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É por isso que não me tornei nômade

 

Nômade digital: por que não virei e nem pretendo virar

Eu viajo por conta própria desde 1997. Mas, se puxar o fio lá atrás, descubro que comecei muito antes, ainda menino, sem ter escolhido nada disso. A estrada chegou em mim antes de eu chegar nela.

Meu pai rodava o Nordeste trabalhando em feira livre. E não ia sozinho. Levava a família inteira na bagagem: a esposa e três filhos. A gente ia junto, no aperto, no calor, no improviso, dormindo onde dava e acordando cedo pra montar a banca. O caixote de feira, a lona, o cheiro de fruta passada no fim da tarde. Foi assim até os filhos entrarem na idade escolar. Aí ele foi parando, porque criança em idade de escola não combina com estrada toda semana. A vida ajeitou o passo dele, não o contrário.

Antes de seguir, o resumo sincero

De onde eu venho: fui criado na estrada e viajo por conta própria desde 1997, então coragem de pegar a estrada é algo que sempre tive

O que mudou no mundo: virou moda largar tudo e viver viajando, e eu entendo o cansaço por trás disso melhor do que parece.

Minha posição: eu amo viajar, mas decidi não fazer da viagem o sentido da minha vida, e tem um motivo bem concreto pra isso.

O aviso honesto: isto aqui não é sermão nem dedo apontado. É um veterano de estrada dividindo o que pensa, e te convidando a pensar também.

A vida de máquina que ninguém aguenta mais

Eu reparo no que move muita gente pro estilo nômade hoje, e o raciocínio é quase sempre o mesmo. A pessoa olha pra própria rotina e fala: não sou máquina pra trabalhar a semana inteira, descansar dois dias, trabalhar mais uma semana, descansar de novo, e depois de um ano inteiro nesse múido sem fim ganhar uma viagenzinha de férias como prêmio. Não quero essa vida.

E sabe o que é o mais difícil de admitir? Essa parte ela acerta. A rotina que transforma gente em peça de engrenagem é desumana mesmo. Quem nunca sentiu o domingo à noite pesar no peito que atire a primeira pedra. Então a pessoa decide o caminho oposto: vender o que tem, pegar o computador e ir viver viajando, conhecendo gente nova, lugares diferentes, culturas, sabores. No papel é lindo. Eu mesmo, vou ser honesto, já deixei a ideia passar pela cabeça mais de uma vez. Não vou bancar o santo que nunca ouviu esse chamado.

A base que quase ninguém fala em voz alta

Só que quando eu olho com calma, percebo que por baixo dessa escolha quase sempre mora uma mesma ideia, mesmo que ninguém diga em voz alta. A ideia é mais ou menos essa: não existe nada além desta vida. Os anos que a gente tem aqui seriam tudo, então o jeito seria correr atrás de sentir o máximo possível antes que acabe.

Tem gente que vive assim e ainda diz acreditar num Deus. Só que, na prática, acaba vivendo como se Ele não fizesse diferença nenhuma. Um Deus tão distante que não chega a opinar em decisão alguma. E eu não falo isso de cima, falo de quem já passou perto desse jeito de pensar e reconhece ele de longe. Não tô aqui pra apontar dedo pra ninguém. Só quero ser honesto sobre o que eu vejo.

Por que eu não fui por esse caminho

É exatamente aqui que a minha história racha pro outro lado. Eu não virei nômade, e não é por falta de gosto pela estrada, isso eu já provei a vida toda. É porque eu acredito na existência de Deus e na influência dele na minha vida desde a adolescência. Isso não é enfeite no meu discurso. É a viga que segura a casa.

E olha, isso não é teoria de quem fica filosofando no sofá. Quando eu paro diante das Cataratas do Iguaçu, com aquele estrondo de água que cala a boca de qualquer um, eu sinto. Quando subi a Serra do Corvo Branco e olhei aquele paredão de pedra cortado no meio do mundo, eu senti de novo. E sinto também na coisa mais simples, chegar na praia e ver o mar não ter fim. Aí bate uma certeza que não tem como fugir: isso tudo não pode existir por acaso. Acaso não esculpe paisagem desse tamanho.

Quando você acredita que existe Alguém maior, e que esta vida não é o fim da linha, a conta muda inteira. A viagem deixa de ser a tábua de salvação que precisa dar sentido a qualquer custo. Ela vira outra coisa, mais leve, sem esse peso todo nas costas. Eu não preciso espremer cada gota da estrada como se fosse minha única chance de ter sido feliz. Isso, pra mim, é um alívio que pouca gente entende.

Viagem é tempero, não é o prato principal

Por isso eu encaro a viagem como um complemento da minha vida, e não como o objetivo dela. Eu viajo, gravo, escrevo, conheço lugar, como bem, rio dos perrengues, brigo com GPS, durmo em pousada simples e levo minha digníssima junto em quase tudo. Mas quando o carro desliga e eu chego em casa, a minha vida não some. Ela continua, com fé, com gente, com compromisso, com raiz. A estrada é parte do caminho, não é o caminho inteiro.

E tem uma diferença prática nisso, viu? Quem faz da viagem o sentido total vive com medo de parar. Parou, acabou o propósito. Eu paro tranquilo. Volto pra rotina sem aquela sensação de que perdi minha identidade no pedágio da volta. A viagem me alimenta, mas não é ela que me sustenta.

No fim, é só um convite

O carro entra na garagem.

As malas voltam para dentro de casa.

E a vida segue.

No meu caso, é assim que a viagem encontra o lugar dela: importante, bonita, necessária em muitos momentos, mas sem ocupar o espaço de tudo. Eu vim ao mundo a passeio, sabendo que tenho casa pra onde voltar e Alguém me esperando na chegada.

E pra você, a viagem é tempero da vida ou já virou o prato principal?

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