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Ponte do Rio das Velhas na BR-365: travessia sob risco

·7 min de leitura·por Helio Pere
Ponte do Rio das Velhas na BR-365: travessia sob risco

Um comentário atrás do outro, todos dizendo a mesma coisa: "reza antes de passar nessa ponte". Foi pelos comentários de um vídeo que eu descobri que aquele pedaço da BR-365, no Norte de Minas, virou caso sério.

Eu passei por cima dela. Dia 22 de dezembro de 2025, sol de rachar, faltando pouco pra chegar em Pirapora. E não lembro de nada. Nem placa, nem cone, nem fila. Passei e segui viagem.

O que eu não vi na hora

Depois dos comentários eu fui atrás dos documentos oficiais, e a história é bem maior do que cabe num vídeo curto. Tem limite de peso que mudou três vezes em pouco mais de um ano, tem caminhoneiro pagando uma conta que não era dele e tem uma decisão de agosto de 2026 que muda o rumo de tudo. Fica comigo até o fim, porque a parte mais importante é a última.

Onde ela fica

A ponte está no km 141,6 da BR-365, no distrito de Barra do Guaicuí, município de Várzea da Palma, a uns 20 quilômetros de Pirapora. São 180 metros de comprimento e 100 metros de vão livre.

O lugar não é qualquer lugar. É ali que o Rio das Velhas, o maior afluente do São Francisco, nascido lá na região de Ouro Preto, encontra o Velho Chico. Uma das paisagens mais bonitas que o Criador deixou em Minas fica embaixo de uma ponte que quase ninguém para pra olhar.

E a estrada também não é qualquer estrada. A BR-365 é a ligação principal entre o Triângulo Mineiro e o Norte de Minas, muito usada por quem sai do interior de São Paulo rumo ao Nordeste. Se você já foi pro Nordeste de carro por Minas, tem grande chance de ter passado por cima dessa ponte sem saber o nome do distrito.

O dia que passei

A gente tinha saído de Uberlândia de manhã, depois de dois dias com a família e os amigos. No meio do caminho eu fiz as contas de novo, mudei a viagem inteira e troquei a Chapada Diamantina por Porto Seguro. Cabeça ocupada com rota, hotel e orçamento.

Faltando cerca de uma hora pra chegar em Pirapora, o trânsito parou. Um caminhão tinha saído da pista e estava sendo guinchado. Ficamos uns 20 minutos parados debaixo daquele sol, numa região que vivia uma onda de calor intenso. Chegamos em Pirapora 14:20 mais ou menos.

A ponte estava no meio desse trecho e eu simplesmente não registrei. Eu, que anoto preço de pedágio, nome de posto e valor de marmita. Não vou inventar lembrança que não tenho: naquele dia o limite ainda era 25 toneladas, não existia barreira física nem controle de passagem, e um carro de passeio atravessava sem perceber diferença nenhuma.

O aperto veio aos poucos

Os problemas na estrutura já eram conhecidos desde 2021. Em janeiro de 2025, o DNIT interditou parcialmente a travessia e proibiu veículos acima de 25 toneladas, enquanto contratava serviços de reforço num trecho de mais de 20 quilômetros da rodovia.

Em 11 de junho de 2026 a coisa apertou de verdade. A ponte passou a operar em sistema de pare e siga 24 horas por dia, com pesagem nas duas cabeceiras, e o limite despencou para 10 toneladas. O motivo está escrito na nota do órgão, sem meio termo: os sensores instalados na estrutura indicavam redução progressiva da rigidez e processo acelerado de acúmulo de danos. Também ficou proibida a permanência de pedestres, aglomerações e qualquer concentração de pessoas sobre o tabuleiro. Nem foto em cima da ponte pode.

Depois de novas medições, o DNIT anunciou novo limite operacional, em vigor desde as 9 horas do dia 1º de agosto de 2026: peso bruto total de até 23 toneladas, comprimento máximo de 15 metros e no máximo 4 eixos. Os três critérios valem ao mesmo tempo.

Em pouco mais de um ano, o limite saiu de 25, caiu pra 10 e voltou pra 23. Quem depende da estrada pra trabalhar não consegue planejar nada assim.

A conta do desvio

Enquanto o limite esteve em 10 toneladas, caminhão, carreta e ônibus mais pesados tiveram que sair da BR-365 e pegar o desvio pelas rodovias que passam por Corinto e Várzea da Palma. São 183 quilômetros a mais, com três praças de pedágio no caminho.

Um caminhoneiro contou à imprensa mineira que precisou levar a carreta vazia de Montes Claros até Pirapora e gastou R$ 635 a mais só nesse trajeto, entre combustível e pedágio. Carreta vazia. Sem faturar um centavo com a carga.

Em junho, empresários, produtores e caminhoneiros fizeram manifestação em cima da própria ponte cobrando solução. O DNIT chegou a avaliar contratar balsas pra garantir a travessia da região. Isso, em pleno 2026, numa rodovia federal que escoa produção agrícola.

Como está hoje

Se você vai de carro de passeio, pode ficar tranquilo. O limite de 23 toneladas não é problema seu, a não ser que a bagagem tenha saído do controle. Rapaz, aquela balança ali não está conferindo se você exagerou no pão de queijo da estrada.

O que muda pra todo mundo é o ritmo. A travessia segue em pare e siga 24 horas, com barreiras físicas instaladas, balança e fiscalização da Polícia Rodoviária Federal. A orientação é atravessar de forma contínua, sem parar em cima da estrutura. E o DNIT deixou claro que a ponte segue sob monitoramento técnico diário, com os limites podendo ser revistos a qualquer momento. Em junho, o próprio órgão avisou que, se as condições de controle não puderem ser garantidas, a ponte pode ser interditada por completo.

Ou seja: o que vale hoje pode não valer no dia da sua viagem.

Se você vai passar por essa ponte, olha isso aqui
  • Confira a situação atualizada no site do DNIT antes de sair, porque os limites já mudaram três vezes
  • Os três critérios valem juntos: 23 toneladas, 15 metros e 4 eixos
  • Motorhome, carro com reboque ou trailer: meça o comprimento antes, o teto é de 15 metros
  • Não pare em cima da ponte pra foto nem desça do carro, a permanência é proibida
  • Conte com espera no pare e siga e calcule um tempo a mais no trecho
  • Veículo pesado acima do limite: o desvio por Corinto acrescenta 183 quilômetros e tem pedágio

Agora vem a parte que quase ninguém comentou no vídeo.

A ponte nova

Em agosto de 2026 o DNIT contratou, em caráter emergencial, a reconstrução da ponte sobre o Rio das Velhas. O investimento é de R$ 56,9 milhões, com dispensa de licitação autorizada diante do comprometimento da estrutura. A situação de emergência foi oficializada depois que os laudos técnicos apontaram perda progressiva de rigidez e deterioração acelerada.

Traduzindo pra quem está no volante: a estrutura atual não vai ser só remendada. Vai ser substituída.

Cinco anos entre o primeiro alerta e a contratação da obra é tempo demais. Enquanto isso, quem paga é o caminhoneiro que roda 183 quilômetros a mais, o produtor que perde prazo e o morador de Barra do Guaicuí que vive numa fila permanente na porta de casa.

Vale a parada

Se você está indo pro Nordeste por esse caminho, pense em dormir em Pirapora em vez de emendar direto. Foi o que a gente fez, e eu não me arrependi. Deu tempo de rodar a cidade com minha digníssima, tomar um sorvete de frutas típicas de Minas no meio daquele calor e ver o pôr do sol na ponte Marechal Hermes. Ver outros relatos sobre Pirapora.

O que dá pra fazer em Pirapora numa parada rápida
  • Pôr do sol na ponte Marechal Hermes, que liga Pirapora a Buritizeiro
  • Orla e avenida Salmeron, boa pra caminhar no fim da tarde e jantar sem gastar muito
  • O vapor Benjamim Guimarães, atracado às margens do São Francisco, com passeios que dependem do nível do rio
  • Antiga estação ferroviária, desativada há muitos anos, boa pra fotos
  • Sorveteria com sabores regionais como pequi, tamarindo e seriguela
  • Vá preparado pro calor: leve água no carro e evite andar a pé no meio da tarde

Passei por cima daquela ponte sem saber de nada, no meio de um sol de dezembro, pensando em hotel e em quilômetro. Descobri o tamanho da coisa oito meses depois, lendo comentário de gente que mora ali perto e atravessa aquilo todo dia.

Da próxima vez eu vou olhar. E vou parar antes, do lado de fora, pra ver o Rio das Velhas encontrando o São Francisco.

E você, já passou por essa ponte na BR-365? Pegou o pare e siga ou atravessou antes das restrições, igual eu?

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