depender de posto caro e ajuda quando a fome aparece longe de uma boa parada.
Não exagere no almoço: comer demais no meio da viagem pode dar sono. Uma refeição simples e leve costuma funcionar melhor.
Desconfie de trepidação: se o volante começar a vibrar, reduza a velocidade e procure um local seguro. Pode ser pneu, roda, balanceamento ou suspensão.
Não siga o GPS cegamente: confira placas, sentido da rota e tipo de estrada. Às vezes o aplicativo sugere atalhos que não valem o risco.
Tenha margem no roteiro: estrada longa sempre pode ter imprevisto. Calor, trânsito, obra, cansaço e problema mecânico mudam qualquer planejamento bonito.
O que essa volta me ensinou
No fim das contas, essa viagem mostrou que a volta pra casa também faz parte da história. A gente costuma lembrar mais dos parques, das praças, dos encontros e das fotos bonitas, mas a estrada tem um jeito próprio de ensinar.
Dirigir devagar, com o carro tremendo e ainda faltando centenas de quilômetros, exige paciência. Não é o tipo de experiência que a gente escolhe, mas é o tipo de situação que deixa a viagem mais real. Nem tudo sai bonito, nem tudo sai no horário, e nem sempre o roteiro obedece ao que a gente planejou.
Mas chegamos bem. Cansados, sim. Com o carro precisando de manutenção, também. Só que chegamos com segurança, e isso é o principal. O perrengue virou história, a marmitex virou lembrança boa e o pão de queijo mineiro cumpriu sua missão com dignidade.
E você, já passou por algum susto na estrada, com carro tremendo, pneu estranho ou GPS querendo te mandar pra um caminho duvidoso? Conta aqui nos comentários como foi que você resolveu.
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